Soraia continuava flutuando, mas nem ela mesma suportava olhar para o próprio corpo. Como de costume, encolheu-se em um canto do necrotério, mergulhada em uma apatia absoluta, sem alegria ou tristeza.
Até que viu Bernardo surgir novamente diante de seus olhos.
Ele parecia devastado. Ao encontrar o olhar fixo e sem vida de Soraia, as lágrimas começaram a rolar silenciosamente por seu rosto. Uma enxurrada de lembranças o atingiu, e cada fragmento do passado tornava o desfecho atual ainda mais inaceitável.
Ele a protegera a vida inteira, mas fora ele quem a empurrara para o abismo.
Lembrou-se de quando um colega de escola lhe enviara uma carta de amor, prometendo passeios de carro esporte. Ao saber disso, Bernardo comprara uma garagem inteira com carros de luxo avaliados em milhões apenas para ela brincar.
Lembrou-se de quando ela teve febre e ele abandonou reuniões cruciais no exterior, voando por mais de dez horas para vigiar seu sono até a temperatura baixar.
Lembrou-se de cozinhar chá de gengibre com açúcar mascavo para aliviar suas cólicas, soprando a xícara antes de entregá-la. De levá-la ao parque, comprar sorvete e acompanhá-la no carrossel.
Bernardo sempre acreditara que o amor de Soraia por ele era um erro catastrófico. Somente agora, ao perdê-la, percebia que ele também já não podia viver sem ela. Ele era dez anos mais velho; vira Soraia crescer como uma menina adorável que sempre implorava por um abraço. Aquele corpinho macio e quente lhe dava forças para enfrentar a exaustão do trabalho.
Ele sempre jurara a si mesmo que aquilo não era amor.
Mas, desde que ela voltara do instituto, vê-la naquele estado de alheamento o deixava inquieto e irritado todas as noites. Ao vê-la suportar chicotadas sem gritar ou implorar, com as costas cobertas por uma rede de cicatrizes antigas — marcas de torturas repetidas gravadas na pele —, ele sentira uma dor aguda e um desamparo profundo.
Até mesmo quando abraçava Melissa, seus pensamentos fugiam para Soraia. Sua Soraia, que antes era mestre em reclamar de dor e manusear mimos para conseguir o que queria. Não aquela figura imóvel que todos chamavam de "cadáver".
— Soraia... você deve estar com frio.
Com essas palavras, Bernardo amparou o corpo de Soraia na mesa de metal e a puxou para seus braços. Ao ver o lençol deslizar, revelando as marcas de chicote e a pele já arroxeada, ele sentiu que não suportaria continuar olhando.
Ele a acomodou em seu peito e deitou-se ao lado dela na mesa fria. Cobriu-a cuidadosamente com o lençol e a envolveu em um abraço protetor.
— Soraia, não tenha medo. Eu não vou te deixar sozinha.
O corpo de Bernardo teve um tremor visível; a temperatura ali era insuportável para um ser vivo.
— Minha pequena, você lembra qual era o presente que eu preparei para o seu aniversário de 18 anos?
No canto da sala, a alma de Soraia tentava lembrar, mas sua memória falhava. O aniversário de 18 anos fora o início de seu pesadelo. Fora o dia em que sua carta de aceitação da universidade foi rasgada e ela foi enviada para aquele reformatório que a destruiu. A dor e a dormência haviam apagado qualquer lembrança doce.
— Eu preparei a transferência de todas as minhas propriedades para o seu nome. Quase todos os lugares que você conhece teriam um teto seu.
— Eu pensei que, como você passara em uma universidade tão boa, logo iria querer viajar pelo mundo. Se não gostasse de alguma casa, poderia vendê-la para financiar suas viagens. Eu só queria que você fosse feliz a vida inteira.
Bernardo acariciava os cabelos de Soraia, alinhando os fios com uma ternura infinita. Ele olhou para o rosto dela e, com os lábios trêmulos, beijou sua testa.
— Eu errei.
— Achei que, se você desistisse de mim, poderíamos voltar a ser como antes. Mas acabei transformando você em uma Soraia que não sente dor e não sabe mais sorrir. O seu tio errou feio.
Ele fixou o olhar no rosto dela — nos olhos, no nariz delicado e, finalmente, nos lábios cinzentos e sem cor. Sem hesitar, ele a beijou.
A alma de Soraia assistia a tudo com incredulidade. Ele estava beijando o seu cadáver. E o que a deixou ainda mais chocada foi ver Bernardo passar a noite inteira ali, abraçado àquele corpo gelado e sem vida.