O rosto sem vida de Soraia mantinha os olhos abertos, uma visão que perfurou a alma de Bernardo como lâminas de gelo.
Suas pupilas se contraíram e ele ficou paralisado, em um estado de negação absoluta.
— Soraia?
O sussurro foi o estopim. De repente, seu coração pareceu ser agarrado por ganchos de ferro, uma dor lancinante que o fez despertar do transe.
Suas pernas fraquejaram, mas ele rugiu com uma força vinda do desespero:
— Alguém ajude! Salvem-na!
Quase em surto, ele a arrancou de cima do capô do carro.
Ao acalentar o rosto dela entre as mãos, Bernardo percebeu que seus próprios dedos tremiam incontrolavelmente.
O toque da pele gélida o mergulhou no pânico.
— Saiam da frente! Abram caminho!
Ao baixar o olhar, o horror atingiu seu ápice.
Soraia estava despida, seu corpo era uma colcha de retalhos de cicatrizes antigas e recentes.
Mas o que fez seu sangue congelar foi a visão do abdômen dilacerado pelo impacto, onde a carne e o sangue se misturavam de forma grotesca.
A última barreira de sua sanidade rompeu-se ali.
Ele a apertou contra o peito. O corpo frio dizia que ela já havia partido, mas ele se recusava a aceitar.
Ele a carregou para dentro do carro; ela estava assustadoramente leve.
O sangue viscoso escorria por seus braços, deixando um rastro escarlate pelo chão, alimentando seu medo visceral.
— Rápido! — gritou ele, com o olhar desfocado. Cada passo que dava parecia ser sobre nuvens, sem firmeza. — Não tenha medo, Soraia. O tio está aqui. Não tenha medo.
Ele repetia as palavras como um mantra, mas ao chegar à porta do veículo, percebeu que não conseguia abri-la sem soltá-la.
Seus olhos, vermelhos como os de um lobo ferido, fixaram-se no motorista que assistia a tudo trêmulo:
— Abra a porta! Agora!
O motorista, vendo o corpo claramente sem vida nos braços do patrão, hesitou:
— Senhor... ela já morreu...
Essa frase foi como um fósforo em um barril de pólvora. Bernardo rugiu, a voz carregada de uma promessa de morte:
— Se não abrir essa porta agora, eu mato você!
Um pedestre apressou-se em abrir a porta para ele antes de se afastar rapidamente.
Bernardo acomodou-a no banco, cobrindo-a com seu paletó caro como se quisesse protegê-la do mundo, e a abraçou com força, temendo que ela desaparecesse se ele a soltasse por um segundo.
O motorista deu partida, mas não conseguia evitar olhar pelo retrovisor para o homem que parecia ter perdido o juízo no banco de trás.
Bernardo acariciava o topo da cabeça de Soraia, tentando confortá-la:
— Vai ficar tudo bem. Já vai passar. Não tenha medo...
Ele parecia mergulhado em uma psicose, alternando entre a dormência e uma agonia profunda.
Enquanto isso, acima do corpo inerte de Soraia, uma névoa tênue e incolor começou a se desprender, ganhando a forma de um espírito etéreo.
A alma de Soraia observava a própria palidez no banco do carro e olhava para o homem que a abraçava com desespero.
— Soraia... Soraia...
Ela assistia àquela cena sem qualquer vestígio de emoção. Comparada às atrocidades que suportou, aquelas lágrimas dele não tinham valor algum para ela.
Ela o seguiu enquanto ele a carregava para dentro do hospital, gritando histericamente pelos corredores:
— Médicos! Salvem-na! Por favor!
Um médico aproximou-se, checou os sinais vitais e balançou a cabeça com pesar:
— Sinto muito, Sr. Peixoto. Ela já faleceu. Meus pêsames.
Bernardo, porém, agarrou o jaleco do médico com uma força bruta:
— Tente alguma coisa! Como ousa desistir sem nem tentar?!
Sem ninguém para contê-lo e temendo pela própria integridade, o médico assentiu. Quando Soraia foi levada para a sala de emergência, Bernardo desabou no chão do corredor. As mãos ensanguentadas trouxeram de volta a última lembrança dela viva:
"Eu errei! Eu juro que errei! Por favor, não me deixe com eles! Eu vou enlouquecer, eu juro que vou enlouquecer!"
Aquele grito de desespero agora ecoava em sua mente, sufocando-o. Lágrimas pesadas caíam de seu rosto, misturando-se ao sangue em suas mãos. O remorso era uma ferida aberta que o fazia soluçar como uma criança:
— Soraia... minha pequena...
Pairando no ar, a alma de Soraia via, pela primeira vez na vida, Bernardo Peixoto chorar daquela forma.
Mas, para sua própria surpresa, ela não sentia absolutamente nada. Nem pena, nem ódio. Apenas o vazio.