No dia da alta hospitalar, Bernardo foi buscá-las. No banco de trás, Melissa segurava o braço de Soraia, fingindo uma doçura angelical:
— Soraia, amanhã é o meu casamento com seu Tio Bernardo. Embora você tenha sido impulsiva com aquele incêndio, não quero guardar rancor. Vamos esquecer o passado e recomeçar do zero, que tal?
Soraia não respondeu. Mantinha a cabeça baixa, os olhos fixos no vazio, como se sua alma estivesse a quilômetros de distância dali. Bernardo franziu o cenho, o desapontamento nítido em sua voz:
— Você não ouviu o que ela disse? Tenha modos.
O silêncio persistiu, pesado e sufocante. No meio do trajeto, o celular de Bernardo tocou. Era da gerência do hotel onde seria realizada a cerimônia — mudada de última hora do iate para um salão em terra firme, justamente para evitar que Soraia tentasse algo contra Melissa novamente.
— Sr. Peixoto, houve um imprevisto na decoração do altar. Poderia vir verificar?
Bernardo suspirou e mudou a rota. Ao chegarem, ele instruiu as duas:
— Vão para a suíte descansar. Eu resolvo isso e encontro vocês em breve.
Melissa sorriu e puxou Soraia para o elevador. Assim que a porta do quarto se fechou, a máscara de bondade caiu.
— Soraia, eu realmente admiro sua persistência. Casamos amanhã e você ainda está aqui?
— Eu vou embora — respondeu Soraia, num sussurro seco.
— Vai embora? Acha que sou idiota? Se quisesse ir, já teria ido. Você fica porque ainda nutre a esperança ridícula de que o Bernardo sinta algo por você. Entenda: você é apenas um fardo, um erro do passado dele!
Melissa deu dois estalos com os dedos. A porta lateral se abriu e um grupo de homens maltrapilhos e de aparência hostil invadiu o quarto. Antes que Soraia pudesse reagir, Melissa rasgou o próprio vestido, bagunçou o cabelo com violência e correu para a porta principal aos prantos.
— Socorro! Bernardo, me ajude!
Bernardo, que subia naquele exato momento, arrombou a porta. Melissa atirou-se em seus braços, soluçando histericamente:
— Bernardo... a Soraia... ela trouxe esses homens para abusarem de mim! Ela quer me destruir antes do casamento!
Bernardo olhou para a cena — os homens no quarto e Soraia paralisada ao fundo. A fúria em seus olhos era como um incêndio devastador.
— Soraia... você é verdadeiramente irrecuperável!
Soraia abriu a boca para tentar explicar, mas o olhar de Bernardo a silenciou.
— Já que você gosta tanto da sensação de ser humilhada, então vai passar a noite aqui com eles! — sentenciou ele, a voz gélida.
Ele pegou Melissa nos braços e virou as costas. O sangue de Soraia gelou instantaneamente. Imagens do Instituto Santa Marina inundaram sua mente: o quarto escuro, os chicotes, os sorrisos perversos daqueles homens que a "reeducavam".
O pânico a dominou. Lágrimas grossas começaram a cair, rompendo sua apatia de anos.
— Tio Bernardo! Me ajude! Por favor, não me deixe aqui! — Ela se arrastou pelo chão, tentando segurar a barra da calça dele, mas foi repelida com um chute frio.
Ela começou a bater a testa contra o chão com uma força desesperada. O som das pancadas ecoava pelo quarto luxuoso.
— Eu errei! Eu juro que errei! Por favor, não me deixe com eles! Eu vou enlouquecer, eu juro que vou enlouquecer!
Sua voz era um grito de puro desespero. O sangue de sua testa misturava-se às lágrimas, manchando o tapete claro. Pela primeira vez desde que ela voltara daquele reformatório, Bernardo a via desmoronar completamente.
Ele hesitou por um milésimo de segundo, mas, influenciado pelos soluços de Melissa em seu peito, continuou caminhando sem olhar para trás.