O corpo de Bernardo estancou. Seu olhar caiu sobre Soraia, revelando uma hesitação torturante e um conflito interno profundo.
Seus dedos tremiam levemente, e ele sentia como se o coração estivesse sendo esmagado por mãos invisíveis, tirando-lhe o fôlego.
Ele abriu a boca, as palavras lutando para sair, mas acabou engolindo-as a seco.
O cirurgião, percebendo a hesitação, pressionou:
— Sr. Peixoto, a Dona Melissa desmaiou de dor. Cada segundo que hesitamos aumenta drasticamente o risco de cicatrizes permanentes. Precisamos de uma decisão agora.
O rosto de Bernardo empalideceu, como se tivesse sido encurralado contra um abismo.
Ele respirou fundo, tentando reunir os restos de sua determinação, e finalmente murmurou:
— Soraia... eu sempre te ensinei que todo erro traz consigo uma punição.
Ao ouvir aquelas palavras, o mundo de Soraia pareceu estilhaçar-se dentro de seu peito.
Seus lábios se moveram, mas nenhum som foi emitido. Ela percebeu, com uma lucidez aterradora, que embora quisesse chorar, não possuía mais uma única lágrima.
Talvez todas tivessem secado nos corredores sombrios do Instituto Santa Marina.
Com uma expressão anestesiada, ela permitiu ser empurrada para dentro do centro cirúrgico, como um invólucro vazio desprovido de alma.
Assim que as portas duplas se fecharam, Melissa, que supostamente havia "desmaiado de dor", sentou-se abruptamente na mesa de operação.
Um sorriso triunfante e cruel surgiu em seu rosto, sem qualquer vestígio de agonia. Ela olhou para o médico com um brilho gélido nos olhos:
— Podem começar. E lembrem-se: nada de anestesia. Quero que retirem a pele dela centímetro por centímetro.
Os médicos e enfermeiros trocaram olhares nervosos, mas ninguém ousou desafiar a futura senhora Peixoto.
As enfermeiras avançaram, imobilizando os braços e pernas de Soraia contra a mesa fria.
Soraia não lutou. Ficou imóvel, os olhos fixos no teto branco e impessoal.
No momento em que o bisturi rasgou sua carne, uma dor lancinante e absoluta atravessou seu corpo.
Seu organismo teve um espasmo involuntário, mas ela cerrou os dentes com tanta força que sua mandíbula estalou. Nem um gemido escapou.
A lâmina deslizava lentamente, separando a pele centímetro a centímetro, enquanto o sangue tingia os lençóis cirúrgicos de um vermelho vivo.
Seus dedos agarravam a borda da mesa com tal intensidade que os nós de suas mãos ficaram brancos e as unhas cravaram-se no metal, mas o silêncio permanecia absoluto.
Melissa observava tudo de pé, com um prazer sádico.
— Você é um monstro, Soraia — debochou Melissa com uma risada leve. — Mesmo nesta situação, continua sem emitir um som.
Soraia não respondeu. Apenas suportou a agonia rítmica de cada corte.
Conforme a lâmina avançava e retalhos de sua pele eram removidos, sua consciência começou a oscilar.
O ambiente tornou-se turvo e distante. O silêncio do centro cirúrgico era quebrado apenas pelo bipe monótono dos aparelhos e pela risada vitoriosa de Melissa.
— Depois, joguem esses restos fora. Deem para os cães — ordenou Melissa.
A resistência de Soraia finalmente cedeu. A escuridão a envolveu por completo e ela desmaiou.
Quando recobrou os sentidos, Soraia estava em um leito de hospital. Seu braço estava envolto em camadas espessas de gaze; o menor movimento enviava ondas de choque de dor por todo o seu sistema.
O quarto estava mergulhado em um silêncio opressor, interrompido apenas pelos sussurros ocasionais das enfermeiras no corredor.
— O Sr. Peixoto é tão dedicado à Dona Melissa... não sai do lado dela e faz questão de alimentá-la na boca.
— Pois é, o casamento é amanhã. Eles formam um casal tão lindo.
— E aquela menina, a Soraia? Ouvi dizer que o Sr. Peixoto a tratava como uma princesa antes. Por que agora ele a ignora completamente? Coitada.
Soraia permaneceu calada, ouvindo cada palavra com uma indiferença gélida.
Em sua mente, ela apenas continuava a contagem regressiva. Faltavam poucos dias para sua partida definitiva.