— Soraia, cuidado!
As pupilas de Bernardo se contraíram. No instante em que o enorme lustre se desprendeu, ele se lançou sem hesitar, envolvendo Soraia em seus braços para protegê-la.
O objeto pesado atingiu o ombro dele com um estrondo abafado. Cristais estilhaçaram-se por todos os lados, mergulhando o salão em um caos absoluto enquanto os convidados gritavam e corriam em busca de abrigo.
Melissa correu até eles, as mãos trêmulas e o rosto banhado em lágrimas:
— Bernardo! Como você está? Está doendo muito? Vamos para o hospital agora!
Bernardo olhou para Soraia, que ainda tremia em seus braços, e tentou controlar o tom de voz apesar da dor:
— Não é necessário. É apenas um ferimento leve.
Mas Melissa foi implacável:
— De jeito nenhum! Você precisa de cuidados médicos imediatamente!
Sem alternativa, Bernardo cedeu e pediu que seu assistente o levasse ao hospital. Antes de partir, ele instruiu Melissa com seriedade:
— Mel, leve a Soraia para casa. Ela vai ficar com medo se estiver sozinha.
A expressão de Melissa azedou instantaneamente:
— Com tudo o que está acontecendo, você ainda se preocupa com ela?
— Por favor, faça o que eu pedi — disse Bernardo, empalidecendo pela dor. — Afinal, eu a criei desde pequena.
Melissa rangeu os dentes e, de má vontade, agarrou o pulso de Soraia, arrastando-a para o carro.
A mente de Soraia estava um borrão; ela apenas seguia os movimentos de Melissa como um autômato.
No meio do trajeto, Melissa ordenou abruptamente que o motorista parasse. Ela encarou Soraia com um olhar carregado de veneno:
— Surgiu um imprevisto e não vou para casa agora. Você que se vire para chegar a pé.
O motorista tentou intervir, cauteloso:
— Dona Melissa, está muito frio lá fora...
— Quem vai ser a futura senhora desta casa? — Melissa o cortou bruscamente. — Você já esqueceu a quem deve obediência?
O motorista calou-se, impotente, vendo Soraia descer do carro e desaparecer na escuridão da noite.
Soraia caminhou por cinco horas ininterruptas até avistar a mansão dos Peixoto. No caminho, a falta de iluminação a fez cair em uma vala lamacenta.
Quando finalmente chegou, suas roupas estavam encharcadas, o cabelo grudado ao rosto e sua aparência era de total exaustão.
Contudo, antes que pudesse recuperar o fôlego, percebeu que a propriedade estava envolta em chamas. Labaredas gigantescas lambiam o céu noturno.
Antes que pudesse processar a cena, vários seguranças a cercaram, segurando-a com força pelos pulsos:
— Senhorita, você ateou fogo à casa e causou queimaduras de terceiro grau na Dona Melissa. Ela está em estado crítico no hospital. O Sr. Peixoto ordenou que a levássemos para lá imediatamente.
Soraia ficou em choque, balançando a cabeça em negação:
— Eu não... eu não fiz nada...
Os seguranças ignoraram seus apelos e a jogaram no carro, partindo em alta velocidade.
No hospital, Bernardo estava encostado na parede do corredor, com o ombro esquerdo enfaixado e o paletó preto pendurado no braço livre. Sua expressão era sombria e gélida.
Ao ver Soraia ser trazida, ele levantou os olhos, exalando uma fúria contida:
— Soraia, você não consegue passar um dia sem causar uma tragédia? O que a Melissa te fez para você tentar queimá-la viva?
— Não fui eu, Tio Bernardo... eu juro que não fui eu...
— Chega! — ele a interrompeu com um grito gélido. — As evidências são claras. Se não foi você, está sugerindo que a Melissa se incendiou propositalmente apenas para te culpar?
Ela tentou explicar novamente, mas as portas do centro cirúrgico se abriram com estrondo. O cirurgião saiu apressado, com um semblante grave:
— Sr. Peixoto, o estado da Dona Melissa é severo. Ela precisará de enxertos de pele imediatamente. Antes de perder a consciência, ela deixou um recado: disse que o senhor sempre foi indulgente demais com a senhorita Soraia, e que desta vez, a responsável deve pagar com o próprio corpo pelo dano causado.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Todos ali entenderam a mensagem implícita de Melissa:
Ela queria a pele de Soraia para o seu transplante.