Soraia passou o dia inteiro reclusa em seu quarto cuidando das feridas.
As marcas do chicote em suas costas ainda queimavam como brasa viva, mas ela já havia se habituado a conviver com a dor física; era sua única constante.
De repente, a porta se abriu suavemente. Melissa entrou segurando um vestido de festa sofisticado.
— Soraia, hoje é o aniversário do Bernardo. Organizei uma recepção para ele e quero que você nos acompanhe.
Soraia balançou a cabeça negativamente, a voz sem vida:
— Eu não vou. Vocês podem ir sozinhos.
O sorriso de Melissa congelou por um instante, e seu tom de voz adquiriu um matiz ameaçador:
— Soraia... é melhor você ser uma boa menina e obedecer.
Ao ouvir essas palavras, o corpo de Soraia teve um espasmo involuntário. Seus olhos tornaram-se instantaneamente opacos, perdendo qualquer brilho de consciência.
Como se estivesse sob o controle de uma força invisível, ela assentiu mecanicamente, pegou o vestido e virou-se para se trocar.
Melissa observou as costas da jovem com um sorriso vitorioso.
Ela já havia notado que, sempre que dizia "seja uma boa menina e obedeça",
Soraia reagia como se estivesse sob um feitiço, submetendo-se sem qualquer resistência. Melissa chegou a se perguntar se aquele seria um hábito moldado no Instituto Santa Marina, mas logo descartou a ideia; afinal, uma escola de etiquetas e moral não usaria métodos tão sombrios... ou usaria?
Antes que pudesse concluir o raciocínio, Soraia saiu do closet já vestida. Melissa a avaliou de cima a baixo e assentiu satisfeita:
— Vamos. A festa está prestes a começar.
No salão de festas, sob o brilho dos cristais e cercada pela elite da sociedade, Soraia seguia Melissa de cabeça baixa, como um fantoche desprovido de alma. Sua presença imediatamente despertou sussurros entre os convidados.
— Aquela é a menina que o Sr. Peixoto criava como uma joia? Por que parece tão abatida, pele e osso? Cadê o brilho dela?
— Pois é, meu filho era apaixonado por ela na escola. Dizia que ela era a garota mais radiante da cidade. Agora parece um boneco de ventríloquo.
— Perto da noiva do Sr. Peixoto, ela perde todo o destaque.
— Melissa e Bernardo sim formam um casal perfeito, o verdadeiro "match" da alta sociedade.
Soraia permanecia imune aos comentários, mantendo-se em silêncio absoluto. Melissa caminhou até Bernardo, enlaçando seu braço com doçura.
— Bernardo, querido, todos estão dizendo que fomos feitos um para o outro.
Bernardo sorriu levemente, retribuindo com uma voz suave:
— Estão apenas constatando o óbvio.
No momento da entrega dos presentes, Melissa revelou uma caixa elegante. Sua voz carregava uma timidez ensaiada:
— Eu sei que você já tem tudo, por isso meu presente é um plano de planejamento familiar. Já que vamos nos casar em breve, quero ter um casal de filhos. O que você acha?
Bernardo hesitou por um segundo, lançando um olhar instintivo para Soraia, que estava a poucos metros. Ele logo desviou o olhar e respondeu com condescendência:
— O que você decidir está decidido. Eu concordo com você.
Melissa aninhou-se em seus braços, vitoriosa, e então virou-se para a jovem:
— E você, Soraia? O que trouxe para o seu tio?
Soraia manteve o olhar baixo, retirou um estojo de veludo da bolsa e o estendeu para Bernardo.
Ao abrir, ele deparou-se com um bracelete de jade de uma transparência impecável.
Melissa olhou de relance e comentou com desdém:
— Um bracelete? Bernardo não usa esse tipo de acessório. Você não se esforçou muito na escolha do presente, não é?
Soraia não respondeu à provocação. Ela apenas levantou os olhos para encontrar os de Bernardo.
Naquele momento, apenas os dois compartilhavam o peso daquele objeto. Aquele bracelete era uma relíquia da família Peixoto, destinada exclusivamente à futura matriarca do clã.
Anos atrás, Soraia havia implorado e feito birra até conseguir a joia. Bernardo, achando que era apenas um capricho de menina e querendo mimá-la além da conta, acabou cedendo.
Agora, ela o estava devolvendo voluntariamente.
— Tio Bernardo... desejo que você seja muito feliz — disse ela, com a voz num fio.
O coração de Bernardo deu um solavanco doloroso. Ele abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por um grito agudo vindo do centro do salão.
Ele olhou para cima e viu, com horror, que o enorme lustre de cristal estava se soltando do teto.
E o local exato onde ele cairia era exatamente onde Soraia estava parada.