As costas de Soraia eram um mapa de horrores. Além dos cortes frescos e latejantes do chicote, havia cicatrizes antigas, marcas profundas e queloides que se cruzavam como teias de uma tortura interminável gravada na pele.
Não restava um centímetro de carne intacta; cada marca parecia gritar uma agonia silenciosa do que ela havia suportado.
Bernardo estacou. O chicote escorregou de seus dedos, caindo no chão com um baque seco.
Seu rosto empalideceu instantaneamente, e o choque em seus olhos deu lugar a uma descrença paralisante.
Seus dedos tremeram, estendendo-se no ar como se quisessem tocar aquelas feridas, mas recuaram antes do contato, temendo que até o ar de seu toque pudesse estraçalhá-la.
— O que... o que é isso? Como você ficou assim? — A voz dele saiu rouca, uma mistura instável de fúria contida e um lampejo de angústia.
Soraia manteve a cabeça baixa, os lábios curvados em um sorriso amargo e invisível.
Ele finalmente percebeu? Notou que o chamado "Instituto Santa Marina" era, na verdade, uma sucursal do inferno?
Mas, mesmo que percebesse, o que mudaria? A princesinha Soraia, que transbordava vida e sorrisos, poderia algum dia voltar? Não. Ela havia morrido naquelas escadarias.
Antes que ela pudesse dizer uma palavra, a voz de Melissa surgiu do corredor, suave e carregada de uma falsa resignação:
— Soraia, eu já disse que não vou te denunciar por ter me empurrado no mar. Por que você ainda insiste nesses truques para enganar o Bernardo?
O semblante de Bernardo mudou no ato. A dúvida nublou seu olhar.
— Isso tudo... é falso? — perguntou ele, a voz vacilante.
Melissa soltou uma risadinha leve, como se falasse de algo trivial:
— Mas é claro, querido. Você mesmo disse que ela passou três anos no Santa Marina, a instituição mais prestigiada e rígida da Capital Norte. Ela viveu em regime de internato; onde ela arranjaria tantas cicatrizes? Bernardo, não se deixe manipular por maquiagem ou truques de cena.
O peso no coração de Bernardo dissipou-se, sendo substituído por uma onda de fúria renovada. Ele chutou o chicote para o lado, sua voz tornando-se cortante como navalha:
— Soraia, você é realmente irrecuperável! Está proibida de comer por hoje inteiro!
Soraia apenas assentiu, o rosto como uma máscara de porcelana fria. No Instituto Santa Marina, a fome era uma companhia constante. Houve dias em que, no auge do desespero, ela teve que disputar restos de comida com os cães.
— Tudo bem — sussurrou ela.
Ela se virou e caminhou para o quarto, sua silhueta parecendo frágil e, ao mesmo tempo, inquebrável em sua solidão.
Dentro do quarto, Dona Dirce entrou trazendo um pote de pomada. Ao ver o estado das costas da jovem, as lágrimas da governanta transbordaram imediatamente.
— Menina, por que você não explicou? Como essas marcas podem ser falsas? Você não estava estudando naquela escola? Como pôde se ferir desse jeito? Por que não conta ao Senhor? Ele te amava tanto... se ele soubesse, morreria de dor por você!
Soraia manteve os olhos baixos, o olhar vazio. As palavras de Dona Dirce eram como punhais cravados em seu peito.
Ele sentiria dor? Talvez no passado.
Antigamente, Bernardo a protegia com ferocidade.
Quando um rapaz da escola lhe enviou uma carta de amor, prometendo levá-la para passear de carro esporte se aceitasse namorar com ele, Bernardo soube e, no dia seguinte, presenteou Soraia com uma garagem cheia de carros de luxo avaliados em milhões. Ele havia dito, com um tom possessivo e protetor:
"A garota que eu crio não pode ser enganada por qualquer homem comum".
Quando ela tinha febre, ele cancelava reuniões cruciais no exterior e voava por mais de dez horas apenas para segurar sua mão à beira da cama até a temperatura baixar.
Nas crises de cólica menstrual, ele mesmo preparava chá de gengibre e açúcar mascavo, soprando a xícara antes de entregá-la: "Beba, minha querida. Logo a dor vai passar".
Uma lágrima solitária escapou do canto do olho de Soraia. Ela fechou as pálpebras com força e disse baixinho:
— Dona Dirce, eu estou cansada. Quero apenas dormir.
A governanta limpou as próprias lágrimas e a cobriu com cuidado, a voz embargada:
— Então descanse, minha pequena.
Soraia assentiu e deitou-se de lado com cuidado. O travesseiro logo ficou úmido. Em seus pensamentos, ela voltou no tempo.
Sonhou que Bernardo segurava sua mão e a levava ao parque de diversões, comprava sorvete e a acompanhava no carrossel.
O sorriso dele no sonho era terno, como se ela fosse o mundo inteiro dele.
Mas tudo aquilo parecia distante demais. Eram apenas ecos de uma vida que já não pertencia a ela. Tudo... já era passado.