— Confiar? — Melissa soltou uma risada de escárnio. — Eu não confio nem um pouco. Por isso, antes que o casamento comece, eu mesma vou garantir que você saia do caminho.
Antes que Soraia pudesse processar as palavras, Melissa girou o corpo abruptamente e se lançou nas águas profundas do oceano. O som do impacto com a água ecoou pelo convés, atraindo a atenção imediata de todos.
— Melissa! — O grito de Bernardo veio de dentro da cabine. Um segundo depois, ele surgiu correndo e, sem hesitar, mergulhou no mar.
Soraia permaneceu imóvel, com as mãos e os pés gelados, como se estivesse pregada ao chão.
Bernardo lutou contra a corrente até conseguir trazer Melissa de volta ao iate. Ele iniciou a ressuscitação cardiorrespiratória com desespero. Melissa tossiu, expelindo água, e abriu os olhos lentamente. Sua expressão era de uma fragilidade absoluta, os olhos marejados e suplicantes:
— Bernardo... eu achei que a Soraia finalmente tinha me aceitado nestes últimos dias... não imaginei que ela... aproveitaria que eu estava distraída para me empurrar... Não a culpe, ela também...
Antes de terminar a frase, ela fingiu desmaiar nos braços dele.
Bernardo levantou a cabeça bruscamente. Seus olhos queimavam com uma fúria contida, direcionada inteiramente a Soraia.
— Você é incorrigível! Soraia, o que mais você quer para desistir desses seus pensamentos imundos?
Soraia balançou a cabeça em pânico.
— Não foi assim, Tio Bernardo... eu juro que não gosto mais de você. Eu não a empurrei!
— Algum dia sairá uma verdade dessa sua boca? Espere por mim em casa!
Bernardo não quis ouvir mais nada. Ele pegou Melissa nos braços e saiu apressado do convés para levá-la ao hospital. Soraia ficou para trás, sentindo o coração ser arrancado do peito. Observando o vulto dele desaparecer, ela sussurrou a frase que já havia repetido dezenas de milhares de vezes:
— Bernardo... eu realmente não amo mais você.
No meio da noite, Soraia estava sentada sozinha no sofá, esperando em silêncio. Ela sabia que o "espere por mim" de Bernardo significava que o castigo estava por vir. Nos anos em que passou no Instituto Santa Marina, ela aprendeu da pior forma que fugir ou implorar por piedade só dobrava a agonia. Então, ela apenas esperava.
Após horas de vigília, a porta principal foi escancarada. Bernardo entrou como um furacão, trazendo consigo o frio da noite.
— Ajoelhe-se! — ordenou ele.
Soraia obedeceu prontamente. Encostou os joelhos no chão, baixou a cabeça e permaneceu calada. Bernardo hesitou por um breve segundo, surpreso com tamanha submissão. Ele retirou um chicote de couro da parede e caminhou em direção a ela.
— Agora aprendeu a ser obediente? Tarde demais! Soraia, será que eu te mimei tanto a ponto de você achar que as regras desta casa são decorativas?
Estalo!
A primeira chicotada cortou o ar e atingiu as costas da jovem.
O corpo de Soraia teve um espasmo, como se tivesse recebido um choque elétrico, mas ela não emitiu um único som. Era como se o golpe tivesse atingido outra pessoa.
— Fale alguma coisa! — a voz de Bernardo subiu de tom, carregada de uma raiva sufocante. — Você admite o seu erro?
— Eu admito.
— Admite? — Bernardo riu com escárnio, erguendo o chicote novamente. — Se admite, por que continua fazendo essas atrocidades?
Estalo! Estalo! Estalo!
Os golpes se sucediam, acompanhados pelas acusações dele que ecoavam pela sala vazia.
Primeira chicotada. — Por que empurrou a Melissa? Você tem noção de que ela quase morreu?
Segunda chicotada. — Por que insiste em me desejar? Esqueceu que sou dez anos mais velho que você?
Terceira chicotada. — Por que ser tão desavergonhada? Eu te criei desde que era uma criança!
...
Quinquagésima segunda chicotada. — Soraia, por que ser tão absurda? Tão absurda a ponto de me fazer...
O cérebro de Bernardo estava nublado pela fúria. Ele já não sabia quantos golpes havia desferido. Algumas palavras quase escaparam de seus lábios, mas no momento em que ele parou para respirar, a governanta, Dona Dirce, atirou-se aos pés dele, chorando:
— Senhor, pare, por favor! A menina sempre foi delicada, ela não vai aguentar! Olhe para isso, há sangue por toda parte!
Bernardo baixou o chicote e olhou para Soraia. As costas dela estavam cobertas de sangue, e uma poça vermelha já se formava no chão, alcançando a ponta de seus sapatos de couro.
O que o chocou, porém, foi que Soraia continuava com a cabeça baixa. Nem uma lágrima, nem um pedido de clemência. Ele a puxou pelo braço para que ela ficasse de pé, apenas para encontrar um olhar vazio e anestesiado.
— Soraia... você não sente dor? Você não era a pessoa que mais reclamava por qualquer arranhão?
Ela levantou o rosto, a voz num tom assustadoramente calmo:
— É porque não dói.
As punições que sofreu no Instituto Santa Marina eram infinitamente mais cruéis que aquelas. Com a voz rouca e o rosto pálido, ela perguntou:
— Acabou? Se terminou, eu posso ir para o meu quarto, Tio Bernardo?
Bernardo finalmente percebeu que algo estava muito errado.
— Como não dói? Depois de tantas chicotadas, como é possível?
Ele afastou o tecido rasgado da roupa dela para ver o estrago. Dona Dirce soltou um grito de horror ao fundo. As pupilas de Bernardo se contraíram violentamente e o ar fugiu de seus pulmões instantaneamente.