Três anos depois, quando voltei ao país, nos reencontramos. Ele já havia se divorciado de Letícia e a enviado para o exterior.
— Beatriz, nem pense em fugir da minha vida de novo! — ele disse, lançando-se em uma nova e louca conquista.
Eu não queria carregar arrependimentos, então aceitei me casar com ele.
Em cada noite após o casamento, ele me apertava em seus braços, como se tivesse pavor de que eu desaparecesse novamente.
Chegou a fundar uma fundação de caridade em meu nome.
Mas agora... sua frieza e hostilidade eram assustadoramente desconhecidas. Parecia que, da noite para o dia, ele havia se tornado outra pessoa.
O Ricardo que eu conhecia, que me amava profundamente, tinha sumido.
Levantei-me num ímpeto, incapaz de conter a fúria.
— Ricardo, eu desisto. Fique com sua "família perfeita". Vamos nos divorciar!
Essa frase pareceu atingir seu ponto mais sensível.
Ele avançou, agarrou meu pulso com força e me arrastou para fora da casa, jogando-me brutalmente sob o sol escaldante do quintal.
— Divórcio? — ele rosnou. — Que direito você tem de me abandonar repetidas vezes?
Seu olhar parecia querer me atravessar.
— Beatriz, você vai ficar de joelhos aí mesmo. Só vai se levantar quando reconhecer seu erro e pedir perdão à Letícia.
A porta de vidro foi fechada sem piedade. Sob o sol forte, minha pele sensível começou a reagir, cobrindo-se de manchas vermelhas e bolhas. Meus olhos ardiam terrivelmente e as lágrimas escorriam sem controle.
Ontem mesmo, ele segurava o guarda-chuva para me proteger, dizendo que desejava que todos os dias fossem nublados só por minha causa.
Levantei o olhar para dentro da casa. Através do vidro, vi Ricardo com Léo no colo esquerdo e o braço direito em volta de Letícia.
O cuidado e o carinho com que os tratava fizeram meu choro intensificar.
Os empregados se aproximaram, zombando com desdém.
— Eu avisei para não mexer com o herdeiro da família, agora está pagando o pato, não é? — Achou mesmo que era a dona da casa? Saiba que toda vez que você saía, era a dona Letícia quem vinha cuidar do menino. — Eles vão voltar a qualquer momento. Você não passa de um passatempo para esse casal.
Senti minhas forças se esvaírem e minha visão embaçar.
Finalmente entendi por que Ricardo me inscrevia em tantas aulas de ioga e artes; não era para eu me distrair, mas para facilitar as visitas de Letícia.
O tal "exílio" no exterior era apenas uma farsa. Por isso Léo nunca me aceitou: a mãe biológica estava sempre por perto.
A voz fraca e desolada do bebê surgiu em minha mente.
— Sinto minha vida se esvair... Finalmente não precisarei nascer.
Não... eu despertei em pânico. Não posso desistir do meu filho.
Arrastei-me com dificuldade até a porta de vidro, batendo nela com o resto de força que me sobrava.
Letícia me lançou um olhar de soslaio e sussurrou algo para Ricardo. Ele hesitou por um segundo ao me olhar, mas deu as costas e subiu as escadas.
Letícia abriu a porta. Comecei a bater a cabeça contra o chão repetidamente, sem sentir a dor dos ferimentos.
Minha voz soava miserável, saída do fundo do abismo.
— Eu errei... Letícia, eu errei. Só peço que alguém me leve ao hospital, por favor.
Letícia agachou-se à minha frente, sussurrando com desprezo:
— Sabe por que o Ricardo mudou tanto com você? Eu contei a ele a verdade sobre por que você o deixou naquela época. Nenhum homem aceitaria isso...
Um sorriso cínico brotou em seus lábios.
— Beatriz, vou te contar uma coisa: a falência da sua família foi planejada por Ricardo para ajudar os negócios dele. E a morte dos seus pais... também teve o dedo dele.
Meus olhos se arregalaram e um gosto metálico inundou minha boca enquanto eu cuspia sangue. Ignorando meu estado deplorável, ela se virou e saiu rindo, vitoriosa.
— Adeus, mamãe... — o bebê se despediu com um fio de voz.
Um pânico imenso tomou conta de mim.
Arrastei meu corpo ferido em direção ao portão, sentindo as bolhas estourarem e deixarem um rastro de sangue pelo caminho.
Usei minhas últimas energias para ligar para aquele homem.
— Eu não devia ter te ignorado... eu não devia ter voltado... por favor, salva o meu bebê...
Não sei quanto tempo passou. No meio do meu delírio, senti meu corpo sendo erguido.
Ouvi uma voz carregada de desespero chamando por mim:
— Bia! Bia, fala comigo!