Aquela ofensiva de gentilezas deixou Serena completamente sem palavras.
Mas antes que ela conseguisse responder, Valentina, que havia aguentado o suficiente, não conseguiu mais ficar quieta.
Os presentes dos pais ela tinha tolerado, e até mantido um sorriso adequado.
Mas agora a mãe que só tinha olhos para ela disse aquilo? E o pai nem interveio?
Valentina foi até a mãe e passou o braço no dela, com um leve ar de mágoa: "Mãe, a senhora não quer mais a mim?"
A mãe riu e deu um tapinha carinhoso na mão dela: "Que absurdo, Valentina, seu pai e eu amamos você mais do que tudo!"
Valentina se sentiu um pouco melhor.
Mas a mãe continuou: "A Serena parece mais nova que você. E as duas trabalham no mesmo lugar. A partir de agora trata ela como irmã mais nova, cuida dela!"
O peito de Valentina se moveu.
Ela tinha checado os dados de Serena. Tinham a mesma idade, vinte e quatro anos. Como a mãe estava vendo que era mais nova?
Ela fixou o olhar em Serena e disse com aquele tom de cima: "Senhorita Thea, qual é a sua data de aniversário?"
"Daqui a duas semanas." Serena respondeu.
Na verdade não tinha como saber ao certo.
A avó já estava com a cabeça confusa desde que ela nasceu.
Às vezes dizia que ela tinha nascido quando as flores de mar estavam em plena floração. Às vezes dizia que quando as flores abriram, ela estava com meio ano de vida.
Mas havia uma tradição no vilarejo de dar o nome formal da criança depois dos seis meses de vida.
A avó pediu ao professor do vilarejo para dar o nome, e naquela época as flores de mar estavam abertas, por volta de abril ou maio.
Calculando, o aniversário dela seria em torno do final de outubro, ou seja, bem em breve.
E a avó, que não sabia escrever, disse ao funcionário do registro civil que o sobrenome do pai era Viana. O funcionário registrou como Viana mesmo.
"Duas semanas mais nova que a Valentina. Então é mesmo irmã mais nova!" A mãe ficou cada vez mais encantada com Serena. Puxou ela de volta para conversar: "Tenho sete filhos homens, e só depois de tudo tive a Valentina. Adoro menina. Bonita e educada..."
Serena raramente recebia aquele tipo de atenção de alguém mais velho. Ficou um pouco sem jeito.
Ela lançou um olhar para Rafael pedindo socorro. O homem respondeu com uma expressão de
aproveita
.
Serena xingou a família toda de Rafael mentalmente.
Felizmente o filho do lado entrou na conversa com a mãe de Valentina.
Serena aproveitou para respirar, estava prestes a se levantar quando viu Renato Viana chegando com o uniforme de capitão, provavelmente acabando de chegar do aeroporto.
Ele entregou o presente para Valentina e então viu Serena.
Com uma surpresa leve: "A senhorita Thea também veio? Está melhor?"
Antes que Serena respondesse, Rafael se aproximou.
O braço dele pousou levemente em volta do ombro dela. Ele disse para Renato: "Ela está bem."
Aquele cachorro.
Serena resmungou por dentro.
Agora não foi chamado e veio mais rápido que qualquer um.
Renato não era de muitas palavras, a rigidez do rosto moldada pelos anos de voo. Ele não disse mais do que o necessário, só recomendou para Serena: "Qualquer coisa que precisar, me avisa."
"Obrigada!" Serena sorriu, mas sentiu uma pressão leve no ombro.
Rafael virou o rosto, abaixou a voz: "Como ele sabe que você estava mal?"
Serena curvou os lábios: "O que tem a ver com você?"
Aquela cena caiu nos olhos de Valentina, que apertou a sacola do presente de Renato.
Ela era a protagonista daquela festa. Mas por que estava tendo a sensação de ser acessória?
Pai, mãe, irmãos. Tudo parecia sendo levado embora por Serena.