Henrique hesitou um pouco no início, quando deu a ordem para que Heloísa fosse submetida à cirurgia. Já eram oito meses.
Ele sabia bem o quanto ela tinha sofrido por aquela criança.
No começo, o médico dissera que a saúde dela não era boa e que seria difícil engravidar.
Quando finalmente aconteceu, a família inteira transbordou de alegria.
Naquela época, ele pensou que, com um filho, ela nunca mais conseguiria deixá-lo.
Mesmo que um dia descobrisse sobre Enzo, ela suportaria tudo pelo bem da criança.
Mas, quando aquelas fotos foram exibidas, a pouca culpa que ele sentia desapareceu instantaneamente.
Nem ele mesmo sabia quando aquelas fotos tinham sido tiradas. Beatriz jamais as divulgaria; ela ainda tinha um pingo de dignidade.
Só poderia ter sido Heloísa.
Ele só queria que ela aprendesse a lição.
Queria que ela nunca mais se atrevesse a tocar em sua mulher e em seu filho.
Quando a cirurgia terminou e Heloísa foi retirada da sala, seu rosto estava de uma palidez assustadora.
Ele não teve coragem de olhar para o bebê, que nascera com o corpo todo arroxeado.
O médico informou que era uma menina.
Ele respondeu qualquer coisa, sem dar atenção ao estado de Heloísa. Na verdade, ele sentia um certo medo de encará-la.
Beatriz aproximou-se e entrelaçou o braço no dele.
"Henrique, você está bem?"
"Por mais que Heloísa tenha agido errado, ainda era seu filho... você não acha que foi um pouco cruel demais?"
Ele não respondeu. Dona Adelaide estava ao lado, com as sobrancelhas franzidas.
"Eu já tinha prometido dez milhões a ela, mas não esperava que fosse tão incorrigível".
Dona Adelaide soltou um suspiro baixo.
"Poderão ter outros filhos depois. Para a família, basta o Enzo como herdeiro".
"Ouvi dizer que era uma menina, então não faz mal. Ter o Enzo como neto já é o suficiente para mim".
Ao ouvir a palavra "herdeiro", os cantos dos lábios de Beatriz se curvaram em um sorriso inevitável.
Henrique massageou as têmporas e olhou ao redor, mas não viu sinal de Heloísa.
Ele se lembrou dela de joelhos, implorando.
O rosto banhado em lágrimas, chamando por ele repetidamente. Sentiu um aperto no peito, mas logo tratou de reprimir aquele desconforto.
Enzo correu até ele e segurou sua mão.
"Papai, agora ninguém mais vai me maltratar".
O tom do menino fazia parecer que Heloísa o tivesse torturado antes. Henrique acariciou a cabeça do filho e olhou para Dona Adelaide.
"Mãe, o médico disse que a saúde de Helô não estava boa. Mesmo que eu não tivesse interrompido, a criança não nasceria saudável".
Quando fizeram os exames pré-natais, Heloísa estava radiante com a chegada do bebê.
Por isso, quando descobriram que a criança tinha uma malformação, a primeira reação de Henrique foi esconder o fato para não estragar o clima.
Ele não queria que ela soubesse. Se o bebê tivesse que nascer, ele daria um jeito de criá-lo com saúde.
Afinal, dinheiro era o que não faltava na família.
Ele abraçou Beatriz e segurou a mão de Enzo.
"Vamos para casa. Dessa vez ela aprendeu, não vai mais incomodar vocês".
Beatriz encostou-se nele, com a voz suave.
"Henrique, eu realmente não imaginei que você faria tudo isso por mim".
"Eu aguento qualquer coisa, só não suporto ver meu filho sofrendo".
Quanto mais compreensiva ela se mostrava, mais Henrique se sentia em dívida com ela.
Naquela noite, anos atrás, ele realmente tinha bebido demais.
Estava em uma festa com amigos quando alguém apontou para o balcão e disse : "Está vendo? É nova aqui, jovem, pura. Tem uns vinte anos e começou a trabalhar porque a família está passando necessidade. Muita gente quer ajudar, mas não consegue".
Ele olhou e seus olhos pousaram em Beatriz.
A fisionomia dela lembrava muito a de Heloísa quando era jovem.
Na verdade, o casamento dele com Heloísa já tinha perdido o frescor de outrora há muito tempo.
Ele sempre quisera experimentar algo novo. Aquilo serviu como a desculpa perfeita para se deixar levar.
Depois, ele tentou terminar, mas não conseguiu. De um lado estava Heloísa em casa, com dez anos de história.
Divorciar-se não valia a pena e pegaria mal. Do outro estava Beatriz, doce e dedicada, que nunca lhe cobrou status.
E assim ele viveu, dividindo-se entre as duas por sete anos.