Henrique e Dona Adelaide finalmente trouxeram Beatriz e o filho para dentro de casa.
Dona Adelaide protegia o menino, lançando olhares constantes e vigilantes em minha direção.
"Enquanto eu estiver viva, Enzo será o neto da família Henrique. Ninguém vai encostar um dedo nele".
Ao ouvir isso, o desconforto no rosto de Beatriz desapareceu, e ela chegou a estender a mão para segurar o braço de Henrique.
"Helô, fique tranquila, eu não quero roubar o seu lugar". "Só quero que meu filho possa estar perto do pai, para não carregar o peso de ser um bastardo pelo resto da vida".
Eu curvei os lábios em um sorriso amargo.
"Esse peso ele carrega com razão. Ele nasceu um bastardo, e não importa o que façam, ele sempre será".
O rosto de Beatriz empalideceu e ela olhou para Henrique com uma expressão de vítima.
Henrique franziu a testa.
"Heloísa, meça as suas palavras".
Meu coração estremeceu; apertei meus punhos e os soltei logo em seguida.
"Eu disse há sete anos: aquela seria a última vez".
Henrique baixou o olhar para apertar a mão do filho e respondeu com total indiferença:
"O acordo de divórcio não está com você? Se quiser se separar, separe-se. Eu não vou te impedir".
"Mas pense bem, você ainda carrega o meu sangue aí dentro".
O olhar dele pousou sobre o meu ventre volumoso.
"Helô, eu só quero trazer o Enzo para perto. Ele é apenas uma criança de cinco anos, não pode crescer sem um pai".
"Não seja tão mesquinha. Além disso, o nosso filho terá um irmão mais velho. O que há de mal nisso?"
Ele parecia não acreditar que tinha feito algo errado. Suas palavras casuais destruíram o último fiapo de esperança que restava em meu peito.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou:
"Eu combinei com a minha mãe: vamos organizar um banquete de reconhecimento na próxima semana".
"Quero que o Enzo te aceite como madrinha. Assim, ninguém terá o que falar".
Eu lutei para conter a dor que me sufocava. Eu nunca imaginei que ele teria planejado cada detalhe com tamanha frieza.
"Eu não vou aceitar".
Henrique soltou uma risada de deboche.
"Tudo bem. Então vá agora mesmo para o hospital e tire essa criança".
Eu levantei a cabeça bruscamente, em choque.
"Você enlouqueceu? O bebê já tem oito meses!"
O rosto dele não demonstrava nenhuma emoção, mas suas palavras foram de uma crueldade absoluta:
"Eu sou o pai. Eu tenho esse direito. Enquanto não nasce, é apenas um pedaço de carne; depois que nasce, é uma vida".
"Você escolhe: ou o Enzo te chama de madrinha, ou eu te levo amarrada para o hospital".
Após lançar essa ameaça, Henrique saiu levando Beatriz e o menino.
Durante as duas semanas seguintes, ele não voltou mais para casa.
Talvez por agora as cartas estarem na mesa, Henrique, que nunca fora de postar nada em redes sociais, começou a publicar fotos diariamente.
Um dia era Beatriz cozinhando para a criança, no outro eram pai e filho correndo no pátio de treinamento.
Até as legendas sugeriam uma felicidade plena, como se eles fossem a verdadeira família de comercial.
Vários amigos viram as postagens e começaram a me ligar para perguntar o que estava acontecendo:
"Helô, quem é aquela mulher no perfil do Henrique? E aquele menino é a cara dele, não me diga que..."
Eu não tinha forças para explicar.
Apenas aqueles que sabiam do incidente de sete anos atrás me deram um conselho sincero:
"Eu te avisei na época que não deveria ter amolecido o coração. Traição acontece uma vez ou acontece sempre".
Desliguei o telefone e fiquei olhando pela janela, perdida em pensamentos.
Algo que todos conseguiam enxergar com clareza.
E apenas eu fui tola o suficiente para ignorar.