Carlisle e Esme já estavam bastante adaptados à vida em sua casa no Maine. Vários anos haviam se passado, e eles conseguiram manter um estilo de vida discreto, porém levemente social, sem chamar atenção na cidade. Esme apreciava seus breves encontros com algumas mulheres humanas e mantinha uma relação amigável com Dorothy.
Havia, porém, algo que começava a preocupar Carlisle depois que Edward deixou o ensino médio e seguiu para níveis mais avançados de estudo. Ele começou a perceber que a visão de mundo de Edward estava mudando — e que ele se irritava com muito mais facilidade, algo completamente fora de seu comportamento habitual.
— O que está acontecendo, Edward? — perguntou Carlisle, finalmente decidido a tocar no assunto. Ele havia esperado que o próprio Edward se abrisse, mas já havia tempo demais para ignorar aquilo.
Edward estava inquieto, e mal conseguia disfarçar. — As pessoas — disse ele, balançando a cabeça — eu simplesmente não suporto algumas das pessoas sobre quem leio nos jornais… ou que estudamos nas aulas.
— O que quer dizer com isso?
Ele balançou a cabeça novamente. — São horríveis. Assassinos… e pior. Isso me faz querer fazer o mesmo com eles… arrancar suas cabeças, fazê-los sentir o desespero que causam.
Carlisle se lembrou, por um instante, dos pensamentos que tivera sobre Charles, o antigo marido de Esme. Sentira o mesmo quando soube do que ele havia feito com ela. Seus punhos se fecharam, mas ele afastou aquela lembrança e voltou a atenção para Edward.
— Então você entende como eu me sinto — disse Edward, com firmeza.
— Entendo — respondeu Carlisle. Ele lançou um olhar para Esme, que fingia ler um livro para não parecer intrometida. — Mas isso não significa que você deva agir assim.
— Por que não? Eles não merecem viver, Carlisle. É isso que nós somos feitos para fazer.
— Não — disse Carlisle, balançando a cabeça — nós não somos obrigados a nada.
— E se eles merecem? — insistiu Edward, cerrando os dentes. — Uma garota da minha classe foi esfaqueada e quase morreu. Por que o homem que fez isso merece continuar vivo?
Carlisle suspirou. — Eu entendo sua revolta. Não faz sentido… mas eles também responderão por seus atos um dia.
— Talvez não — disse Edward, olhando pela janela. — Talvez nós possamos ser a pior coisa que eles enfrentariam. Quem sabe o que acontece depois da morte? E se não houver nada? Por que esses monstros deveriam viver normalmente enquanto inocentes sofrem?
— Não cabe a nós brincar de Deus.
— Não estou tentando ser Deus — disse ele — só quero dar às pessoas o que elas merecem. Eu já vi pensamentos… planos… coisas horríveis. Você não faz ideia do que é ouvir isso.
Carlisle assentiu. — Eu não sei… e imagino o quanto isso deve ser doloroso.
— Eu quero consertar isso — disse Edward — quero fazer justiça com as minhas próprias mãos.
Esme agora estava completamente atenta. Queria intervir, mas preferiu deixar Edward falar. Era a primeira vez que o via tão perturbado. Sentia vontade de abraçá-lo, mas sabia que aquele não era o momento.
— Não deixe isso te consumir — disse Carlisle — acredito que as coisas se ajustam como devem… mesmo que demore. — Ele olhou para Esme ao dizer isso, lembrando de como sua vida havia se encaixado perfeitamente ao lado dela.
— Nem sempre — respondeu Edward, lendo seus pensamentos — nem tudo termina bem.
— As coisas se completam — disse Carlisle — eu acredito nisso.
— Eu não sei se acredito — respondeu Edward, discordando pela primeira vez — aprendemos sobre um homem que viveu normalmente depois de cometer crimes terríveis e só confessou no leito de morte.
— Se você acredita como eu, ele responderá por isso depois.
Edward fez uma expressão dura. — Eu nem sei no que acredito. — Ele evitou olhar para Esme, sentindo culpa pelo desabafo. — E se eu fui colocado aqui para fazer essa justiça?
Carlisle o observou, sem saber o que dizer. Sabia que aquilo era algo mais profundo do que podia compreender completamente.
— Carlisle — continuou Edward — eu admiro tudo o que você construiu. Você e Esme me guiaram… me ensinaram tudo.
Esme se aproximou deles, ficando entre os dois.
— Eu realmente acredito que vocês dois foram feitos para fazer o bem — disse Edward — vocês são as melhores pessoas que já conheci. Esme, você é como uma mãe para mim… Carlisle, eu respeito tudo o que você faz.
Carlisle quis interromper, mas deixou que ele continuasse.
— Seu propósito já foi cumprido — disse Edward — você mudou o significado de ser um vampiro. Mas talvez esse não seja o meu propósito. Talvez eu não seja feito para ser puro… talvez eu seja um tipo de anjo sombrio.
Carlisle balançou a cabeça. — Você é bom, Edward.
— Eu não me sinto bom — disse ele — me sinto com raiva… e com sede.
Esme olhou diretamente para ele. — Você é bom.
— Quão bom? — perguntou ele — vocês não fariam o que eu penso em fazer há semanas. — Ele imaginou o rosto do antigo marido de Esme. — Eu mataria alguém que tentasse te machucar.
O rosto dela suavizou. — Eu sei… mas isso não vai acontecer.
— Não mais — disse ele, arrependido por trazer à tona memórias dolorosas. — Desculpa…
— Está tudo bem — disse ela — eu já senti raiva também… mas agora estou feliz. Tenho vocês dois. Vocês são minha família.
Edward suspirou. — É justamente isso que torna tudo mais difícil.
— O quê? — perguntou ela.
— Edward— começou Carlisle.
— Eu vou embora — disse ele.
— Ir embora? — exclamou Esme.
— Eu preciso — disse ele — preciso descobrir se isso é certo. Posso viver de sangue humano… mas fazendo justiça.
Carlisle quis argumentar, mas permaneceu em silêncio.
— Obrigado — disse Edward, percebendo sua decisão.
— Nós não queremos que você vá — disse Esme.
— Eu preciso — respondeu ele — preciso saber se posso salvar pessoas desse jeito.
Carlisle sabia que o coração dele era bom… mas também conhecia o poder destrutivo da raiva.
O silêncio caiu entre os três, enquanto o vento frio trazia o cheiro do outono.
— Sinto muito — disse Edward — mas eu preciso ir.
Carlisle assentiu. — A porta estará sempre aberta. Vamos ficar aqui por mais alguns anos… depois iremos para Rochester.
Esme concordou com um leve aceno.
— Está bem — disse Edward.
Esme o abraçou com força. — Por favor, fique…
— Eu volto — disse ele — mas preciso fazer isso.
Carlisle o abraçou. — Fique seguro.
— Você também.
— Não esqueça quem você é.
Edward assentiu… e desapareceu.
Carlisle e Esme ficaram sentados nos degraus por horas. O tempo passou lentamente… até que a esperança começou a desaparecer.
— Não acredito que ele foi embora — disse Esme.
— Se ele precisa fazer isso… então é o melhor — respondeu Carlisle.
— Espero que ele fique bem.
— Ele é forte… e tem um bom coração.
Carlisle pensou nos vampiros que havia conhecido… e temeu pelo futuro de Edward.
— Você nunca vai me deixar, vai? — perguntou ele, de repente.
Esme arregalou os olhos. — Nunca.
— Eu não suportaria perder você.
— Nem eu você.
Ela segurou seu braço. — Eu prometo… eu nunca vou embora.
Carlisle tentou sorrir… mas seus olhos ainda mostravam preocupação.
— Eu te amo — disse ela.
— Eu também.
Ele a abraçou com força.
— Eu só não conseguiria viver sem você.
— Nem eu.
O silêncio voltou.
— Espero que Edward fique bem — disse ele.
— Ele vai ficar — respondeu ela, tentando acreditar nisso.
Eles entraram em casa…
Mas ainda olharam para trás.
Esperando…
Que ele voltasse.