Carlisle e Esme passaram a passar cada vez mais tempo juntos, embora ambos fizessem questão de não deixar Edward de lado. Os três haviam, de fato, se tornado uma família, e todos pareciam satisfeitos com a vida que levavam em Ashland. Durante vários meses seguiram suas rotinas normalmente, até a chegada do outono, quando Edward decidiu que gostaria de se matricular em uma universidade.
Ainda assim, Carlisle sabia que, mais cedo ou mais tarde, seriam obrigados a se mudar assim que Esme estivesse confortável o suficiente para conviver com humanos. Por esse motivo, Edward acabou adiando seus estudos.
O risco de alguém reconhecer Esme — ou mesmo vê-la ao lado de um homem que não era seu marido — era algo que eles não podiam correr. Não haveria explicação possível caso uma mulher supostamente morta estivesse viva, andando pelas ruas de Wisconsin.
Apesar disso, os três tiveram conversas sérias ao longo do tempo, embora Carlisle percebesse que Esme ainda não se sentia totalmente confortável no mundo humano. Ele conseguira protegê-la até então, mas, durante os testes em que a levava até regiões próximas de pessoas, a sede se tornava forte demais, e Esme acabava recuando, voltando rapidamente para casa.
Ele sabia que a falta de controle a frustrava profundamente, e por isso continuava a encorajá-la durante essa fase difícil da jornada de um vampiro. Carlisle sempre lembrava que o simples fato de ela conseguir se afastar já era uma conquista — algo que a maioria dos recém-transformados sequer conseguia fazer.
Suas palavras traziam algum conforto, mas Esme sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente. O desejo por sangue era muito mais intenso do que ela havia imaginado, e o cheiro de sangue humano quase a fazia perder o controle.
Era apenas a presença calma de Carlisle — sua voz, quase angelical — que conseguia tirá-la daquele estado, salvando, muitas vezes, vidas que estavam por um fio.
— Eu não sei como você consegue — disse Esme, balançando a cabeça, envergonhada, enquanto se sentava em um pequeno muro de pedra perto da casa. — Eu não consigo controlar.
Carlisle colocou a mão delicadamente em seu rosto.
— Você vai conseguir — prometeu. — Levou meses para mim… e para Edward também. Parece impossível agora, mas não é. Você vai aprender.
— E se levar dez anos? — perguntou ela, com o olhar abatido.
Ele deu de ombros.
— Então leva dez anos.
Esme balançou a cabeça enquanto ele tentava animá-la.
— Nesse caso, vou ter você só para mim por todo esse tempo — disse ele, sorrindo. — Que coisa terrível.
Ela levantou o olhar e percebeu que ele brincava.
— Seria realmente terrível — respondeu, rindo.
— Imagine ficar presa aqui por uma década com um monstro como eu — continuou ele, inclinando-se para beijá-la.
Esme pensou naquilo por um instante… e percebeu que não se importaria nem um pouco, se isso significasse passar a eternidade ao lado dele.
Carlisle se afastou, mas ela o puxou de volta com um sorriso.
Ele nunca conseguia resistir quando Esme prolongava aqueles momentos. Voltar para casa e beijá-la, depois de horas longe, era sempre a melhor parte do seu dia.
— Eu te amo — disse ela, afastando o cabelo dele do rosto. — Obrigada por ser paciente comigo… com tudo isso.
— Isso não é um problema — respondeu ele, com os lábios próximos aos dela.
Esme fechou os olhos e voltou a beijá-lo, sentindo que poderia fazer aquilo para sempre.
Carlisle, no entanto, percebeu que Edward estava se aproximando da casa e se afastou rapidamente.
Esme também já começava a reconhecer seu cheiro à distância, e sempre se sentia um pouco constrangida por saber que seus pensamentos podiam revelar muito mais do que suas ações.
Mesmo que raramente demonstrassem afeto diante dele, ela sabia que Edward provavelmente via tudo… até mais do que realmente acontecia.
Ela só esperava que ele não pensasse mal dela por isso.
Edward apareceu, contornando o caminho até a casa, e sorriu ao vê-los.
— Está tudo bem, Esme — disse ele, divertido. — Eu não penso nada disso.
Ela riu e deu um leve tapa em seu braço ao se levantar.
Carlisle observou a cena com satisfação. Edward já havia dito diversas vezes que via Esme como uma figura materna… e Carlisle como um pai.
Era uma família incomum.
Mas funcionava.
E cada um tornava a vida do outro melhor.
— Vocês precisam caçar? — perguntou Esme. — Acho que eu preciso.
Carlisle e Edward assentiram.
— Às vezes, quando fico muito tempo na cidade, preciso caçar assim que volto — disse Edward. — Fica difícil resistir.
Esme pareceu aliviada ao ouvir aquilo.
Carlisle, por outro lado, ficou preocupado.
— Vamos — disse Edward, antes que ele falasse algo.
Eles seguiram pela floresta.
Carlisle guiava o caminho, buscando o cheiro de cervos…
Mas então…
Outro cheiro surgiu.
Mais forte.
Mais perigoso.
Sangue humano.
— Carlisle! — gritou Edward.
O tom era urgente.
Desesperado.
O corpo de Carlisle se enrijeceu.
Um humano estava próximo.
— Esme! — ele gritou.
Mas ela já havia desaparecido entre as árvores.
Edward correu atrás dela.
Carlisle não sabia se Edward tentaria impedir… ou se também perderia o controle.
Ele correu.
O mais rápido que pôde.
Rezando.
Chegue a tempo…
A luz da manhã começava a surgir.
O som de um assobio ecoava pela floresta.
Um som tranquilo.
Inocente.
Mas, naquele momento…
Soava como um chamado para a morte.
— Esme! — Carlisle gritou.
Mas já era tarde.
O cheiro de sangue estava forte demais.
E então…
Ele viu.
Um jovem.
Cerca de vinte anos.
Caminhando sozinho.
Sem saber.
Segundos depois…
Ele estava no chão.
Esme sobre ele.
Seus dentes cravados em seu pescoço.
Sem gritos.
Sem chance.
Em um instante…
Vida.
No outro…
Nada.
Edward chegou logo depois.
E não resistiu.
Juntos…
Terminaram.
Carlisle chegou tarde demais.
E sentiu…
Culpa.
Profunda.
Ele deveria ter verificado a área.
Era responsabilidade dele.
De volta à casa…
O silêncio dominava.
Esme e Edward estavam sentados separados.
Destruídos.
Carlisle tentava assumir a culpa.
Mas sabia…
Isso não apagaria nada.
Edward via os pensamentos dele.
Repetindo.
Sem parar.
Erro.
Negligência.
Culpa.
Esme…
Se sentia um monstro.
— Eu sou uma assassina…
A palavra queimava.
— Como você conseguiu parar? — perguntou Edward, quebrando o silêncio.
Carlisle olhou para ele.
— Como você conseguiu não nos matar quando nos transformou?
Carlisle suspirou.
— Não foi fácil.
— Mas você conseguiu…
— Essa vida não é fácil — respondeu. — Nunca foi.
Ele olhou para Esme.
Ela evitava seu olhar.
Destruída.
— Não é sua culpa — disse ele.
— É sim — respondeu ela.
— Não — disseram Carlisle e Edward juntos.
— Fui eu que fiz — disse ela. — Edward… me desculpa…
Ela saiu.
Sem esperar resposta.
Sozinha…
No andar de cima…
Ela rezava.
Pela família do homem.
Pela mãe dele.
Pela vida que ela destruiu.
— Esme…
A voz de Carlisle.
Ela não conseguia olhar para ele.
— Eu matei alguém…
Ele a segurou.
— Nós vamos superar isso juntos.
— Você ainda me quer? — ela perguntou.
— Para sempre.
— Eu sou horrível…
— Você é boa. É por isso que dói.
Ele segurou seu rosto.
— Eu sou o culpado…
— Você se arrepende de me salvar?
— Nunca.
Silêncio.
Mas cheio de tudo.
Ela o abraçou.
E ele soube.
Faria qualquer coisa por ela.
Qualquer coisa.