Carlisle sentiu uma mistura intensa de emoções ao ouvir seu nome nos lábios dela. O simples fato de Esme se lembrar dele fazia com que cada dificuldade que havia enfrentado ao longo de sua vida parecesse, de alguma forma, ter valido a pena. Ele havia pensado nela algumas vezes desde o encontro que tiveram anos antes, mas agora… ao vê-la diante de si, sentia algo que não conseguia explicar.
— Eu estou no céu? — perguntou Esme, levando as mãos ao rosto, surpresa com a sensação estranha da própria pele.
Carlisle balançou a cabeça.
— Não… não exatamente.
Uma onda de culpa o atravessou. Ele sabia que teria que contar a verdade — dizer àquela mulher o que havia feito com ela.
Por um instante, porém, Esme sorriu. Observou as mãos, os braços, como Edward fizera antes, e hesitou antes de tentar se levantar.
— Pode ficar tranquila — disse Carlisle. — Você pode se levantar… só tenha cuidado…
Mas Esme já estava de pé.
O movimento foi rápido demais. Ela arrancou as cobertas sem perceber e, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, já estava em pé.
Edward riu.
Carlisle lançou um olhar leve de reprovação.
— Desculpa — disse Edward. — Eu só… lembro de quando passei por isso.
— Tem certeza de que isso não é o céu? — perguntou Esme novamente, ainda sorrindo. — Como eu cheguei aqui? A última coisa que lembro…
Ela parou.
A lembrança voltou.
E com ela…
A dor.
Carlisle percebeu imediatamente.
— Esme… eu estava no hospital aqui em Ashland — explicou. — Dois dias atrás, me chamaram para tentar salvá-la. Disseram que você tinha sofrido um acidente.
Ela ergueu os olhos.
Vergonha.
Carlisle viu.
— Você estava à beira da morte. Nenhum tratamento poderia salvá-la.
Ele hesitou.
Esme percebeu.
— Eu senti como se estivesse pegando fogo… — disse ela. — Era por causa do acidente?
Carlisle olhou brevemente para Edward.
— Não.
O medo apareceu.
— Eu passei pelo inferno?
— Não — respondeu rapidamente. — Você ainda está aqui. Ainda está na Terra.
Mas ela não entendia.
— Como isso é possível? Eu… eu pulei de um penhasco… não tem como eu ter sobrevivido…
Carlisle respirou fundo.
Edward então interveio:
— Existe uma forma.
Esme olhou entre os dois.
— Você sente uma queimação na garganta? — perguntou Carlisle.
Ela parou.
Sentiu.
Sim.
Era forte.
Inconfundível.
— Sim… o que é isso?
— É sede — disse Carlisle.
— Sede?
— Nós sentimos isso também — acrescentou Edward.
— Fica mais fácil com o tempo.
Carlisle fez um gesto.
— Este é Edward.
— Carlisle… — disse ela, antes que ele terminasse.
Edward sorriu.
— Vocês são irmãos?
— Eu sou sobrinho dele… — respondeu Edward — ou pelo menos é o que dizemos.
Carlisle voltou ao ponto:
— Essa sede…
Esme levou as mãos ao pescoço.
— Tem como fazer isso parar?
— Temporariamente — respondeu Carlisle.
— Então… é para sempre?
— Ela nunca desaparece totalmente — explicou Edward. — Mas melhora depois que você caça.
Esme riu.
— Caçar? Eu?
Edward riu também.
Ela percebeu o erro.
— Eu posso aprender…
Carlisle sorriu.
Mas o sorriso desapareceu.
E isso a atingiu.
Ele tem um sorriso perfeito, pensou.
— Caçar é diferente para nós — disse Carlisle.
— Como?
Edward respondeu:
— Usamos as mãos… e os dentes.
Ela riu.
Mas viu que Carlisle estava sério.
A sede aumentou.
— Eu não entendo…
Carlisle finalmente disse:
— Você sente sede de sangue.
Silêncio.
— Esme… eu sinto muito. Você estava morrendo… e era a única forma de salvá-la.
Ela olhou para ele.
Sentiu a dor em sua voz.
— Você vai precisar de sangue para viver — disse Edward.
Esme absorveu.
Lentamente.
— Sangue…
Histórias vieram à sua mente.
Monstros.
Lendas.
Vampiros.
Ela olhou para si mesma.
Sua pele.
Seu corpo.
Perfeito.
Diferente.
— O que eu sou?
Edward respondeu:
— Você já pensou nisso.
— Bruxa?
— A próxima palavra.
Ela hesitou.
— Vampira?
Carlisle assentiu.
Ela não conseguiu rir.
Porque sabia.
Era verdade.
— Vocês matam pessoas? — pensou.
Carlisle respondeu antes que ela perguntasse:
— Não. Nós nos alimentamos de animais.
Alívio.
Imediato.
— Esme… me desculpe. Você merecia escolher.
Ela olhou para ele.
E viu sinceridade.
Cuidado.
Algo mais.
— Está tudo bem…
Carlisle tentou responder.
Mas ela continuou:
— Carlisle…
Ela respirou fundo.
Ou tentou.
Confusão.
— Nós não precisamos respirar — disse Edward.
— Como você faz isso? — perguntou ela.
— Eu leio mentes.
Edward demonstrou.
Números.
Precisos.
Reais.
Esme ficou impressionada.
Mas então…
Percebeu.
Ele sabia.
Sobre Carlisle.
Sobre o que ela sentia.
Ela evitou olhar para Edward.
Mas viu o leve sorriso dele.
Carlisle perguntou:
— Você tem perguntas?
— Muitas… — disse ela sorrindo.
Carlisle então explicou tudo.
A vida.
A caça.
A eternidade.
Esme absorveu tudo.
Fascinada.
Assustada.
Mas… curiosa.
Quando soube que Carlisle vivia há quase trezentos anos…
Ficou em silêncio.
E então pensou:
Será que posso ficar com ele para sempre?
— Sim — disse Edward.
Ela olhou para ele.
Depois para Carlisle.
— Sério?
Edward assentiu.
Carlisle ficou confuso.
— Eu explico depois — disse Edward.
Esme ficou nervosa.
Não queria que Carlisle soubesse tudo.
Mas Edward parecia tranquilo.
— Nós vamos viver para sempre? — perguntou ela.
— Sim — respondeu Carlisle.
— Podemos morrer?
— Só por outro como nós… ou fogo.
— Conte a ela sobre os Volturi — disse Edward.
Carlisle assentiu.
— Depois. Primeiro… você precisa caçar.
Esme concordou.
Os três saíram em direção à floresta.
Carlisle parou.
— Fique aqui.
Ele sorriu.
E ela sentiu algo.
Profundo.
— Venha até mim — disse ele, já à distância.
Edward sussurrou:
— Você também pode fazer isso.
Esme correu.
E, em um instante…
Estava ao lado dele.
Riu.
— Isso é incrível.
Carlisle sorriu.
Edward se juntou a eles.
— Vamos — disse Carlisle.
— Hora de aprender a caçar.