Carlisle já havia conversado com Aro sobre seus planos de deixar a Itália e partir para o Novo Mundo, onde pretendia seguir uma carreira. Ele nunca havia estado naquela parte do mundo e esperava encontrar outros como ele — talvez com uma visão mais moral de existência.
O último “festival” havia pesado profundamente em sua consciência, e ele sabia que precisava mudar. Durante duas décadas viveu entre os Volturi e, apesar de todas as diferenças, reconhecia que também havia aprendido coisas importantes com eles.
— Você fará falta, Carlisle — disse Aro ao se despedir. — Talvez eu o visite em alguns séculos.
Carlisle assentiu, ainda impressionado com a longevidade daqueles vampiros. Parte dele desejava reencontrar Aro no futuro. Outra parte… temia o vazio de tantos anos.
Ainda assim, as possibilidades eram infinitas. Agora ele conhecia muito mais sobre sua própria espécie e tinha uma base sólida para continuar.
Antes de partir, Aro lhe entregou um presente: uma pintura elegante retratando Carlisle ao lado dos três irmãos, feita por um renomado artista italiano.
— Um símbolo de nossa apreciação.
Carlisle observou a obra com atenção. Era uma lembrança perfeita de sua passagem por Volterra.
— Obrigado por tudo — disse ele. — Espero que não se ofenda com minha partida.
— De forma alguma — respondeu Aro. — Nossas portas estarão sempre abertas.
Carlisle agradeceu mais uma vez e partiu.
Havia tristeza em deixar aquele lugar… mas também esperança.
O Novo Mundo era diferente de tudo o que ele imaginara. Carlisle ficou fascinado com a cultura em formação e absorveu cada detalhe daquela nova sociedade.
Ao longo do século XVIII, testemunhou eventos históricos importantes. Esteve presente na assinatura da Declaração de Independência e percorreu campos de batalha durante a revolução. Foi nesse período que conheceu outro vampiro: Garrett.
Eles se tornaram amigos, embora Garrett fosse semelhante a Alistair — um espírito livre, sem interesse em permanecer com alguém por muito tempo. Ainda assim, sua personalidade era mais aberta e amigável.
A amizade entre eles cresceu, mas nunca foi constante. Garrett vivia para a guerra, lutando pelo que chamava de sonho americano. Carlisle respeitava isso… e nunca tentou impedi-lo.
Durante os séculos XVIII e XIX, Carlisle conheceu muitos outros vampiros. Continuou viajando durante períodos de transição — momentos em que precisava mudar de cidade para manter sua identidade em segredo.
Ainda assim, estabeleceu-se principalmente nos Estados Unidos, onde finalmente realizou seu maior objetivo:
Tornar-se médico.
Ao longo dos séculos, acumulou riqueza… mas não sabia o que fazer com ela. Comprava e vendia casas, mas nunca permanecia em um lugar por mais de dez ou quinze anos.
A medicina tornou-se seu equilíbrio.
Era sua redenção.
Cada vida salva compensava, ainda que um pouco, as vidas que ele não conseguiu proteger no passado.
Era isso que o mantinha em pé.
O trabalho diminuía a solidão.
Carlisle deixou de se ver como um vampiro.
Ele era…
Um médico.
E, mesmo que ainda houvesse vazio dentro dele…
Ele estava em paz.
Ou pelo menos… acreditava estar.
Até que…
Tudo mudou.
Carlisle vivia em Columbus, Ohio, há quase seis anos. Estava relativamente satisfeito, sustentado pelo propósito que encontrara em sua profissão.
Ele se maravilhava com os avanços da medicina, frequentemente comparando suas anotações de décadas — até séculos — diferentes.
Ninguém jamais acreditaria no que ele havia visto.
E ele nunca poderia contar.
No hospital, mantinha distância de seus colegas. Conversas curtas. Interações controladas.
— Dr. Cullen — chamou um funcionário.
Carlisle levantou o olhar.
— Você tem um paciente.
— Pode mandar.
Pouco depois, uma mulher e uma jovem entraram.
— É a perna dela — disse o homem antes de sair.
Carlisle ajudou a jovem a subir na maca. Ela tentou esconder a dor.
— Sou a Sra. Platt — disse a mulher.
— Carlisle Cullen — respondeu ele.
— Esta é minha filha, Esme.
O olhar da mãe era duro.
— Ela precisa aprender a se comportar como uma jovem dama.
Carlisle conteve um sorriso.
— Vou deixá-la explicar — disse a mãe, saindo.
— Então… o que aconteceu? — perguntou Carlisle.
Esme o encarou… sem conseguir falar.
— Imagino que tenha sido um acidente.
— Eu… caí de uma árvore — disse ela, finalmente. — Estava brincando… e ouvi um estalo.
Carlisle sorriu.
Começou a examinar a perna.
Ela recuou levemente.
— Doeu?
— Suas mãos… são frias.
Carlisle ficou sem reação por um instante.
— Sim… eu sei.
— Desculpe…
— Está tudo bem.
Ele continuou o exame, mantendo uma conversa leve para distraí-la.
Ela era diferente.
Viva.
Autêntica.
Livre.
Algo raro.
— Evite subir em árvores — disse ele ao terminar.
— Você acha que isso é só para meninos? — perguntou ela.
Carlisle sorriu.
— Não.
Ela sorriu de volta.
Havia algo ali.
Algo…
Diferente.
Carlisle ajudou-a a descer da maca. Seus dedos se tocaram.
Desta vez…
Ela não recuou.
— A perna está fraturada — explicou ele à mãe.
— Obrigada, doutor.
— Obrigada… — disse Esme, sem desviar o olhar.
Carlisle apenas sorriu.
Mais tarde…
Ele a observou partir.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Sentiu algo mudar dentro de si.
Enquanto isso…
Em seu quarto…
Esme sorria.
Pensando nele.
Revivendo cada momento.
Cada palavra.
Cada toque.
— Estou… apaixonada… — sussurrou.