Aro nunca falou diretamente sobre o ocorrido naquela noite na biblioteca, mas Carlisle tinha certeza de que Caius não havia agido sozinho — ou, ao menos, não havia planejado sozinho.
As noites continuaram a passar, uma após a outra, durante sua estadia com os Volturi.
Carlisle manteve sua rotina de estudos, dividindo seu tempo entre a biblioteca do mundo humano e a dos vampiros. Em ambas, encontrava conhecimento que o aproximava do futuro que desejava construir.
Com o passar dos anos, tornou-se extremamente familiarizado com todos os membros do clã, assim como com a guarda. Sempre que acreditava já ter conhecido todos, um novo membro surgia.
Felix, o mais forte fisicamente entre os guardas, tornou-se uma presença constante. Carlisle percebeu sua proximidade com Jane, Alec e Demetri, entendendo que aqueles quatro formavam o núcleo mais importante dentro da estrutura de Aro.
Cada um possuía seu papel, e o sucesso do grupo estava diretamente ligado à forma como esses papéis eram executados. Não havia disputas por atenção, nem egoísmo evidente. Carlisle concluiu que era justamente isso que tornava os Volturi tão poderosos.
— Uma nova lenda surgiu — disse Aro, sentado em seu trono de pedra.
Caius ergueu os olhos, Marcus voltou sua atenção para ele… e Carlisle percebeu que estava sendo observado.
Ele fechou o livro que lia.
— É sobre você, Carlisle.
— Sobre mim?
— Sim — respondeu Aro, caminhando lentamente. — Existe um rumor… sobre um
stregoni benefici
.
Carlisle processou as palavras.
— Um… bom vampiro.
Caius soltou uma risada baixa.
— Eu não entendo — disse Carlisle. — Eu não fiz nada para chamar atenção.
— Talvez não saibam quem você é — respondeu Aro — mas acreditam que você existe.
Carlisle ficou em silêncio.
— Não se preocupe — continuou Aro. — Você se mistura bem. Seus olhos ajudam… não são vermelhos como os nossos.
— Acho que é por causa da minha dieta.
— Exatamente.
O silêncio voltou a preencher o ambiente.
— Só achei que gostaria de saber — disse Aro, sorrindo. — Você criou uma reputação… mesmo sem querer.
Carlisle assentiu.
Mas algo o incomodava.
Talvez estivesse sendo observado mais do que imaginava.
Talvez estivesse se expondo demais.
Ele começou a pensar que deveria ser ainda mais cauteloso ao interagir com humanos.
Aro, como se lesse seus pensamentos, comentou casualmente:
— Alguns simplesmente sabem.
Antes que Carlisle respondesse, Demetri entrou arrastando um homem.
— Pegamos um.
O homem estava apavorado.
Sabia que iria morrer.
Aro aproximou-se lentamente, saboreando o momento.
Felix e Demetri o forçaram de joelhos.
Jane e Alec observavam.
Carlisle permaneceu no fundo da sala.
Ele nunca havia presenciado uma execução de perto.
Aro colocou as mãos na cabeça do homem.
E, num único movimento…
Tudo acabou.
O som foi seco.
O corpo caiu.
Carlisle desviou o olhar.
Felix e Demetri queimaram os restos.
— Essa é a parte difícil do trabalho… — comentou Aro, com ironia.
Carlisle sentiu o desconforto crescer.
Aro sabia.
E parecia… gostar disso.
— Estamos prontos para o festival? — perguntou Caius.
Carlisle entendeu imediatamente.
Festival.
Era o nome que davam…
A um massacre.
Ele já havia evitado esses eventos antes.
Mas sabia exatamente como funcionavam.
Os humanos eram atraídos…
E mortos.
Carlisle se retirou novamente, ignorando o olhar de desdém de Caius.
Caminhou pelos corredores até sair para a cidade.
Do lado de fora…
Ouviu.
Vozes.
Risos.
Pessoas inocentes.
Caminhando… direto para a morte.
Carlisle parou.
E ouviu.
Os gritos começaram.
Desespero.
Dor.
Morte.
Seu estômago se revirou.
Ele queria fugir.
Fugir de tudo.
Do sangue.
Da violência.
Da solidão.
Mas, pela primeira vez…
Algo mudou.
Ele percebeu.
Ele era parte daquilo.
Ele não matava.
Mas permitia.
Ele sabia.
E não fazia nada.
Era cúmplice.
Carlisle olhou ao redor da cidade.
E então viu.
Uma igreja.
Algo dentro dele o puxou.
Ele correu até lá.
Parou diante da entrada.
Sentiu-se… indigno.
Como se não pudesse entrar.
Como se fosse queimado.
Mas, ainda assim…
Entrou.
O silêncio o envolveu.
Ele fechou os olhos.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Rezou.
— Perdoe-me pelos meus pecados…
Sua voz era baixa.
Quase quebrada.
— Perdoe-me… Pai.