Carlisle começou a apreciar sua estadia com o clã que se autodenominava Volturi. Aos poucos, percebeu o quanto aqueles irmãos sabiam — e também passou a compreender as habilidades ocultas de cada membro.
Os gêmeos, Alec e Jane, eram extremamente poderosos — algo que Carlisle não apenas ouviu, mas testemunhou. Eles não tinham problema algum em demonstrar suas habilidades, embora aqueles escolhidos por Aro para servirem de “experimento” não compartilhassem do mesmo entusiasmo. Ainda assim… nunca protestavam.
Carlisle estava ao lado de Aro quando o líder assentiu levemente.
— Alec…
O jovem respondeu com um aceno e direcionou sua atenção para um membro da chamada Guarda Volturi.
Carlisle observou quando uma espécie de névoa escura começou a sair das mãos de Alec, envolvendo completamente o homem. Em questão de segundos, seus sentidos foram anulados. Sua expressão revelou puro terror — como se tivesse sido lançado em uma escuridão absoluta.
— O que você está vendo — explicou Aro — é a habilidade de Alec: retirar todos os sentidos de um indivíduo. Pode ser útil na caça… embora ele não precise disso para matar.
— E quando mais ele usa isso? — perguntou Carlisle.
Aro sorriu.
— Fico feliz que tenha perguntado.
Carlisle já se arrependeu da pergunta pelo tom sombrio que acompanhava a resposta.
— Nosso propósito — continuou Aro — é manter a ordem no mundo dos vampiros.
Ele então chamou Jane. Assim que Alec liberou o homem, Jane agiu.
O efeito foi imediato.
O homem gritou como se estivesse sendo atravessado por milhares de lâminas invisíveis. Carlisle franziu o cenho, claramente incomodado. A dor parecia real… insuportável.
Aro percebeu sua reação.
— Já chega — disse calmamente.
Jane esperou um segundo a mais antes de encerrar o sofrimento. O homem caiu ao chão, tremendo, antes de ser levado por Caius.
— Como eu dizia… — retomou Aro — nós mantemos a ordem. Temos regras.
Carlisle ouviu atentamente.
— Você já percebeu o que acontece sob a luz do sol — continuou Aro.
— O brilho… — respondeu Carlisle.
— Exatamente. E a última coisa que queremos é que os humanos descubram quem somos.
Carlisle assentiu. Ele sabia disso melhor do que ninguém.
— Não nos expomos. Não chamamos atenção. Não revelamos nossa natureza… a menos que estejamos dispostos a eliminar a testemunha.
Aro fez uma breve pausa.
— E quando alguém quebra essas regras… nós agimos.
— O que acontece? — perguntou Carlisle.
A resposta veio fria:
— Execução.
Carlisle hesitou.
— Nós podemos morrer?
Aro riu.
— Claro. Geralmente… pelas mãos uns dos outros.
— Como?
— Desmembramos o corpo… e queimamos os restos.
Carlisle ficou visivelmente desconfortável.
Aro sorriu.
— Não se preocupe. Você não quebrou nenhuma regra. Pelo contrário… seu autocontrole é admirável.
Carlisle respirou fundo.
— Existem outras regras?
— Sim. Por exemplo… crianças imortais.
— Crianças…?
— Isso é assunto para outro momento.
Carlisle assentiu.
— Tenho aula — disse ele.
Antes que saísse, Aro voltou a falar:
— Já pensou sobre o que conversamos?
Carlisle franziu o cenho.
— Sobre sua alimentação… pensou em reconsiderar?
Carlisle respirou fundo.
— Não. Animais são suficientes para mim.
Aro apenas assentiu.
Carlisle deixou o local e seguiu para a universidade. Após as aulas, decidiu ficar na biblioteca. Sabia que, se voltasse ao castelo, poderia ser envolvido novamente pelas conversas de Aro.
Ele estudou por algumas horas.
Até que…
Um grito ecoou.
Carlisle levantou-se imediatamente. Outros também reagiram. Todos correram para fora.
Antes mesmo de chegar à porta…
Ele sentiu.
Sangue.
Intenso.
Quente.
Chamando por ele.
Ele prendeu a respiração, mas o corpo reagiu. A sede voltou com força total.
Do lado de fora…
O caos.
Um corpo mutilado estava estendido na entrada.
Estudantes em pânico.
Funcionários tentando controlar a situação.
Carlisle fixou o olhar na cena. Não sabia sequer dizer se era um homem ou uma mulher.
E, por um instante…
A sede quase venceu.
Mas então…
Veio a consciência.
Aquilo não era caça.
Era brutalidade.
— Ataque de animal! — gritava alguém.
— O diabo! — disse outro.
Carlisle reconheceu a palavra.
Diabo.
Assim como em Londres.
Ele sabia o que isso significava.
Medo.
Caos.
Violência.
Ele empurrou a multidão e saiu dali.
Aro observava tudo do alto de um prédio.
Mesmo saciado…
O cheiro de sangue ainda o atraía.
Mas algo chamou sua atenção.
Carlisle.
Passando direto.
Ignorando o sangue.
Aro ficou impressionado.
Nunca havia visto algo assim.
Parte dele queria quebrá-lo.
Testar seus limites.
Outra parte…
Admirava.
Lealdade.
Autocontrole.
Virtude.
Qual deles venceria?
Carlisle voltou ao castelo.
Caius o recebeu com um sorriso irônico.
— Você não parece um vampiro.
— O que quer dizer?
— O sangue… você não sentiu nada?
— Foi você? — perguntou Carlisle.
— Claro — respondeu Caius. — Escolhi o melhor.
Carlisle ficou tenso.
— Como consegue resistir? — perguntou Marcus.
— Foram anos de prática… — respondeu Carlisle. — Não foi fácil.
— Ele já estava morto — disse Caius. — Você poderia ter se alimentado.
— Não em público.
Caius riu.
— Humanos já acreditam em monstros.
— Eles sentem que existimos — disse Marcus.
— E se descobrirem? — perguntou Carlisle.
— Nunca vão — respondeu Marcus.
Uma mulher entrou.
Elegante.
Imponente.
— Esta é minha esposa, Athenodora — disse Caius.
Carlisle a cumprimentou.
Eles trocaram poucas palavras antes de saírem.
Carlisle observou.
— Eles se conheceram assim?
— Sim — disse Marcus. — Já eram como nós.
Carlisle hesitou.
— Você… teve alguém?
Marcus ficou em silêncio.
— Tive. Didyme.
Carlisle percebeu a dor.
— Ela morreu.
— Sinto muito…
— Nós a procuramos… mas nunca encontramos o responsável.
Carlisle não sabia o que dizer.
— Eu tentei morrer — continuou Marcus. — Mas não consegui.
Silêncio.
— Vá — disse ele. — Não preciso de pena.
E então…
Desapareceu.