1707 — Itália
Ao longo de várias décadas, Carlisle passou a aceitar completamente aquilo que era. Ele viajou por toda a Europa, frequentando diferentes universidades para manter seus conhecimentos atualizados nas áreas que mais admirava.
Como Alistair havia mencionado, existiam muitos outros como ele. Carlisle conheceu diversos ao longo do caminho — alguns mais amigáveis, outros nem tanto — mas muitos acabaram simpatizando com ele.
Ele tinha sede de conhecimento, não apenas sobre o mundo humano, mas também sobre sua própria espécie. Sempre que surgia uma oportunidade, ele buscava conversar com outros vampiros, construindo laços que, mesmo incomuns, eram importantes para ele.
Suas noites continuavam seguindo o mesmo padrão desde que deixara sua primeira universidade. A medicina havia avançado muito ao longo dos anos, e Carlisle percebia claramente a diferença entre seus primeiros estudos, ainda no final do século XVII, e tudo o que vinha aprendendo agora.
O desenvolvimento da medicina o fascinava. Sentia-se privilegiado por ter tanto tempo para acumular conhecimento — algo impossível para um humano comum.
Apesar de se sentir realizado em termos acadêmicos e profissionais, a solidão começava a pesar.
O tempo livre fazia sua mente vagar… e, em certos momentos, ele começava a acreditar que companheirismo não era algo possível no mundo dos vampiros.
Mesmo entre os poucos que conhecera, nenhum realmente o convidara para permanecer ao seu lado. E, no fundo, ele nem sabia se aceitaria, caso isso acontecesse. A verdade era simples: não havia ninguém, humano ou vampiro, a quem ele realmente se sentisse ligado.
Durante seus estudos, conhecera muitas pessoas gentis. Algumas jovens haviam demonstrado interesse por ele — algumas, inclusive, muito bonitas — mas Carlisle sabia que se aproximar demais seria perigoso.
Ele já havia convivido com humanos o suficiente para entender seus limites. Por isso, mantinha distância emocional, encurtando conversas antes que se tornassem profundas demais.
No campo do romance… ninguém havia despertado algo além de uma admiração superficial.
Ele sabia que isso poderia parecer arrogante, mas não era essa sua intenção. Não era uma questão de as mulheres não serem boas o suficiente — era que ele não podia, em consciência, arrastar alguém para aquele mundo sem amor verdadeiro.
E, mesmo que encontrasse alguém que amasse profundamente… sabia que jamais teria coragem de condená-la à mesma existência que a sua.
— Talvez exista alguém como eu… — pensou.
Seus pensamentos foram interrompidos quando uma voz surgiu em um beco solitário de uma cidade italiana.
Carlisle costumava usar aquele caminho após as aulas noturnas. Era silencioso e permitia que ele deixasse a cidade sem chamar atenção — quase como uma rota de fuga secreta.
— Caminhante da noite — disse uma voz.
Carlisle se virou, já sabendo o que encontraria. O cheiro denunciava: outro vampiro.
— Fui enviado para buscá-lo — continuou o homem.
— Buscar…? — Carlisle franziu o cenho. — Não entendo.
— Há membros do meu clã que desejam conhecê-lo. Estão intrigados com seu modo de vida.
Carlisle hesitou, mas assentiu.
— Como me encontrou?
O homem pareceu ofendido.
— Não foi difícil.
— Você é um rastreador? — perguntou Carlisle, lembrando-se de Alistair.
O olhar do homem endureceu.
— Sou. Segui seus pensamentos desde a biblioteca.
— Meus pensamentos? Quem é você?
— Demetri.
Carlisle observou suas roupas elegantes, seu porte confiante.
— Carlisle Cullen.
— Precisamos ir — disse Demetri. — Aro não gosta de esperar.
Carlisle o seguiu pela cidade, dividido entre cautela e curiosidade.
Logo percebeu… aquilo era algo diferente.
Uma organização.
Um sistema.
Quando entraram no local, Carlisle encontrou-se diante de três figuras imponentes.
Homens de aparência quase real.
Cabelos longos.
Capas negras.
Pele pálida como mármore.
E olhos…
Vermelhos.
Hipnotizantes.
Havia algo neles.
Algo perigoso.
Mas também…
Magnético.
Carlisle sentiu-se pequeno diante daquela presença.
Ao redor, outros vampiros observavam em silêncio. Todos carregavam uma aura semelhante: controle… disciplina… poder.
O homem ao centro sorriu.
— Demetri…
Eles trocaram um gesto silencioso, como se comunicassem algo além das palavras.
Então ele voltou sua atenção para Carlisle.
— Carlisle, não é?
— Sim.
— É um prazer conhecê-lo. Sou Aro.
Ele apontou.
— Marcus… e Caius.
Carlisle inclinou a cabeça.
— O prazer é meu.
— Tenho acompanhado você — disse Aro. — Seu estilo de vida me intriga.
— Como me encontrou?
Aro sorriu.
— Senti sua presença assim que entrou em nosso território. Mas só me interessei verdadeiramente quando percebi… sua relação com os humanos.
Ele se aproximou.
— Posso?
Carlisle hesitou.
— Ele pode ler todos os seus pensamentos — explicou Demetri.
Aquilo o deixou inquieto.
Mas, ainda assim…
Ele estendeu a mão.
Aro fechou os olhos.
E, por um instante…
Reviveu toda a vida de Carlisle.
Quando abriu os olhos, estava impressionado.
— Nunca…?
Carlisle entendeu.
— Você quer dizer… humanos? Não.
Caius avançou, incrédulo.
— Nunca matou um humano?
— Não.
— Isso é absurdo — disse Caius. — Eles são nossa fonte natural de alimento.
Aro levantou a mão, pedindo silêncio.
— Como consegue resistir? — perguntou.
— Não foi fácil. Passei meses sem me alimentar… até descobrir outra alternativa.
O silêncio tomou o ambiente.
— Meses? — perguntou Marcus.
— Sim.
Todos pareciam incapazes de compreender.
— Isso é extraordinário — disse Aro. — Nunca vi tamanho autocontrole.
Carlisle percebeu algo importante naquele momento.
Ele nunca havia provado sangue humano.
E isso…
Era sua maior vantagem.
— Admiro você — continuou Aro. — E sei que é um homem instruído.
— Estudei bastante.
— Temos uma biblioteca aqui — disse Aro. — E você pode usá-la.
Carlisle ficou intrigado.
— Marcus… leve-o até lá.
Marcus assentiu e conduziu Carlisle por um longo corredor de pedra.
Quando chegaram…
Carlisle ficou sem palavras.
Livros.
Por toda parte.
Do chão ao teto.
— Leia o que quiser — disse Marcus.
E desapareceu.
Carlisle permaneceu ali, absorvendo tudo.
Aro havia sido generoso demais.
Mas Carlisle sabia…
Havia algo por trás daquilo.
Ainda assim…
Era uma oportunidade.
E ele não pretendia desperdiçá-la.