Novos começos surgiram, e Carlisle Cullen estabeleceu-se como um novo homem em uma nova cidade. Ele caminhava pelas ruas movimentadas do entardecer, misturando-se com facilidade à população humana.
A cada pessoa que cruzava seu caminho naquela primeira caminhada pelas calçadas, ele sorria e acenava educadamente. A maioria retribuía o gesto, o que o deixava discretamente satisfeito.
Meses haviam se passado desde a última vez que Carlisle interagira com outro ser humano. Não tivera conversas de nenhum tipo e começava até a se perguntar se sua voz ainda funcionava. A falta de contato estava cobrando seu preço.
Ele era um jovem instruído e desejava encontrar uma forma de contribuir com a sociedade. Quando ainda era humano, sempre tivera interesse em aprender coisas novas, e esse desejo não desaparecera com a imortalidade.
Uma mulher, de braços dados com o marido, passou por ele quase esbarrando em seu ombro. Ela parou por um instante, a boca levemente aberta, encarando-o de um jeito que o deixou desconfortável.
Carlisle rezou, em silêncio, para que seus olhos ainda fossem do tom âmbar que lembrava — e não aquele vermelho frio dos vampiros do esgoto.
O homem ao lado dela franziu o cenho para Carlisle, mas a expressão surpresa da mulher logo se transformou em um sorriso direcionado a ele.
Carlisle respondeu com um leve aceno e um sorriso discreto, ainda um pouco confuso. Mas ao notar o rubor no rosto da mulher, rapidamente compreendeu — ela o achara bonito. Antes de seguir, ela ainda lhe lançou um pequeno aceno tímido.
Ele sorriu para si mesmo, sentindo-se levemente lisonjeado. Já havia tido encontros casuais com mulheres quando era humano, mas nunca recebera um olhar como aquele.
A verdadeira vitória, no entanto, era outra: ele estava se misturando. Ninguém o via como aquilo que ele realmente era. Para todos, ele ainda era apenas… um homem. Agora, só precisava descobrir como ganharia a vida.
Durante suas viagens, Carlisle encontrara diversas universidades pela Europa. Em uma de suas caminhadas, entrou em uma pequena biblioteca ligada a uma instituição de ensino que despertara seu interesse.
Um senhor de cabelos grisalhos e barba bem cheia estava sentado atrás de um balcão. Ao vê-lo entrar, virou-se e o cumprimentou cordialmente:
— Olá.
— Olá — respondeu Carlisle, hesitando por um instante, ainda impressionado por estar prestes a conversar com alguém que não fosse um animal morto… ou ele mesmo.
— Em que posso ajudá-lo?
Carlisle olhou ao redor da biblioteca por um momento.
— Eu… — seus olhos percorreram as estantes — estou procurando trabalho… e também estudar. Gostaria de saber como poderia fazer as duas coisas.
— O que pretende estudar?
— Qualquer coisa, na verdade — respondeu ele. — Tenho interesse em ciência e medicina… e também em música.
O homem assentiu.
— Temos cursos nessas áreas. O prédio ao lado cuida das matrículas.
Carlisle acenou com a cabeça.
— Obrigado.
— Quanto ao trabalho — continuou o homem, percebendo que ele já se preparava para sair — eu poderia precisar de alguém para organizar o lugar e fazer alguns recados. Às vezes há entregas, e também preciso de alguém para fechar a biblioteca no fim do dia. Minha esposa já está cansada de me ver chegar tarde para o jantar.
Carlisle sorriu. Trabalhar à noite se encaixava perfeitamente em sua necessidade de evitar o sol.
— Quando posso começar?
— Vá se matricular primeiro — respondeu o homem. — Depois combinamos seus horários.
— Certo… é ao lado, não é?
O homem se levantou e apontou.
— Logo ali, à esquerda.
— Obrigado.
— Por nada — disse ele, estendendo a mão. — John Wilcox.
— Carlisle — respondeu ele, apertando sua mão. — Carlisle Cullen.
John sorriu e voltou sua atenção a outro estudante que se aproximava com vários livros nos braços.
Carlisle lançou um último olhar ao redor e saiu em direção ao prédio indicado. Como o homem dissera, ficava a poucos passos dali.
A conversa com os funcionários da universidade foi tão tranquila quanto a da biblioteca. Todos foram receptivos e prestativos, e Carlisle respondeu com a mesma naturalidade. Pouco depois, retornou à biblioteca já com suas aulas organizadas para o fim da tarde e à noite.
— Isso foi rápido — comentou John ao vê-lo voltar.
— Sim — disse Carlisle, sorrindo. — Não havia muita gente.
John pegou o papel com o horário das aulas e estreitou os olhos.
— Esses olhos já não são mais os mesmos — brincou, rindo.
Carlisle sorriu enquanto observava o ambiente. A biblioteca era antiga, escura, silenciosa. Imaginou-se ali sozinho à noite, lendo sem interrupções. Poderia ser seu refúgio.
— Quando pode começar? — perguntou John.
— A qualquer momento. Hoje, amanhã… quando precisar.
— Se eu disser à minha esposa que estarei em casa para o jantar a partir de amanhã, ela ficará muito feliz.
Carlisle sorriu.
— Então amanhã?
— Perfeito, rapaz.
— Ótimo. A que horas devo vir?
— Às cinco. Mostro tudo para você. Não é um trabalho difícil.
— Estarei aqui às cinco.
John assentiu.
— Até amanhã.
— Obrigado — disse Carlisle antes de sair.
Ele respirou fundo o ar da noite. Não era tão agradável quanto esperava — o cheiro de sangue humano ainda se destacava. Mas o fato de conseguir ignorá-lo o deixou satisfeito.
Durante a conversa com John, mal havia percebido aquele cheiro. Ele estava ali, no fundo de sua mente, e por vezes a queimação tentava emergir… mas já não era forte o suficiente para dominá-lo.
Carlisle caminhou pela cidade, entrando em pequenas lojas, trocando algumas palavras com estranhos. As mulheres continuavam a olhá-lo — algo com que ele teria que se acostumar.
Uma cafeteria chamou sua atenção. Lugares assim estavam se tornando populares, onde homens passavam horas debatendo ideias, sustentados por café.
Ele olhou para dentro, viu poucos clientes conversando em voz baixa, e seguiu seu caminho. Percebeu, então, que conseguia ouvir perfeitamente até os sussurros mais discretos — o que o fez sentir-se um pouco invasivo.
Continuou explorando a cidade que pretendia chamar de lar por algum tempo, até se retirar para uma área mais isolada, nos arredores.
Carlisle desejava um abrigo de verdade. Estava cansado de viver em florestas, parques abandonados ou sob pontes. Precisava de um lar.
A biblioteca serviria por enquanto. Mas, assim que tivesse dinheiro suficiente, compraria uma casa.
Ele sabia que não precisaria gastar com comida. Não sentia desejo por frutas, nem por nada do que antes apreciava. Havia apenas uma forma de fome agora — sangue.
E, se havia algo positivo nisso, era o fato de que nunca lhe faltaria alimento. Todo o dinheiro que ganhasse poderia ser usado para construir uma vida melhor.
Seus pensamentos voltaram às palavras de John sobre sua esposa. Pela primeira vez, Carlisle refletiu sobre o próprio futuro.
Como poderia ter uma vida assim?
Existiriam outras como ele?
Seria obrigado a transformar alguém para não viver sozinho?
Ele jamais faria isso.
E então vieram outras dúvidas. Ele envelheceria? Permaneceria assim para sempre? Poderia morrer?
As perguntas pareciam não ter fim.
Mas havia uma certeza.
Ele não queria morrer sozinho.
Não queria acabar como seu pai — em uma casa vazia, com apenas o silêncio e uma garrafa como companhia.
Se aquele fosse seu destino… ele o mudaria.
Carlisle percebeu, naquele momento, que queria uma família. Queria alguém ao seu lado.
Queria… amor.
Ele sabia que poderia ser um bom homem. Um bom marido.
Mas ainda não compreendia que sua nova condição poderia tornar isso impossível.
Ele balançou a cabeça, afastando esses pensamentos.
Não havia sentido em se preocupar com isso agora.
Em vez disso, focou no que havia conquistado naquele dia.
Um trabalho.
Estudos.
Conversas.
E, acima de tudo…
Controle.
Ele não sentira, nem por um instante, o impulso de matar.
Foi um bom dia.
E ele só podia esperar…
Que os próximos fossem ainda melhores.