Dor. Tudo girava em torno da dor. A própria palavra era como mil punhais atravessando o coração — dor mental, dor física, agonia, angústia. Era assim que Carlisle resumia sua nova vida. Meses haviam se passado, e ele não havia se alimentado, nem uma única vez. Pela intensidade da queimação em sua garganta, ele chegou a acreditar que aquilo poderia ser o começo do fim, que a fome seria sua saída daquela existência demonizada à qual fora forçado.
Ele permanecia deitado, rendido à sede, até que pensamentos terríveis começaram a invadir sua mente. Fantasias cruéis surgiam sem controle: ele se via rasgando a garganta de alguém com os dentes, sentindo o sabor do que tanto desejava se espalhar pela língua e escorrer por suas veias.
Carlisle passou a língua pelos dentes, por dentro dos lábios, enquanto a ideia de saciar aquela sede começava a dominá-lo. Desejou, com todas as forças, poder dormir, nem que fosse por um instante, apenas para fazer aquela sensação desaparecer. Mas essa era mais uma das novas condições contra as quais ele não podia lutar.
Não, pensou consigo mesmo. Ele balançou a cabeça e puxou os próprios cabelos. Controle-se, implorava silenciosamente. Não perca o controle.
O monstro dentro dele começava a assumir o comando, e então um único pensamento cruzou sua mente — um pensamento que o fez se odiar ainda mais: eu queria que alguém passasse por aqui agora.
Ele estremeceu, reconhecendo o quanto aquele desejo era real. Ele precisava de sangue. E já não sabia por quanto tempo conseguiria resistir antes de caminhar até a cidade e ceder completamente.
Carlisle sentou-se novamente e começou a bater a mão contra o chão, em um gesto nervoso. Inspirou profundamente o ar da noite, e foi então que sentiu. O cheiro. Sangue. Próximo… mas diferente daquele que impregnava as ruas de Londres.
Ele se abaixou, seguindo o rastro com seus sentidos aguçados, agora quase animais. Foi assim que encontrou uma família de cervos, iluminados pela luz da lua. Eles não tinham consciência de sua presença. E, pela primeira vez, Carlisle sentiu seus instintos mais primitivos tomarem conta de seu corpo.
Um rosnado surgiu em seu peito enquanto ele se aproximava. Agachou-se novamente e então avançou, lançando os animais em um estado imediato de pânico. Eles se dispersaram pelo campo, mas não rápido o suficiente. Carlisle conseguiu agarrar um deles e o derrubou com força contra o chão.
Seus dentes afundaram na pele do cervo. O sabor era intenso, quente, irresistível. O sangue invadiu sua boca, escorrendo também por suas roupas, enquanto o cheiro o envolvia completamente. Ele se alimentou sem qualquer piedade, bebendo até esvaziar completamente sua presa. Quando finalmente se afastou, ofegava, tentando escapar da intensidade esmagadora da sensação.
Por mais de meia hora, permaneceu ao lado do corpo. Aos poucos, o efeito quase embriagante da alimentação começou a desaparecer. Ele limpou-se como pôde, tentando retomar a clareza de pensamento.
O cervo estava morto. Sua sede, saciada. Nenhum humano havia sido ferido. Ele voltou a olhar para os olhos sem vida do animal ao seu lado. Por um instante, a culpa tentou surgir, mas logo foi substituída por outro pensamento: quantas vezes ele já havia consumido animais quando ainda era humano? A diferença agora estava apenas na forma, não na essência.
Carlisle observou o campo ao redor, assimilando tudo o que havia acabado de acontecer. Deitou-se na grama e começou a rir, um riso baixo, quase insano. Passou as mãos pelo rosto e sorriu novamente ao olhar para o cervo.
— Você apareceu bem na hora, meu amigo — murmurou, consciente de quão estranho aquilo soava.
Os meses de solidão haviam deixado marcas profundas. Ele sentia falta das pessoas, da interação, da normalidade. Ainda assim, havia uma parte dele que não confiava em si mesmo. Sabia que precisava aperfeiçoar o controle sobre sua sede antes de retornar à sociedade.
E então, algo inesperado surgiu dentro dele.
Esperança.
Pela primeira vez desde sua transformação, Carlisle sentiu que talvez fosse possível continuar. Se não podia morrer, então talvez pudesse aprender a viver daquela nova maneira. E, se fosse assim, ele tinha tempo — todo o tempo do mundo.
Nas semanas seguintes, Carlisle começou a se adaptar ao próprio corpo. Caçava diferentes tipos de animais, saltava entre árvores, nadava, corria — testava todos os limites possíveis. E o mais impressionante era que nunca falhava.
Durante o dia, passava o tempo tentando superar seus próprios recordes: quão longe conseguia saltar parado, com impulso, quão rápido podia se mover. Foi também nesse período que percebeu algo estranho — sua pele parecia brilhar sob a luz do sol. Mais um mito quebrado. A luz do sol não o matava.
Paciente como nunca, Carlisle esperou mais alguns meses antes de decidir se aproximar novamente da sociedade. Conhecia as pequenas vilas da região e, antes de voltar a uma grande cidade, passou a rondar discretamente a mais próxima.
Respirou fundo e caçou o máximo de cervos que conseguiu, reduzindo sua sede ao mínimo possível. Ainda assim, a queimação persistia em sua garganta, o que o preocupava. Prometeu a si mesmo que, ao primeiro sinal de perda de controle, recuaria imediatamente para a floresta.
Ele avançou passo a passo, deliberadamente em ritmo humano, à medida que se aproximava de sinais de vida.
A queimação voltou, mais intensa, mas o impulso de matar não veio junto. Ele podia suportar a dor física — afinal, já havia resistido a meses de sofrimento. Repetia isso mentalmente enquanto as vozes de dois pescadores se tornavam claras.
Uma pequena onda de alívio percorreu seu corpo. Não havia mulheres. Nem crianças. Ainda que matar aqueles homens fosse algo horrível, ele sabia que não suportaria viver com a culpa de ferir alguém mais vulnerável.
Seus pensamentos buscaram um ponto mais positivo. Os homens estavam próximos. Ele conseguia quase ver o sangue correndo por suas veias. À distância, eles conversavam despreocupados, compartilhando uma garrafa de uísque enquanto pescavam em águas rasas.
Você não vai machucá-los, repetia para si mesmo.
A cada passo que dava, o pensamento se repetia.
Até que ficou perto demais.
Carlisle recuou imediatamente, mas parou ao perceber que ainda podia vê-los. Olhou por cima do ombro, agora mais determinado do que nunca a dominar o monstro dentro de si. Ele não queria fugir para sempre. Sabia que podia resistir. Sabia que podia vencer.
— Acho que você pegou um, Marty — disse um dos homens, barbudo e robusto, ao amigo magro, enquanto a vara de pesca se curvava com força.
Os dois comemoraram quando o peixe foi puxado para fora da água.
— Aí está o nosso jantar — disse o homem, antes de dar um longo gole no uísque.
Carlisle não pôde deixar de notar a ironia. “Nosso jantar”, pensou. Se ao menos soubessem que também faziam parte de uma cadeia alimentar semelhante.
Ele permaneceu ali por mais um tempo, testando seus limites, antes de decidir que não deveria forçar mais naquele primeiro teste. Quando retornou ao lugar que agora chamava de lar, sentiu-se satisfeito. Havia conseguido.
Um sorriso permaneceu em seu rosto enquanto caminhava descalço pelo campo onde costumava caçar. Mais tarde, deitado sob o céu estrelado, sentiu novamente aquela esperança silenciosa.
Nas semanas seguintes, continuou a se desafiar, avançando cada vez mais. Tornava-se mais fácil permanecer a uma distância segura dos humanos.
Havia uma família em especial que ele observava, devido ao isolamento da casa. Todas as noites, aproximava-se discretamente da borda da floresta apenas para sentir o cheiro do sangue humano… e resistir.
Noite após noite, seu controle se fortalecia. Até que chegou o momento em que já não precisava mais daquele exercício. Em silêncio, agradeceu à família por sua ajuda involuntária.
Em um momento oportuno, quando a casa estava vazia, entrou e pegou algumas roupas do filho mais velho. Serviram perfeitamente. Pela primeira vez, sentiu-se pronto para retornar à sociedade.
Mas então… lembrou-se.
Dos olhos da criatura que o transformou.
Vermelhos. Duros. Inumanos.
Carlisle olhou para si mesmo, hesitante, e então para o objeto pendurado no banheiro da casa.
Um espelho.
Nunca tivera tanto medo de algo.
Durante todos aqueles meses, jamais havia visto seu reflexo. E talvez preferisse continuar assim.
Mas precisava saber.
Respirou fundo, absorvendo o cheiro dos humanos que ali viviam. Sabia que precisava encarar a verdade. Precisava ver o que havia se tornado.
A família voltaria em breve. Aquela talvez fosse sua única chance.
— Apenas olhe — sussurrou.
O silêncio da casa parecia zombar dele, amplificando sua angústia. Ainda assim, seus passos o levaram até o banheiro.
Parou diante do espelho, cabeça baixa.
Ainda não estava pronto.
Mas nunca estaria.
— Covarde…
Levantou o olhar.
E viu.
Seus olhos.
Não eram vermelhos.
Eram dourados, com tons de âmbar.
Ele se inclinou, analisando o próprio rosto. Perfeito. Como uma escultura. A pequena cicatriz abaixo do olho havia desaparecido.
Parecia mais forte. Mais descansado. Mais… impecável.
Afastou-se.
Nenhuma falha.
Ele poderia… voltar.
Poderia pertencer novamente ao mundo.
E então, um pensamento surgiu.
Forte.
Irrefreável.
Havia um único lugar para onde precisava ir.
Carlisle precisava ver seu pai.