Carlisle permaneceu no porão abandonado por dias. A dor que havia sentido começou a diminuir, e ele voltou a observar o ambiente ao seu redor — um lugar que agora lhe parecia assustadoramente familiar.
Na escuridão, conseguia enxergar cada fenda nas paredes, cada detalhe gravado na pedra.
As partículas no ar pareciam suspensas, como se estivessem presas por fios invisíveis.
O cheiro das batatas podres tornara-se intensamente mais forte, e seu corpo… era completamente diferente.
Ele levou a mão até o local da mordida, passando os dedos indicador e médio sobre a marca. Fechou os olhos, tomado por um sentimento de derrota, desejando que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo. Mas não era. Aquela era, agora, a sua realidade.
Carlisle se levantou do lugar onde permanecera desde a transformação. Levou alguns instantes para perceber algo perturbador: ele não estava respirando. E, pouco depois, compreendeu — não precisava respirar. Um arrepio percorreu seu corpo, e o desprezo por si mesmo começou a crescer.
Ele ergueu as mãos à frente, observando-se com atenção. Não havia mais nada de humano nele. Sentia-se novo, renascido… mas não da forma sagrada que aprendera na religião. Carlisle sabia que não havia nada de divino, nem de esperançoso, naquilo que havia se tornado.
A porta que ele havia fechado permanecia ali, separando-o do mundo e do destino que agora o aguardava. Algo estava do outro lado, embora ele não soubesse o quê. De repente, o mundo parecia um lugar ainda mais assustador.
Carlisle engoliu em seco e abriu a porta com força, fazendo-a bater contra a parede. Olhou novamente para as próprias mãos e, movido por curiosidade, lançou um soco contra a parede de pedra ao seu lado.
A estrutura rochosa se desfez sob seu punho, abrindo um buraco na parede sólida. Ele ficou imóvel, a boca entreaberta. Foi nesse momento que percebeu algo ainda mais poderoso do que seu novo corpo. Uma sensação surgiu em sua garganta, como se drenasse sua alma. Era uma queimação mais intensa do que a própria transformação — algo que o consumia, que exigia, que implorava para ser atendido.
Sede.
Era isso que ele sentia.
Carlisle não precisava de explicações para entender o que fazer. Seu corpo e sua mente já sabiam como aliviar aquela dor quase insuportável, aquele desejo que ameaçava destruir sua força de vontade.
Ele lançou um último olhar para o porão. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que abandonar aquele refúgio. A porta já estava aberta. Ele teria que sair, torcendo para que fosse noite — para que não houvesse pessoas, para que ninguém estivesse ali, vulnerável.
Fechou os olhos e cerrou os dentes, tentando desesperadamente não absorver o mundo ao seu redor. Seus passos avançaram lentamente pelo chão do porão, e ele subiu as escadas com cautela, um degrau de cada vez. Temia destruir tudo sob seus pés, assim como havia feito com a parede. Mas isso não aconteceu. E, pela primeira vez em dias, uma pequena confiança surgiu dentro dele ao alcançar as ruas de Londres.
Por sorte, era noite. A cidade parecia vazia. Nenhuma alma à vista. Ainda assim, o cheiro de sangue — remanescente dos ataques de noites anteriores — atingiu suas narinas. Ele cerrou os punhos e a mandíbula, decidindo que precisava sair dali antes do amanhecer. Era a única forma de evitar o que temia ser inevitável.
Sem saber para onde ir, deixou que suas pernas o guiassem, usando a única vantagem que havia ganhado com a transformação: a velocidade.
Ele correu por milhas, deixando a cidade para trás em questão de segundos. Sentiu um certo alívio ao encontrar uma área densamente arborizada. E então, um pensamento surgiu com clareza absoluta.
Ele precisava morrer.
Era a única maneira de proteger os humanos.
— É o único jeito — pensou.
Carlisle conhecia as possíveis consequências de tirar a própria vida. Mesmo assim, esperava que, de alguma forma, Deus pudesse compreendê-lo. Que visse naquele ato um sacrifício — uma tentativa de salvar inúmeras vidas.
Ele parou por um instante, tentando respirar o ar da noite, mas o gesto apenas reforçou o ódio que sentia por si mesmo. Aquilo não era ar. Não era vida. Era o corpo de uma criatura… e ele precisava destruí-lo.
Mudou de direção, lembrando-se de um lago próximo a uma antiga fábrica. Quando jovem, costumava nadar ali. Agora, acreditava que se afogar poderia ser uma alternativa melhor do que destruir vidas inocentes.
Convencido, seguiu pela floresta. Não havia mais nada pelo que viver. Seu pai provavelmente acreditava que ele estava morto. Nunca havia se casado. Não tinha irmãos — sua mãe morrera ao dar à luz.
Mesmo assim, uma tristeza profunda o atravessou. Seu pai ficaria sozinho. Morreria sozinho. E aquilo doía.
Mas Carlisle sabia que seu pai jamais aceitaria o que ele havia se tornado.
Um demônio.
Ele afastou o pensamento. Não havia mais nada a fazer.
O lago era sua única esperança. Rezou, em silêncio, para não encontrar nenhum humano pelo caminho. Isso seria uma tragédia ainda maior — e o condenaria definitivamente.
Ao chegar, parou diante da água. Aquele lugar carregava lembranças felizes. Era puro. Inocente. Quando criança, suas preocupações eram simples: escola, igreja, pequenas tarefas.
Ele se lembrou de nadar, de pescar, de rir com outras crianças. Seus olhos pousaram sobre uma árvore inclinada sobre a água. Um sorriso surgiu ao recordar quando reunira coragem para subir até o topo… e se lançar.
O sorriso desapareceu.
Agora, ele não queria voltar à superfície.
Carlisle caminhou até a água e avançou até desaparecer sob a superfície. Afundou até perder o contato com o fundo e ficou ali.
A água tocou sua pele… mas não era fria nem quente. Era neutra. Estranhamente calma.
Ele abriu os olhos. Mesmo na escuridão turva, conseguia ver tudo. Cada partícula. Cada movimento.
Mas não havia falta de ar.
Não havia dor.
Apenas… a sede.
— Claro… — pensou. — Eu não preciso respirar.
Ele emergiu.
Precisava de outro método.
Moveu-se rapidamente até a árvore mais alta que encontrou e subiu com facilidade impressionante. Parou no topo e olhou para baixo. Conseguia ver cada detalhe do chão a dezenas de metros de altura.
Fechou os olhos. A chuva começou a cair levemente.
— Perdoe-me…
E então, sem hesitar, se lançou.
O mundo se tornou um borrão. Em poucos segundos, ele viu tudo — folhas, galhos, a própria natureza em movimento. Sentiu culpa… mas sabia que estava fazendo o certo.
A escuridão veio.
E depois…
Silêncio.
Quando abriu os olhos, estava deitado no chão.
Inteiro.
Sem nenhum ferimento.
Ele virou-se, olhando para o topo da árvore, incrédulo. Passou as mãos pelo próprio corpo.
Nada.
— Isso não é justo…
Olhou ao redor, sentindo-se preso, como se não tivesse controle sobre o próprio destino.
— Isso é escolha minha! — gritou para a escuridão. — Minha escolha!
Mas nada respondeu.
A floresta permaneceu imóvel.
Indiferente.
Ele se sentou, apoiando-se na árvore, completamente derrotado. Nunca em sua vida havia se sentido tão impotente… tão fora de controle.
Como humano, não se lembrava de querer chorar.
Agora… era tudo o que desejava.
Mas não podia.
As lágrimas não vinham.
Ele pegou uma pedra ao lado e a lançou com força no lago. Um som seco escapou de sua garganta.
— Eu nem consigo chorar… eu realmente virei um monstro…
Carlisle permaneceu ali, sozinho, até os primeiros sinais do amanhecer surgirem no céu. Não sabia se alguém ainda frequentava aquele lugar, como antes. E não podia arriscar.
Levantou-se.
E partiu.
Sem destino.
Apenas com uma decisão:
Ficar o mais longe possível de qualquer ser humano.
Mesmo que isso significasse…
Uma eternidade de solidão.
Ou, talvez…
A morte lenta pela fome.