O tempo foi passando. Os dedos de Serena se moviam com uma precisão de quem faz aquilo há décadas.
Se alguém pudesse entrar e observar, veria que mesmo num laboratório, Serena tinha um jeito de fazer tudo parecer fluido e bonito.
Um dia inteiro, da destilação e extração até a fusão e conversão dos compostos, com momentos de espera no meio.
Serena aproveitou cada intervalo para descansar, até que o primeiro estágio ficou pronto. Só então percebeu que lá fora já estava escuro.
Uma batida na porta. Era Rafael: "Posso entrar?"
"Pode." Serena respondeu, saiu para a área externa do laboratório e foi alongando o corpo dolorido.
Rafael tinha trazido o jantar. Colocou a sacola na mesa e perguntou: "Como está indo?"
"Tudo nos trilhos." Serena sentiu o cheiro da comida e percebeu que estava com fome de verdade.
Os dois se sentaram para comer. Serena perguntou: "Como estão os filhos?"
"Jantaram em casa." Rafael disse.
"Ah." Serena pensou um instante: "Aliás, tem uma coisa que preciso te contar."
Rafael serviu uma tigela de sopa para ela: "O que foi?"
"Quando terminar de tomar o remédio, vou voltar pra lá."
Nesses anos lidando com Bruno, Serena tinha aprendido bem o padrão dele.
Bruno podia fazer uma emboscada de volta, mas nunca invadiria a casa do próprio patrão.
O apartamento agora era de Rafael. Alugar de volta seria seguro.
E com o corpo recuperado, ela conseguiria lidar com qualquer imprevisto.
Mas os olhos de Rafael esfriaram num instante.
Ele perguntou com um tom neutro: "E o tratamento meu e do Henrique? Vai parar?"
"Não." Serena disse. "O Quinho pode vir quando quiser. E o seu tratamento, na semana que vem começo a montar um plano."
Rafael ouviu aquilo e não disse mais nada.
Mas a atmosfera na mesa ficou pesada.
Serena estava preocupada com o laboratório e foi logo depois de comer.
Rafael recolheu tudo em silêncio e foi embora.
A noite toda foi o estágio crítico da síntese. Serena quase não dormiu, só quando amanheceu.
Por fim, dentro do recipiente de vidro, o líquido levemente rosado tomou forma.
Serena soltou o ar aliviada. Ela se deitou na maca, injetou o líquido na própria veia.
E então entrou no sono.
No prédio do grupo Duarte.
Rafael voltou de uma reunião para o escritório, e Gabriel entrou para fazer os relatórios do dia.
Depois de tudo, ele hesitou.
"Tem mais alguma coisa?" Rafael percebeu a expressão diferente.
"Sr. Duarte, é sobre a senhorita Serena..." Gabriel escolheu as palavras: "A Aliança Médica divulga comunicados importantes toda quarta às três da tarde. Estou preocupado que desta vez..."
Rafael perguntou com um tom que cortava: "Então você se preocupa muito com a Serena?"
Gabriel negou três vezes em sequência:
"Não me preocupo! Não me preocupo com ela! Como eu ousaria me preocupar com ela!"
Competir com o chefe por mulher? Ele ainda queria ter emprego.
"Então, se eu não fiz nada, você se preocupa por quê?" Rafael respondeu com uma contrapergunta.
Gabriel pegou os documentos e sumiu em velocidade.
Rafael voltou os olhos para o site oficial da Aliança Médica.
Às três em ponto, o comunicado foi publicado.
Rafael capturou duas mensagens quase instantaneamente:
Tese da farmacologista Thea comprovadamente plagiada. Certificação de farmacologista cancelada.
A Aliança Médica declara oficialmente a exclusão de Thea. Candidatura futura negada permanentemente.
Rafael leu e a mão que segurava o mouse foi apertando devagar.
Ele queria fazer alguma coisa. Mas Serena tinha pedido especificamente para ele não fazer nada.
Ele respirou fundo e abriu o conteúdo completo.
Momentos depois, Rafael fechou tudo.
Quanto mais ele lia, mais raiva sentia.