O advogado Raul voltou-se para o júri, assumindo uma postura de apelo final. Sua voz carregava até mesmo um raro tom de gravidade — quase sincero:
“Senhoras e senhores, peço que não se deixem levar pela emoção ou por discursos inflamados. Usem a razão. Usem o bom senso.”
“Meu cliente, Everton da Silva, pode ser um homem falho, pode ser um idiota, até um canalha — mas ele não é o monstro que a promotoria descreveu, alguém que pretendia violentar uma criança. Condenem-no por invasão de domicílio e agressão — isso é justo.”
“Mas lançá-lo ao inferno com uma acusação devastadora como ‘tentativa de estupro de menor’ não é apenas uma injustiça contra ele, é uma afronta à própria seriedade da lei, uma traição ao princípio da presunção de inocência!”
“Peço que os senhores façam um julgamento justo, que resista ao tempo. E que decidam que, quanto à acusação central de ‘intenção de estuprar uma menor’ — meu cliente não é culpado!”
A defesa encerrou. O tribunal voltou ao silêncio — mas, desta vez, um silêncio mais denso, mais complexo.
As palavras de Raul talvez não tivessem a força emocional da promotora, mas ele havia atingido exatamente os pontos frágeis: a ausência de contato físico direto, o passado “imperfeito” da vítima, a possível influência sobre o testemunho da criança. Ele plantara, com precisão, a semente da dúvida razoável no coração do júri.
O juiz Ferreira não comentou. Apenas anunciou um intervalo de trinta minutos, durante o qual o júri se retiraria para deliberar.
Para Erika, esses trinta minutos pareceram um século. Ela sentia a mão de Lily agarrando seu braço — fria, úmida, tremendo levemente.
O próprio coração batia pesado dentro do peito, cada pulsação puxando consigo todos os seus nervos tensionados.
Atrás dela, Isabel murmurou um “aguente firme”, enquanto Julia continuava acariciando suavemente as costas de Lily.
Erika olhava fixamente para a porta por onde o júri havia saído. Sentia que seu destino, o destino de sua filha — e o desfecho de todo o caminho que havia construído com razão e coragem — estavam agora nas mãos de doze estranhos.
Na vida passada, o resultado fora a absolvição — com um preço devastador.
Nesta vida, ela havia escolhido outro caminho. As provas pareciam mais favoráveis.
Mas o resultado… ainda estava suspenso por um fio.
Tudo o que lhe restava era esperar. E rezar.
Rezar para que a luz atravessasse a névoa de dúvidas cuidadosamente tecida por Raul.
A deliberação durou mais do que o esperado. Quarenta minutos. Cinquenta. Uma hora…
O ar no tribunal tornava-se cada vez mais pesado. Murmúrios inquietos surgiam na plateia.
Os jornalistas começavam a demonstrar impaciência. Everton, no banco dos réus, estava cada vez mais agitado, enxugando o suor sem parar.
Raul mantinha o rosto impassível, mas os lábios apertados e os olhares ocasionais para a porta do júri denunciavam sua tensão.
Erika sentia dificuldade para respirar, como se uma pedra gelada pressionasse seu peito.
Lily se apoiava nela, praticamente deixando todo o peso do corpo recair sobre a mãe. Seus olhos estavam fechados, os cílios tremendo. Julia continuava segurando sua outra mão.
Então — quando quase todos já começavam a perder a paciência — a porta do júri finalmente se abriu.
Os doze jurados retornaram, um a um, e tomaram seus lugares. Seus rostos eram diferentes: alguns calmos, outros tensos, alguns ainda carregando resquícios de emoção ou dúvida.
O presidente do júri — um homem de cerca de sessenta anos, cabelos grisalhos e expressão austera — levantou-se e entregou um documento dobrado ao oficial de justiça, que o levou até o juiz.
O juiz Ferreira colocou os óculos, abriu o documento e começou a ler, página por página, com atenção.
O silêncio no tribunal era absoluto. Nem a respiração parecia existir.
Erika observava as sobrancelhas grisalhas do juiz — ora franzidas, ora relaxando lentamente.
Os segundos passavam. Cada segundo parecia um golpe surdo no coração de todos ali.
Por fim, o juiz ergueu a cabeça e retirou os óculos. Seu olhar percorreu lentamente a sala, até parar no banco dos réus.
“O réu, Everton Amaro da Silva, levante-se.”
Everton foi ajudado a ficar de pé. Cambaleou levemente.
Seu rosto estava pálido, os lábios tremendo, os olhos cheios de súplica desesperada voltados para o tio. Raul também se levantou — expressão sombria, postura rígida.
O juiz limpou a garganta. Sua voz era envelhecida, estável, mas carregada de um peso decisivo:
“Este tribunal passa a proferir a sentença. Quanto às acusações contra o réu Everton Amaro da Silva, o júri deliberou da seguinte forma:”
“Acusação 1: invasão de domicílio — culpado.”
“Acusação 2: lesão corporal — culpado.”
Um murmúrio contido percorreu o tribunal. O corpo de Everton vacilou. Raul fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
O juiz continuou, cada palavra caindo como uma pedra pesada:
“Acusação 3: tentativa de estupro de menor —”
Ele fez uma pausa.
Essa pausa foi suficiente para fazer o coração de Erika parar.
Lily abriu os olhos de repente, apertando o braço da mãe com força.
“— culpado.”