Lily finalmente pegou no sono mais pesado na segunda metade da madrugada, e ainda não havia acordado.
A casa estava em silêncio.
Só se ouviam os ruídos leves dos eletrodomésticos e as batidas pesadas do próprio coração de Erika.
Os pensamentos sombrios da noite anterior agora pareciam suor frio depois de uma febre alta.
À luz da manhã, ela sentia um cansaço assustado, como se tivesse escapado por pouco de alguma coisa terrível.
Mas a febre não tinha passado.
Apenas estava escondida, à espreita.
Os olhos cheios de medo de Lily, seu pedido desesperado, o interrogatório gelado de Raul no tribunal, os olhares que a seguiam por toda parte… tudo isso pesava como chumbo sobre seu peito, tornando cada respiração difícil.
A razão dizia que ela precisava confiar no processo legal, suportar a pressão e seguir até o fim pelo caminho certo.
Mas o instinto, o desespero de mãe, berrava por uma saída definitiva, por algo que pudesse acabar imediatamente com o medo da filha.
Essas duas forças se dilaceravam dentro dela, como se quisessem rasgá-la ao meio.
“Trim…”
O toque da campainha quebrou o silêncio da manhã e a fez estremecer.
Tão cedo… quem poderia ser? Maria? Improvável. Dona Fernanda? Ela nunca tocava a campainha. A polícia? Ou…
Uma sensação ruim atravessou seu peito. Erika enxugou as mãos e foi até a porta. Não abriu de imediato. Primeiro olhou pelo olho mágico, alerta.
Havia duas mulheres do lado de fora. Uma delas era de meia-idade, de cabelo curto, feições gentis, mas olhar firme.
Vestia calça social escura e carregava uma pasta. Ao lado dela, uma mulher mais jovem, com mochila nas costas, talvez assistente, talvez estudante.
Nenhuma das duas tinha o ar severo da polícia, nem a curiosidade predatória dos jornalistas.
Pareciam profissionais. E pareciam preparadas.
“A senhora é Erika Perez?” perguntou a mulher mais velha, com voz calma e clara.
Erika hesitou por um instante, então abriu a porta, mas manteve a corrente de segurança. “Sou. Quem são vocês?”
“Senhora Perez, muito prazer. Meu nome é Isabel Santos. Sou coordenadora do Centro de Assistência Jurídica para Mulheres e Crianças de Araraquara.”
Ela mostrou sua identificação, com o emblema da instituição e sua foto.
“Esta é minha colega, Júlia, assistente social em formação. Pedimos desculpas por aparecer tão cedo. Tivemos conhecimento, por alguns canais, da situação da senhora e da sua filha, Liliana, bem como do processo que está em andamento. Nosso centro oferece apoio jurídico, suporte psicológico e orientação de direitos para mulheres e crianças vítimas de violência de gênero e violência doméstica. Gostaríamos de saber se podemos ajudar vocês de alguma forma.”
Centro de assistência a mulheres e crianças?
Erika ficou surpresa. Já tinha ouvido falar da entidade, mas nunca tivera contato com ela.
Como elas tinham descoberto aquele endereço?
E o que significava exatamente “por alguns canais”?
Tribunal?
Rede de assistência social?
Ou… os boatos que sempre se infiltravam por tudo?
Isabel pareceu perceber a desconfiança em seu rosto e sorriu de leve.
“Por favor, não fique tensa, senhora Perez. Não temos vínculo com a polícia nem com o tribunal, e jamais divulgaríamos a privacidade de vocês. Ficamos sabendo do caso por meio de jornalistas independentes e pessoas da comunidade preocupadas com a situação. Entendemos que, durante um processo judicial como esse, você e sua filha podem estar sofrendo forte pressão psicológica e social. Esse tipo de pressão é justamente uma das formas mais comuns de revitimização, e muitas vezes a mais ignorada. Queremos oferecer apoio — seja sobre o andamento jurídico, sobre o impacto emocional, ou até sobre como lidar com o ambiente do bairro e da escola. Tudo gratuitamente. E só se vocês quiserem.”
A voz dela era sincera.
O olhar, aberto.
Não havia pena, nem curiosidade doentia, nem falsa delicadeza.
Apenas um tipo de atenção profissional e humana que Erika já quase havia esquecido que existia.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, oscilando entre a cautela e uma pequena, frágil esperança. Por fim, soltou a corrente da porta e se afastou. “Entrem.”
A sala, já pequena, pareceu ainda mais apertada com as duas visitantes. Isabel e Júlia se sentaram no sofá.
Erika trouxe água para elas. Isabel não começou a falar imediatamente. Primeiro observou aquele lar simples, até modesto demais, e por um instante deixou o olhar repousar sobre a porta fechada do quarto de Lily.
Depois voltou a encarar Erika.
“Antes de tudo, senhora Perez, quero dizer, em nome do nosso centro, que sentimos profundamente pelo que você e Liliana passaram. O que aconteceu com vocês é um pesadelo que nenhuma família deveria viver. E, no caso de uma criança da idade dela, o impacto pode ser devastador. Nessa fase, a mente é como cristal fino. Qualquer violência ou brutalidade deixa rachaduras difíceis de apagar.”
A voz de Isabel era baixa, mas firme.
“Sabemos que o processo, especialmente a audiência, foi extremamente doloroso para ambas. E que a atuação da defesa agravou ainda mais esse sofrimento.”
Erika, sentada na cadeira em frente a elas, mantinha as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.
As pontas dos dedos estavam frias. Ela não contestou. Apenas assentiu de leve, sentindo a garganta apertar.
“Nós trabalhamos com uma advogada de família e de proteção à mulher que tem bastante experiência em casos de violência sexual, especialmente quando há crianças envolvidas.”
Isabel abriu a pasta e tirou um cartão de visita, empurrando-o na direção de Erika.
“Ela pode orientar você sobre estratégia de audiência, uso de prova, formas de responder aos ataques da defesa e até atuar em articulação com a promotoria como apoio técnico ou representante de interesse da vítima. Isso, claro, depende da sua autorização.”
Erika olhou para o cartão. Nele estava escrito:
Carolina Mendes, Advogada
.
Outro sobrenome Mendes. Como a promotora Ana Clara Mendes? Ela notou isso, mas não perguntou.
“Além disso, temos psicólogos especializados em trauma infantil, especialmente em crianças que passaram por processos judiciais.”
Isabel fez um gesto para a jovem ao seu lado.
“A Júlia está fazendo mestrado em psicologia clínica e pode vir regularmente, se vocês quiserem, para acompanhar a Liliana com atividades leves — brincadeiras, desenho, leitura, conversa. Não como terapia formal, que muitas vezes gera tensão, mas como a presença de uma irmã mais velha sensível e preparada, ajudando a criança a expressar o que sente e recuperar a sensação de segurança. Claro, isso só faria sentido se a própria Liliana concordar.”
Júlia sorriu para Erika com gentileza, um pouco tímida.
Aquelas ofertas inesperadas, concretas e genuinamente bondosas tocaram algo dentro de Erika.
Foi como caminhar por muito tempo num túnel gelado e, de repente, ver ao longe uma luz pequena, quente.
Ainda fraca. Mas real.
“Por quê?”
perguntou Erika, levantando os olhos para Isabel.
Era a pergunta mais funda dentro dela.
“Por que me ajudar? Vocês devem ter ouvido falar… do meu passado.”
Isabel sustentou seu olhar sem hesitar.
“Nós estudamos o seu caso anterior, senhora Perez. A justiça já se pronunciou sobre aquele episódio. Para nós, tratou-se da reação desesperada de uma mãe diante de uma ameaça extrema à própria filha.”
“Algo que pode ser compreendido dentro do horror que foi vivido. Mas, mais importante do que isso, o nosso foco é o presente: o que a senhora e a sua filha estão vivendo agora. Uma mãe que, diante de nova ameaça contra a filha, escolheu chamar a polícia, preservar provas e recorrer à lei — isso exige coragem enorme e muito autocontrole.”
“E, em vez de receber apoio e proteção, ela passa a ser atacada com o próprio passado e vê a filha revitimizada por procedimentos frios e estratégias cruéis. Isso, para nós, é uma das formas mais graves de injustiça. E é justamente esse tipo de situação que nossa instituição existe para enfrentar.”
Ela fez uma breve pausa, e seu tom se tornou ainda mais firme.
“Nós não ajudamos você porque a senhora seria uma ‘vítima perfeita’. Vítimas não precisam ser perfeitas. Ajudamos porque a senhora e sua filha estão sofrendo uma injustiça real e precisam de apoio.”
“Toda mulher, toda criança, diante da violência e da desigualdade, tem direito a assistência, acolhimento e defesa. Isso não depende do que ela foi no passado, nem do que os outros dizem dela.”