《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 31

Um esboço vago, impregnado de cheiro de sangue, começou a se formar — como tinta caindo na água — espalhando-se sem controle na mente de Erika, já encharcada de desespero.

Ela sabia onde Everton estava preso.

Sabia o procedimento de visita. Sabia… como fazer alguém “desaparecer” de forma limpa, sem deixar rastros.

As experiências da vida passada — aquelas que ela tentava desesperadamente esquecer, sobre violência, sobre destruição — agora emergiam com uma clareza assustadora, sussurrando como demônios.

Só uma vez.

Apenas mais uma vez.

Por Lily.

Resolver tudo da forma mais definitiva.

Fazer a fonte do medo desaparecer para sempre.

Fazer com que os rumores perdessem seu alvo.

Fazer com que Lily estivesse, de verdade, segura — para sempre.

Esse pensamento era perigosamente sedutor, com uma doçura destrutiva.

Prometia solução imediata.

Prometia paz absoluta.

Prometia apagar o medo dos olhos da filha.

E o preço?

O preço seria cair no inferno novamente.

Seria fazer Lily testemunhar de novo — ou descobrir depois — a loucura da própria mãe.

Seria destruir completamente a relação entre as duas, que mal começava a se recompor.

Seria condenar a si mesma a se tornar, de fato, um monstro — sem defesa, sem redenção.

Não.

Não!

Ela sacudiu a cabeça com força, cravando as unhas na própria palma.

A dor aguda a arrancou, por um instante, daquele redemoinho sombrio. Ela olhou para a filha diante dela — tremendo, chorando — para aquele rostinho pequeno, cheio de medo e súplica.

Ela teve uma segunda chance justamente para afastar Lily do sangue. Para protegê-la com razão e luz.

Como poderia… voltar para aquele abismo?

Mas o caminho da razão e da lei não parecia capaz de dissipar a escuridão dentro de Lily. Nem de garantir a paz que tanto desejavam.

Ele trazia sofrimento prolongado, humilhação pública, fissuras na confiança, olhares maliciosos por toda parte.

Duas estradas. Ambas levando ao desespero.

Uma: destruição sangrenta — e autodestruição.

Outra: uma lenta execução — a morte gradual da mente e da dignidade.

Uma vertigem tomou conta dela. Erika se levantou bruscamente, cambaleou alguns passos para trás e só conseguiu se sustentar ao apoiar-se na parede fria.

“Lily…” sua voz estava quebrada, quase irreconhecível, “a mamãe… a mamãe não vai deixar ele te machucar. Eu juro. Juro pela minha vida.”

Mas aquele juramento, naquele momento, soava vazio. Não afastava os pesadelos de Lily. Não reparava a rachadura entre elas. Não garantia justiça.

Lily olhou para o rosto da mãe — contorcido de dor e confusão — e pareceu perceber o peso das próprias palavras. Encolheu os ombros, baixou a cabeça, soluçando baixinho:

“Desculpa, mamãe… eu… eu só estou com muito medo…”

Erika fechou os olhos. As lágrimas finalmente escorreram. Não por si mesma — mas pela filha. Por aquela criança que deveria correr despreocupada sob o sol, e que agora, esmagada pela violência e pela maldade dos adultos, chegava ao ponto de implorar pela solução mais sombria.

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Esse era o maior fracasso dela como mãe.

Ela voltou até a cama. Desta vez, não hesitou. Estendeu os braços e puxou Lily para si, apertando-a com força — muita força — como se quisesse fundi-la ao próprio corpo, usar sua própria carne e sangue como barreira contra todo o mal do mundo.

“Não tenha medo, meu amor…” ela sussurrou ao ouvido da filha, com toda a força que ainda lhe restava, cada palavra arrancada como um juramento, a voz rouca, mas firme como alguém que não pode mais recuar, “confia na mamãe. Desta vez, eu vou te proteger do jeito certo. Eu não vou errar de novo. Não vou deixar ninguém, nada, te machucar. A lei vai nos dar justiça. E se… se a lei não conseguir…”

Ela parou por um instante. Apertou a filha ainda mais forte — como se buscasse ali a última centelha de força, ou como se naquele instante estivesse tomando uma decisão irrevogável.

“Então a mamãe vai encontrar outro caminho. Um caminho… que não suje as suas mãos, e que não transforme a mamãe num monstro. Mas eu prometo — você não vai viver com medo nunca mais. Confia na mamãe, tá?”

Lily, ainda nos braços dela, foi aos poucos parando de chorar.

Restaram apenas soluços intermitentes. Ela não disse “confio” nem “não confio”. Apenas se aninhou ainda mais no pescoço da mãe, abraçando-a com força.

Aquele abraço era cheio de dependência —e também de um medo incerto.

Erika segurou a filha, e ergueu o olhar para fora da janela, para a noite densa, sem estrelas.

O caminho da razão e da lei parecia ter chegado à beira de um abismo — abaixo, apenas névoa de dúvida e espinhos de malícia.

A tentação da escuridão sussurrava no fundo do precipício, exalando um perfume doce de destruição.

E Lily, tremendo em seus braços, implorava por segurança absoluta.

Como mãe, ela precisava escolher.

Uma escolha sem resposta perfeita —mas que determinaria o caminho das duas.

O céu começava a clarear.

E depois do amanhecer…

o que a aguardava já não seria apenas uma batalha jurídica.

Mas uma guerra muito mais difícil —

contra os próprios demônios,e contra um mundo repleto de preconceitos.

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