O canto suave de Erika cessou de repente.
O quarto mergulhou num silêncio absoluto.
Apenas o som distante de carros vindo da rua… e a respiração leve de Lily.
Erika sentiu o sangue em seu corpo congelar naquele instante.
Ficou imóvel, rígida, sem coragem sequer de olhar para o rosto da filha.
Lily estava perguntando sobre a outra vida.
Sobre aquela tarde manchada de sangue.
Sobre o momento em que viu a própria mãe se transformar em algo que não compreendia.
As palavras cruéis do advogado no tribunal…
As acusações sobre seu “passado violento”…
As tentativas de transformá-la em uma mulher vingativa e instável…
Lily tinha ouvido tudo.
Mesmo sem entender completamente, aquelas palavras haviam se infiltrado como veneno na mente já ferida da criança, misturando-se com a memória daquele dia sangrento… criando uma ressonância aterradora.
Ela estava com medo.
Não apenas de Everton…
Mas também… da própria mãe.
Essa percepção atingiu Erika com uma dor mais profunda do que qualquer golpe físico.
Mais cruel do que qualquer humilhação no tribunal.
Ela havia feito tudo — até pagar o preço de uma segunda vida — para apagar aquela imagem de “mãe violenta”.
Para reconstruir, com razão e justiça, a confiança da filha.
E, no fim…
Seu passado, irrefutável, fora usado como arma.
Destruindo tudo o que ela havia tentado construir.
Cravando uma fissura entre ela e Lily.
“Lily…”
A voz de Erika saiu seca, quase inaudível, como se sua garganta estivesse cheia de areia.
Mas Lily não respondeu.
Parecia ter esgotado toda a energia.
Após fazer aquela pergunta, caiu num sono pesado — ou talvez num estado de fuga.
Mesmo dormindo, suas sobrancelhas estavam levemente franzidas.
Suas mãos pequenas agarravam, inconscientemente, a roupa da mãe… como se tentassem se segurar… ou resistir.
Erika permaneceu imóvel, abraçando-a.
Seus olhos abertos fitavam o teto, onde sombras indistintas tremulavam.
Na escuridão, cenas se sobrepunham:
Sangue.
Fogo.
O rosto distorcido de Everton.
Os olhos frios do advogado no tribunal.
Lily chorando no banco das testemunhas.
E agora… o rosto inquieto da filha dormindo.
Uma onda imensa de desespero frio… misturada a uma fúria sufocante… explodia dentro dela, sem encontrar saída.
Ela acreditava que, escolhendo o caminho certo…
chegaria à luz.
Mas por que esse caminho também estava cheio de espinhos?
E o mais doloroso…
não vinha do inimigo.
Mas daquele olhar silencioso…daquela pergunta cheia de medo…vinda da pessoa que ela mais queria proteger.
A noite ainda era longa.
E o que o amanhecer traria…?
Maria ligou, a voz cheia de preocupação:
“Erika, eu soube do julgamento! Como aquele advogado teve coragem de fazer aquilo com a Lily?! Vocês estão bem? Quer que eu vá até aí?”
Erika recusou.
Ela não queria que a irmã visse o estado delas.
Nem queria arrastá-la para aquele caos.
“Estamos bem, Maria. Se eu precisar, eu te aviso.”
Depois de desligar, Erika ficou olhando o céu pesado pela janela.
Uma sensação de isolamento absoluto tomou conta dela.
Na vida passada, pelo menos havia aquele silêncio distorcido depois da violência — uma espécie de anestesia.
Agora… ela havia escolhido o caminho “certo”.
E, mesmo assim, estava presa numa rede maior — invisível — feita de sistema, preconceito e julgamento humano.
A lei era lenta e fria.
As pessoas, imprevisíveis.
Os rumores, cortavam sem deixar marcas visíveis.
E o mais precioso — a relação com sua filha — começava a rachar.
Ela começou a duvidar.
Sua escolha… estava realmente certa?
Será que razão e lei eram suficientes para protegê-las?
Ou, neste mundo…
uma mãe com um passado manchado jamais poderia conquistar paz e dignidade?
A promotora Mendes também ligou.
Informou que, devido ao estado emocional de Lily, o juiz havia suspendido indefinidamente o contra-interrogatório da menina.
A acusação seguiria com base nos depoimentos já registrados e nas provas de áudio e vídeo.
Mas a defesa… havia apresentado uma nova petição.
Questionando a credibilidade de Erika.
E pedindo novamente acesso completo ao caso de cinco anos atrás — incluindo laudos psicológicos.
“Eles estão atacando você sem parar, senhora Perez.”
A voz da promotora soava cansada, mas firme.
“Precisamos resistir. A decisão final ainda depende das provas — e você tem provas fortes. Eu vou enfatizar isso no encerramento. Mas… você precisa estar preparada.
O seu passado pode influenciar o júri de maneiras que não conseguimos controlar.”
Influências fora de controle.
Erika repetiu essas palavras mentalmente, sentindo um gosto amargo na boca.
Ela caminhou até a porta do quarto de Lily.
A porta estava entreaberta.
Lily estava sentada no chão, de costas, olhando fixamente para o quebra-cabeça do céu estrelado, quase completo.
Tão pequena.
Tão sozinha.
Erika não entrou.
Ficou ali, apenas observando.
Na vida passada, ela usou sangue e fogo para abrir um caminho para a filha —
mas deixou cicatrizes que nunca se fecharam.
Nesta vida, tentou construir um caminho com razão e lei —
mas encontrou armadilhas… e feriu a filha de outra forma.
Se ambos os caminhos levavam à dor…
Então… o que uma mãe deveria fazer?
Um pensamento frio, sombrio —
como um sussurro vindo do fundo de um abismo — surgiu lentamente em sua mente:
E se… a justiça não vier?
E se as mentiras… os preconceitos…
contaminarem o mundo de Lily?
E se roubarem delas a última chance de paz?
Será que… ainda existia outra escolha?
Esse pensamento a fez estremecer.
Ela balançou a cabeça com força, tentando expulsá-lo.
Não.
Ela havia jurado.
Nunca mais violência.
Nunca mais se tornar um monstro.
Mas… olhando para as costas solitárias da filha…
sentindo o peso daquele mundo frio ao redor…
esse juramento… começava a vacilar.