“Está tudo bem, meu amor, está tudo bem…”
Erika repetia uma e outra vez, a voz embargada, mas o abraço firme, estável, inabalável.
“Mamãe está aqui. Mamãe está te segurando. Ninguém nunca mais vai te machucar. Não tenha medo… não tenha medo…”
Ela levantou o olhar para Sofia e para a psicóloga. Nos seus olhos havia cansaço — mas, mais profundo, uma ferocidade protetora quase selvagem.
“Como ela está?”
A psicóloga suspirou suavemente:
“Choque intenso, reação aguda de estresse pós-traumático. A confiança dela na própria memória foi abalada — isso é extremamente doloroso para uma criança e aumenta a sensação de insegurança. Ela precisa sair imediatamente desse ambiente, receber acolhimento contínuo e estável, de preferência voltar para um lugar onde se sinta segura. A curto prazo, evitem qualquer tipo de questionamento ou pressão.”
Erika assentiu.
Ela acariciou suavemente a parte de trás da cabeça da filha e murmurou ao seu ouvido:
“Vamos para casa, meu amor. Vamos embora daqui agora.”
Com a ajuda de Sofia, Erika envolveu Lily com o casaco e a ergueu nos braços — ela já tinha onze anos, não era leve, mas a força que surgiu naquele momento sustentou a menina com firmeza.
Lily se encolheu como um bebê no colo da mãe, o rosto escondido no pescoço dela, os braços apertando seu pescoço com força, sem querer soltar.
Elas saíram pelos fundos do tribunal, evitando os repórteres que ainda aguardavam na entrada principal.
Sofia as levou de carro até a casa na comunidade “Bosque Verde”.
Durante todo o trajeto, Lily permaneceu em silêncio, apenas grudada em Erika, o corpo às vezes dando pequenos sobressaltos involuntários.
Ao chegarem, Dona Fernanda abriu a porta, preocupada.
Ao ver Lily pálida, com o olhar vazio nos braços de Erika, não fez perguntas. Apenas assentiu em silêncio e voltou para sua casa, fechando a porta com cuidado, devolvendo o silêncio àquele lar ferido.
Erika levou Lily para o quarto, deitou-a na cama com o lençol verde-claro de dentes-de-leão.
Tentou tirar o vestido e os sapatos, mas Lily segurou a roupa com força, os olhos cheios de medo — como se tirar aquilo fosse perder a última proteção.
“Tudo bem, não vamos tirar. Você pode ficar assim.”
Erika cedeu imediatamente, puxando o cobertor sobre ela e sentando-se ao lado, segurando sua mão gelada.
“Mamãe…”
A voz de Lily era fraca, quase se desfazendo.
“Aquele advogado… ele acha que… eu estou mentindo?”
A pergunta foi como uma agulha gelada cravada no coração de Erika.
Ela viu, nos olhos da filha, a pureza ferida… e a dúvida cruel nascendo. A raiva e a dor quase a engoliram — mas ela sabia que não podia deixar isso transparecer.
“Não, meu amor. Você não está mentindo.”
Erika olhou diretamente nos olhos dela, falando com clareza e firmeza.
“Você contou o que lembrava, o que sentiu. Você lembrou do medo, das batidas na porta, das palavras estranhas — tudo isso é verdade. Aquele advogado… o trabalho dele é fazer o homem mau parecer menos mau. Por isso ele fez aquelas perguntas confusas. Não é culpa sua. Não é porque você errou. É porque ele tentou te confundir.”
“Mas… eu não lembro exatamente o que ele disse… e não tenho certeza se ele realmente tentou entrar pela janela…”
As lágrimas voltaram a cair.
“Eu sou… inútil? Eu não ajudei a mamãe? Será que o homem mau vai escapar por minha causa?”
“Não! Lily, olha pra mamãe.”
Erika segurou o rosto da filha com delicadeza, obrigando-a a encará-la.
“Você ajudou mais do que qualquer pessoa. Você trancou a porta, fechou a janela, pediu socorro. E ainda teve coragem de ir ao tribunal contar o que aconteceu. Isso exige uma coragem enorme. Você foi cem vezes, mil vezes mais corajosa do que a mamãe imaginava.”
Ela continuou, suavizando a voz:
“E não lembrar de tudo… é normal. Você estava com muito medo. Quando a gente tem medo, a cabeça fica confusa, como um emaranhado. Mas o sentimento… aquele medo de que ele ia te machucar… isso era real, não era?”
Lily hesitou, olhando nos olhos firmes e gentis da mãe… e assentiu.
Aquela sensação — fria, pegajosa, como se estivesse sendo observada por algo perigoso — ela nunca esqueceria.
“Isso é o mais importante.”
Erika enxugou as lágrimas dela.
“O que você sentiu não mente. Se você sentiu que ele queria te machucar, então era verdade. E nós temos gravações, vídeos, e tudo que os policiais viram. Ele não vai escapar. Confia na mamãe, está bem?”
Lily ficou olhando para ela por alguns segundos, absorvendo aquelas palavras, buscando força nelas.
Então, lentamente, muito lentamente, soltou a roupa que estava agarrando. Seu corpo relaxou um pouco.
“Mamãe… eu quero colocar pijama. Esse vestido… não está confortável.”
O coração de Erika afrouxou um pouco com aquele pequeno gesto — um sinal de que Lily estava começando a recuperar um mínimo de segurança.
Ela ajudou a filha a trocar de roupa, limpou seu rosto e mãos com uma toalha quente.
Lily cooperou em silêncio, depois se enfiou debaixo do cobertor e, dessa vez, aproximou-se por vontade própria da mãe.
Erika deitou-se de lado, abraçando-a suavemente, como fazia quando ela era pequena, e começou a cantar baixinho a velha canção de ninar.
Lily encostou o rosto no peito da mãe, ouvindo o ritmo firme do coração.
Sua respiração foi se acalmando, o corpo relaxando aos poucos.
As lágrimas ainda marcavam seus cílios, mas seus olhos foram se fechando lentamente.
Mas, quando Erika achou que ela já estava adormecendo, Lily murmurou, quase como num sonho:
“Mamãe… você… antes… também ficava assim… com muita raiva… como hoje no tribunal… não é?”