Sofia se adiantou imediatamente, tentando acalmar Lily, mas a menina já chorava tanto que mal conseguia respirar. No público, houve um burburinho; alguns lançaram olhares furiosos para Raul, enquanto outros demonstravam dúvida e reflexão.
“Excelência, considero que o estado emocional da testemunha não permite a continuidade do interrogatório. As perguntas da defesa são altamente sugestivas e opressivas, causando uma segunda vitimização a uma menor!” a promotora Mendes acusou, visivelmente indignada.
O juiz Ferreira olhou para Lily, que chorava de forma desesperada, depois para Raul, impassível, e bateu o martelo.
“Suspensão da sessão! A testemunha precisa de descanso e apoio psicológico. O contra-interrogatório está interrompido e será retomado em momento oportuno. Oficiais, levem a criança à sala de descanso e acionem o psicólogo do tribunal.”
Lily foi conduzida por Sofia e outra agente, praticamente carregada. Ela continuava chorando, o corpo pequeno sacudido por soluços, os olhos desesperados percorrendo a sala como se buscassem Erika.
No instante em que Lily desabou em lágrimas, Erika já estava de pé. Seu corpo inclinado para frente, as mãos agarrando com força a grade à sua frente, os nós dos dedos brancos, as unhas deixando marcas profundas na madeira.
Ela viu a filha encurralada por perguntas cruéis, viu aquela mente frágil tremer e se despedaçar sob o peso de um interrogatório calculado, como uma criatura arrancada de sua proteção, exposta ao frio, à lâmina invisível das palavras.
Ela queria correr até ela.
Queria abraçá-la.
Queria protegê-la com o próprio corpo, bloquear todos aqueles olhares e perguntas venenosas.
Queria, como na vida passada, usar a forma mais direta e violenta de silenciar aquele homem.
Mas não podia.
Ela estava presa ali — pelas regras do tribunal, pelo olhar dos agentes, pela escolha que havia feito: o caminho da razão e da lei.
Só podia assistir, impotente, enquanto seu coração era dilacerado. Uma sensação mais profunda e cruel que qualquer violência física — um misto de impotência e fúria — quase a despedaçava.
Raul voltou calmamente ao seu lugar. Antes de se sentar, ainda ajeitou a manga do paletó, com total controle.
No canto dos lábios, surgiu novamente aquele sorriso contido, frio.
Ele havia conseguido.
Não apenas abalara a credibilidade de Erika, essa “vítima imperfeita”, como também fizera surgir fissuras no depoimento da testemunha-chave — a pequena Liliana — insinuando que sua memória poderia ter sido “contaminada”.
Na mente do júri, a verdade já não era mais clara. Uma névoa de dúvida havia se formado.
E criar essa névoa… era exatamente o objetivo dele.
Com o toque de suspensão, o público começou a se levantar, murmurando.
Erika permaneceu imóvel, olhando fixamente para a porta por onde Lily havia desaparecido.
Seu mundo se reduzia ao eco do choro desesperado da filha… e a uma escuridão fria e infinita.
No campo de batalha da razão, não há sangue visível.
Mas os corpos também se acumulam.
E o que mais a destruía…
era saber que, desta vez, quem estava sendo ferida… era a inocência e a confiança de sua própria filha.
Na sala de descanso, a luz era fraca. O ar tinha o cheiro pesado de desinfetante misturado a móveis antigos.
Lily estava encolhida no canto de um sofá gasto, o corpo pequeno tremendo como uma folha sob tempestade.
Sofia sentava ao seu lado, acariciando suas costas com suavidade, enquanto enxugava, uma e outra vez, as lágrimas que pareciam não ter fim.
A psicóloga do tribunal — uma mulher de meia-idade de expressão gentil — também estava ali, falando com voz calma, tentando confortá-la. Mas Lily parecia não ouvir nada.
Seus olhos inchados estavam fixos em uma mancha na parede.
O choro havia se tornado rouco, fragmentado — apenas soluços quebrados escapavam de sua garganta.
As perguntas no tribunal, o olhar frio do advogado, a confusão de não conseguir responder… tudo girava em sua mente como fragmentos cortantes.
“Ele ia entrar pela janela… ele bateu na porta… a voz dele era nojenta… eu tive medo…”
Ela repetia essas frases, como se fossem âncoras de memória. Mas cada palavra trazia mais tremor, mais lágrimas.
“Será que ele… ele realmente queria…”
O pensamento não se completava. Virava um medo maior, sufocando seu peito.
“Não, Lily, não.” Sofia a abraçou com mais firmeza.
“Ele não conseguiu fazer nada. A porta estava trancada, a janela fechada. Você estava segura. Você se protegeu. Você foi muito corajosa.”
Mas “nada aconteceu” não trazia alívio.
Pelo contrário — gerava uma dor ainda mais confusa.
Se nada aconteceu…
por que o medo era tão grande?
Por que aquelas palavras, aqueles sons, aquelas batidas, queimavam na memória como ferro em brasa?
Por que aquele advogado fazia perguntas que a faziam sentir que estava errada… como se fosse uma menina mentirosa?
“Mamãe…”
Lily enterrou o rosto no ombro de Sofia, chorando com uma necessidade desesperada.
“Eu quero a mamãe… por que ela não vem…”
Passos apressados do lado de fora.
A porta se abriu de repente.
Erika entrou.
Seu rosto estava tão pálido quanto o da filha, os olhos vermelhos, mas ao vê-la, ela conteve qualquer sinal de colapso e correu até o sofá.
“Lily!”
Sua voz saiu rouca, carregada de dor.
Ao ouvir a mãe, Lily levantou a cabeça como alguém que encontra salvação.
Ela se soltou de Sofia e se lançou nos braços de Erika, agarrando-se com desespero.
“Mamãe… mamãe…”
Ela só conseguia repetir isso, chorando, molhando a roupa da mãe.
Erika caiu de joelhos, abraçando-a com força.
Sentiu o corpo pequeno, frio, tremendo — como uma chama prestes a apagar.
Seu coração se torceu violentamente.
O cheiro do cabelo da filha — doce, de shampoo infantil — misturado com lágrimas e suor de medo… trouxe memórias da vida passada.
Aquela distância no olhar da filha.
Aquela dor silenciosa que a destruía.
Não.
Desta vez…
isso não podia acontecer de novo.