Enfrentar a violência com racionalidade… era muito mais difícil do que parecia.
A violência era direta, brutal, quase instintiva.
Mas o campo da razão estava cheio de armadilhas muito mais sutis e traiçoeiras — lâminas feitas de lógica, veneno escondido nas palavras, e preconceitos profundamente enraizados no coração humano, capazes de ferir sem deixar marcas visíveis.
“Excelência, não tenho mais perguntas.”
O advogado Raul fez um leve gesto respeitoso ao juiz e voltou ao seu lugar, como se aquele ataque feroz de instantes atrás jamais tivesse existido.
O juiz Ferreira anunciou um intervalo de dez minutos, para que a testemunha pudesse se recompor.
Erika permaneceu rígida na cadeira, sentindo que todos os olhares ainda estavam grudados em suas costas — avaliando, curiosos, piedosos… ou até repulsivos.
Ela não ousava se virar. Não ousava sequer pensar em olhar para a plateia — Lily estava sendo acompanhada por Dona Fernanda em outra sala, justamente para não presenciar aquilo.
A promotora Mendes se aproximou, entregou-lhe um lenço de papel e falou em voz baixa, firme:
“Respire fundo, senhora Pérez. Ainda não acabou. Agora é a vez da sua filha depor.
Você precisa se manter firme. Por ela, você precisa parecer calma e forte. Não se esqueça — nós temos provas. E o júri não é cego.”
Erika pegou o lenço, apertando-o com força, sem usá-lo.
Ergueu o olhar para a promotora.
Nos seus olhos — antes marcados pelo cansaço e desespero — agora ardia algo frio, quase feroz.
Não era descontrole. Era decisão. Uma determinação arrancada do fundo do instinto, de alguém encurralado, sem mais para onde recuar.
“Eu entendo, promotora.”
Sua voz saiu rouca, mas firme.
“Pela Lily… eu suporto qualquer coisa. Inclusive isso.”
Dez minutos depois, a audiência foi retomada.
A próxima a depor: Liliana Pérez.
A porta do tribunal se abriu novamente.
E desta vez, não entrou um advogado nem um oficial de justiça — mas uma figura pequena, vestida com um vestido azul-claro, o cabelo preso em duas tranças bem arrumadas.
A policial Sofia caminhava ao seu lado, segurando sua mão, conduzindo-a com passos lentos e seguros.
Todos os olhares se voltaram imediatamente para aquela menina de apenas onze anos.
Lily mantinha a cabeça baixa, agarrando com força a mão de Sofia.
Cada passo era cuidadoso, como se o chão não fosse mármore liso, mas gelo fino prestes a quebrar.
Seu rosto estava mais pálido que o normal, os lábios pressionados em uma linha tensa.
Ela sentia os olhares — curiosos, piedosos, julgadores… talvez até maliciosos — como agulhas cravando sua pele.
Não ousava levantar a cabeça.
Limitava-se a encarar a ponta de seus sapatinhos pretos, polidos.
Sofia a conduziu até o banco das testemunhas.
Como era baixa, colocaram uma almofada grossa sobre a cadeira.
Com ajuda, Lily subiu com certa dificuldade e sentou-se, o corpo pequeno ainda mais frágil naquele assento grande demais.
Sofia sussurrou algo em seu ouvido, tocou seu ombro, e recuou, mantendo-se próxima, em postura protetora.
“Liliana Pérez, você jura dizer apenas a verdade, toda a verdade?”
A voz do juiz Ferreira, embora ainda firme, suavizou-se levemente diante da criança.
Lily levantou a mão direita, imitando o que já vira na televisão.
Sua voz saiu quase inaudível, trêmula, repetindo o juramento de forma hesitante.
O juiz pediu que repetisse — e ela o fez, um pouco mais audível.
O depoimento começou.
A promotora Mendes aproximou-se, mas não demais.
Agachou-se, ficando na altura dos olhos da menina, com um sorriso gentil.
“Olá, Liliana. Eu sou a tia Mendes. Você se lembra de mim?”
Lily assentiu, em voz baixa:
“Sim…”
“Não precisa ter medo, está bem? Só queremos entender o que aconteceu naquele dia. Diga apenas o que você lembra. Se não lembrar, diga que não lembra. Tudo bem?”
“Tudo bem…”
A voz ainda era tensa, mas um pouco mais firme.
“Naquele dia, antes de sair, o que sua mãe disse a você?”
“Ela disse… que ia ao cinema com o tio Everton… que eu devia ficar em casa fazendo lição… e não abrir a porta pra ninguém…”
“E depois?”
“Depois… ele mandou mensagem dizendo que estava chegando… que tinha uma surpresa…”
Lily encolheu levemente o corpo.
“Eu fiquei com medo… porque às vezes… o jeito que ele olhava pra mim… me deixava desconfortável… então eu mandei mensagem pra mamãe…”
“E o que você fez?”
“Eu tranquei a porta do quarto… e… coloquei uma cadeira atrás…”
“Depois, o que você ouviu?”
A respiração de Lily acelerou.
“Eu ouvi a chave na porta… bem baixinho… mas eu sabia que era ele… depois ele entrou… começou a falar… me chamando… dizendo que trouxe presente… chocolate… que queria brincar comigo…”
Seu rosto se contraiu.
“A voz dele… era estranha… nojenta…”
“Ele tentou abrir a porta? Ou a janela?”
“Ele tentou abrir a porta… não conseguiu… então começou a bater… ‘bum! bum!’… muito forte… a porta tremia…”
A voz saiu mais rápida, carregada de tensão.
“Eu fiquei com mais medo… empurrei uma caixa também pra bloquear… depois fechei a janela… tranquei… coloquei minha mochila na frente…”
“E depois?”
“Depois eu ouvi a mamãe… discutindo com ele… barulho de briga… a mamãe gritando… um apito muito alto…”
Ela engoliu seco.
“Eu fiquei com muito medo… então fui até a janela e gritei ‘socorro’…”
A sala estava em silêncio absoluto.
“E depois?”
“Depois… ouvi um barulho muito forte… a porta… acho que quebrou… e um policial gritou…”
A voz foi diminuindo.
“Depois a tia Sofia entrou… e um médico também…”
A promotora fez a pergunta crucial:
“Em algum momento, ele tocou em você? Pela porta, pela janela… de qualquer forma?”
Lily balançou a cabeça com força, decidida.
“Não! Ele nunca entrou! A porta ficou trancada! A janela também! Ele não me tocou! Mas… mas o jeito que ele falava… e como batia na porta…”
Sua voz falhou.
“…eu achei… que ele ia entrar…”
As últimas palavras saíram quebradas.
As lágrimas finalmente caíram, uma após a outra, grandes e silenciosas.