“A acusação apresentou gravações de áudio e vídeo — sim, imagens e sons perturbadores. Mas vamos analisar em que circunstâncias essas ‘provas’ foram produzidas? Foi a senhora Pérez — ex-companheira do meu cliente por anos, uma mulher ressentida após um término recente e conflituoso — quem se escondeu deliberadamente e gravou tudo às escondidas.”
“Ela cancelou o encontro com o senhor da Silva, mas permaneceu em casa. Ouviu sua chegada, mas não interveio; preferiu se ocultar e gravar. E então, quando considerou que ‘o momento era oportuno’, surgiu de repente, provocou o meu cliente com palavras agressivas, desencadeando o conflito.”
“E, no meio desse conflito, ‘convenientemente’, registrou apenas o que lhe favorecia.”
Raul virou-se e apontou para Erika.
“A senhora Pérez afirma que agiu para proteger a filha. No entanto, vemos que, durante vários minutos, enquanto o senhor da Silva apenas falava do lado de fora da porta, chegando até a tentar se comunicar de forma aparentemente cordial com Liliana, onde estava essa mãe ‘protetora’? Escondida. Gravando. Por que não saiu para intervir imediatamente? Por que não chamou a polícia de imediato? Por que só depois que o conflito se intensificou e ela própria entrou em cena é que surgiram essas gravações?”
O tom dele ganhou uma nuance insinuante.
“Uma mãe realmente preocupada com a segurança da filha, ao perceber a invasão do ex-companheiro, reagiria assim? Ou isso se assemelha mais a uma armadilha cuidadosamente montada? Usar a própria criança como isca, provocar meu cliente até que ele perdesse o controle, e então registrar sua reação para construir uma ‘justificativa legítima’ para um ato de vingança?”
Um burburinho percorreu a plateia.
Alguns olhares começaram a oscilar entre Erika e Everton, agora tingidos de dúvida.
“E mais,” a voz de Raul subiu de repente, carregada de dramatização,
“essa mulher que hoje se apresenta como vítima frágil e mãe protetora… é realmente quem diz ser? Senhores jurados, vocês sabiam que a senhora Erika Pérez, sentada aqui diante de vocês, há cinco anos matou outro ex-companheiro com extrema violência, chegando a mutilar o corpo?”
“Ainda que tenha sido absolvida por legítima defesa, o nível de brutalidade ultrapassou o que qualquer pessoa comum poderia imaginar! Alguém com um histórico tão extremo pode ter sua palavra aceita sem questionamento?”
“Protesto!”
A promotora Mendes levantou-se imediatamente, firme.
“Excelência, a defesa está atacando o caráter da testemunha com fatos irrelevantes ao caso, tentando induzir o júri ao erro com eventos já julgados e encerrados!”
O juiz Ferreira ergueu o olhar.
Observou Raul, depois a promotora.
“Protesto aceito. Doutor da Silva, limite-se ao escopo do caso. Eventos passados já julgados não podem ser usados diretamente para provar a conduta atual. Pergunte apenas o que for pertinente, sem difamações.”
“Sim, Excelência.”
Raul inclinou levemente a cabeça.
Mas um sorriso quase imperceptível cruzou seus lábios.
Ele já havia conseguido o que queria: plantar no júri a dúvida sobre a credibilidade de Erika, trocar discretamente o motivo de ‘proteção’ por ‘vingança’, e regar essa dúvida com o veneno do passado.
Iniciou-se a fase de inquirição. Primeiro, a promotoria conduziu o interrogatório de Erika.
As perguntas de Mendes foram diretas, claras, voltadas a reforçar a coerência do relato, a motivação legítima de proteção e a escolha racional de acionar a polícia e preservar provas.
Erika respondeu de forma concisa e precisa, como havia sido orientada.
Mas quando Raul se levantou para o contra-interrogatório, a tensão na sala mudou instantaneamente.
“Senhora Pérez,” disse ele, parando a poucos passos do banco das testemunhas, mãos atrás das costas, olhar afiado por cima dos óculos, “a senhora afirma que cancelou o encontro com o meu cliente por estar indisposta, correto?”
“Sim.”
“Que tipo de indisposição? Procurou atendimento médico? Tomou algum medicamento?”
“Não. Apenas me senti tonta, cansada. Quis ficar em casa.”
“Tonta, cansada…”
Raul repetiu, com um leve tom de ironia.
“Então decidiu ficar em casa ‘descansando’. E sua filha também estava lá, certo?”
“Sim.”
“A senhora sabia que o senhor da Silva poderia ir até sua casa naquele dia?”
“Não. Mas ele vinha insistindo em contato, então eu pedi à minha filha que não abrisse a porta para ninguém.”
“Ou seja, havia uma expectativa. A senhora previu que ele poderia aparecer e, por isso, alertou a criança.” Raul se apoiou nesse ponto.
“Diante disso, por que não tomou medidas mais eficazes? Como ligar para ele e proibir a visita? Ou sair de casa com sua filha? Por que, ao contrário, permaneceu ali… e se escondeu?”
Erika sentiu as mãos suarem.
“Eu… não pensei tanto. Só queria descansar. Achei que bastava trancar a porta.”
“Não pensou tanto.”
Raul assentiu, como se aceitasse.
Então mudou o tom:
“Mas pensou em se esconder. Pensou em gravar. Pensou em usar o celular para registrar tudo. Mesmo estando ‘tonta e cansada’, sua mente estava bastante organizada, não acha? Preparou o aparelho, iniciou a gravação…”
“Foi instintivo. Quando ouvi a chave na porta, percebi o perigo.”
“Instintivo?” Raul inclinou a cabeça, fingindo perplexidade.
“Uma mãe que percebe uma invasão e uma ameaça à filha não deveria, por instinto, correr para protegê-la? Ou ao menos gritar, confrontar o invasor? Por que seu ‘instinto’ foi se esconder… e observar, como um caçador aguardando o momento certo? Isso não parece o comportamento de uma mãe em pânico. Parece o comportamento de alguém que observa… e registra. De alguém que age com intenção.”
“Protesto!”
Mendes levantou-se novamente.
“A defesa está induzindo a testemunha e substituindo fatos por especulações!”