O sangue da vida passada não foi realmente lavado. Ele se infiltrou nas fibras do tempo e, em cada lugar onde ela acreditava poder recomeçar, ressurgia silenciosamente em manchas escuras, tornando-se arma nas mãos dos outros e rótulo nos olhos alheios.
Ela trocou a violência pela razão e pela lei, mas descobriu que ainda precisava entrar em um campo de batalha chamado “julgamento”. Só que, desta vez, as armas eram palavras, lógica, preconceitos enraizados no coração humano — e a exigência cruel de que uma vítima fosse perfeita.
Ela conseguia enfrentar os punhos de Everton. Conseguia enfrentar a sensação de sufocamento.
Mas diante desse tipo de ataque — sistemático, frio, usando seu passado para negar sua legitimidade presente, distorcendo sua tentativa de proteger a filha — ela sentia um cansaço mais profundo e… um frio que vinha de dentro.
“Mamãe?”
A porta do quarto se abriu um pouco, e o rostinho de Liliana apareceu, inquieto. “Aquelas pessoas já foram? Quem eram?”
Erika rapidamente escondeu o peso no rosto e forçou um sorriso, estendendo a mão. “Já foram. São promotores, vieram ajudar a fazer com que aquele homem seja punido. Vem cá, deixa a mamãe te abraçar.”
Liliana caminhou até ela e se aninhou em seus braços. Erika a apertou com força, enterrando o rosto nos cabelos com cheiro de morango.
“Liliana,” disse baixinho, a voz abafada, “se… se algum dia alguém te perguntar sobre coisas do passado da mamãe, ou sobre aquele dia… fizer perguntas estranhas que te deixem desconfortável… não tenha medo. Você só precisa contar o que realmente lembra, o que realmente aconteceu. Se não lembrar, diga que não lembra. Se não souber, diga que não sabe. Entendeu?”
Liliana assentiu, ainda encostada nela, e perguntou em voz baixa: “Mamãe… o homem mau vai ser preso? Por muito tempo?”
“Vai, meu amor.” Erika a apertou mais forte, o olhar perdido além do ombro da filha, na luz dourada do entardecer que tingia o céu tranquilo do bairro. “A mamãe vai garantir que ele nunca mais machuque ninguém.”
Para cumprir essa promessa, ela sabia: não importava quantos espinhos houvesse pelo caminho, nem o quanto as sombras do passado tentassem prendê-la — ela teria que seguir em frente.
Com a arma que escolhera desta vez: razão e lei.
Tribunal Criminal nº 3 de Araraquara.
A galeria estava novamente cheia. Jornalistas, estudantes de direito, representantes de organizações de defesa das mulheres, e também curiosos atraídos pelo sensacionalismo. No ar, misturava-se o cheiro de madeira antiga, perfume barato, suor e uma excitação contida. Do lado de fora, flashes estouravam. Cada vez que a porta se abria, uma onda de cliques invadia o ambiente.
Erika estava sentada no banco das testemunhas, ao lado da promotoria. Vestia um conjunto azul-marinho que Maria havia enviado — corte simples, cor sóbria. Os cabelos presos com precisão, o rosto pálido, as mãos apoiadas sobre o colo, unhas limpas, sem esmalte. Ela fazia o possível para parecer calma, contida, confiável.
Mesmo que o coração batesse como um tambor descontrolado. Mesmo que a garganta estivesse seca, e cada deglutição doía.
Na bancada do juiz, o juiz Ferreira — cabelos grisalhos, expressão austera — folheava os autos com atenção, trocando palavras baixas com os assessores. Sua presença impunha uma autoridade pesada e inquestionável.
No banco dos réus, Everton Amaral da Silva vestia um terno escuro mal ajustado. O cabelo penteado à força, tentando esconder as falhas. O rosto abatido, olheiras fundas — mas ainda havia algo nos olhos: rebeldia, rancor. De vez em quando, lançava olhares de lado para Erika.
Ao seu lado, o advogado Raul da Silva — impecável em seu terno antiquado — observava tudo com frieza, os olhos atrás dos óculos como os de um abutre avaliando fraquezas.
Na promotoria, Ana Clara Mendes e seu assistente mantinham-se firmes, cercados por pilhas de documentos e provas. Ela prendera o cabelo em um coque rígido, ainda mais incisiva. Lançou a Erika um breve olhar — firme, seguro — e assentiu.
A audiência começou com a exposição da promotoria.
Mendes levantou-se e caminhou até o júri. Sua voz era clara, controlada, penetrante. Reconstituiu os fatos daquele dia, organizou a cadeia de provas, demonstrou a intenção criminosa de Everton com precisão cirúrgica. Não dramatizou — apenas apresentou. E isso bastava.
Chave copiada ilegalmente.
Palavras carregadas de conotação sexual dirigidas a uma menina de onze anos.
Tentativa de arrombamento.
Tentativa de invasão pela janela.
Violência contra a mãe.
Então vieram as provas principais.
Os trechos de áudio e vídeo, tratados tecnicamente, foram exibidos. O som ecoou nítido na sala: a voz viscosa de Everton, suas ameaças, sua respiração pesada ao atacar Erika. As imagens, mesmo instáveis, mostravam o suficiente — o avanço, o ataque, a tentativa.
Na plateia, um murmúrio contido. Algumas juradas demonstraram repulsa sem esconder. Everton se mexeu na cadeira, desconfortável. Raul, impassível, anotava.
Chegou a vez da defesa.
Raul levantou-se, ajustou os óculos e caminhou até o júri. Não olhou para as provas. Nem para Erika.
Começou com um tom quase lamentoso.
“Senhoras e senhores, hoje parece que estamos diante de um crime monstruoso. Mas a verdade… raramente é simples. Meu cliente, o senhor Everton da Silva, pode não ser perfeito. Tem falhas, tem defeitos. Mas não é o monstro que a acusação descreve. Este caso… não é um crime. É o resultado de um conflito emocional que saiu do controle — e foi transformado em acusação e vingança.”
Ele fez uma pausa.
As palavras “acusação” e “vingança” ficaram suspensas no ar.