《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 21

“Além disso,” a promotora Mendes fez uma pausa, olhando diretamente nos olhos de Erika, e sua voz se tornou ainda mais séria, “o advogado de defesa também mencionou o seu… histórico. O caso de cinco anos atrás, envolvendo o seu ex-companheiro.”

Finalmente.

Erika sentiu na boca um gosto amargo, quase de ferrugem.

Na outra vida, esse “histórico” foi a espada suspensa sobre a sua cabeça.

No fim, o júri aceitou com dificuldade a tese de legítima defesa em situação extrema, mas ainda assim ela carregou para sempre a marca da “crueldade”.

Agora, esse passado se transformava na arma que o outro lado pretendia usar para atacar sua credibilidade.

“Naquele caso, o tribunal me absolveu.” Erika ouviu a própria voz sair estranhamente calma.

“Era uma situação completamente diferente. Naquele momento, minha filha estava em perigo imediato, correndo risco real. Desta vez, eu chamei a polícia. Guardei provas. Não usei violência excessiva. Isso não mostra justamente que estou tentando resolver as coisas pela via legal?”

“Do nosso ponto de vista, sim. E isso, inclusive, é um elemento muito favorável para você neste caso, porque mostra contenção e racionalidade.” a promotora confirmou. Mas em seguida mudou o tom.

“Só que o advogado de defesa não vai apresentar dessa forma. Ele vai insistir perante o júri que você é uma pessoa com histórico de violência extrema. Mesmo absolvida, ele dirá que sua personalidade pode carregar impulsividade e instabilidade. E vai argumentar que, neste caso, a sua ‘frieza’ e o seu ‘planejamento’ contrastam demais com o seu comportamento anterior, mais impulsivo e brutal. Isso, para ele, seria suspeito. Ele vai perguntar: por que uma mãe que, antes, matou com as próprias mãos em uma situação parecida, desta vez agiu de forma tão controlada? Será que, como não havia ‘perigo imediato’, você pôde planejar a situação e buscar vingança?”

Cada palavra batia como um pequeno martelo gelado no coração de Erika.

A capacidade do outro lado de distorcer a lógica e embaralhar os fatos superava até o que ela imaginava.

Aquilo que, para ela, era a prova de que aprendera com o passado e escolhera o caminho certo, para a defesa se transformava em indício de premeditação.

“Então… vocês querem dizer que, por causa do meu passado, justamente o fato de eu ter protegido minha filha desta vez vai ser usado contra mim?”

A voz de Erika tremeu levemente. Não por medo, mas por raiva e por uma sensação funda de impotência.

“Não somos nós que estamos duvidando, senhora Perez. Nós somos a acusação. Acreditamos em você e nas provas.”

A voz da promotora suavizou um pouco, quase com um toque de compaixão.

“Mas eu preciso que você entenda o que enfrentará em tribunal. O papel da defesa é inocentar o réu. Para isso, eles vão usar todos os instrumentos legais possíveis para atacar os pontos frágeis da prova e a confiabilidade das testemunhas. E você, como vítima principal e testemunha-chave, terá o seu passado examinado, questionado e até deturpado. Os jurados são pessoas comuns. Eles têm o direito de formar sua própria impressão, mas também podem ser influenciados pela forma como a defesa monta a narrativa.”

PUBLICIDADE

O assistente jovem, que até então apenas anotava em silêncio, ergueu os olhos por um instante e lançou um olhar breve e difícil de decifrar para Erika.

“E o que eu devo fazer?” perguntou ela, com a garganta seca.

“Primeiro: no tribunal, responda tudo com clareza, de forma objetiva e baseada apenas nos fatos. Não se deixe provocar. Não faça conjecturas. Não entre em respostas emocionais. Você só precisa dizer o que viu, o que ouviu e o que fez.”

“Segundo: se o seu passado vier à tona, não tente fugir do assunto, mas também não se alongue demais. Reconheça os fatos de forma simples: cinco anos atrás, diante de uma situação extrema em que sua filha estava sob ameaça imediata, você reagiu com força excessiva, foi julgada e absolvida com base em legítima defesa. Enfatize que era uma situação extrema e que, desta vez, sua primeira escolha foi acionar a polícia e preservar provas. São contextos diferentes.”

“Terceiro, e mais importante: o seu depoimento e o de Liliana precisam ser firmes e consistentes. Especialmente o de Liliana. Ela ainda é criança. No contra-interrogatório, pode ficar nervosa, se assustar, ser induzida a dar respostas contraditórias. Você precisa acalmá-la, mas sem jamais dizer o que ela deve falar. Diga apenas que ela precisa contar, com verdade, aquilo que lembra.”

Ao terminar, a promotora abriu a pasta e tirou um documento.

“Isto é uma cópia do requerimento apresentado pela defesa. Eles pedem que o tribunal acesse integralmente o processo do seu caso de cinco anos atrás, além de qualquer registro de avaliação psiquiátrica ou psicológica, se existir. É muito provável que o juiz autorize. Precisamos nos antecipar. Você sabe se naquele processo havia algo que pudesse ser usado contra você agora? Algum laudo, alguma fala de testemunha, alguma referência a ‘instabilidade emocional’ ou ‘inclinação à violência’?”

Erika pegou o documento.

O papel era fino, mas gelado.

Passou os olhos pelos termos jurídicos frios, e teve a sensação de que uma rede invisível vinha do passado para envolvê-la de novo.

“Eu não conheço todos os detalhes daquele processo.” disse com dificuldade.

“Mas sei que, na época, a defesa também tentou me retratar como alguém com problemas mentais. Só que a avaliação psicológica determinada pelo tribunal concluiu que eu tinha reagido sob estresse extremo. Não havia doença mental. Quanto à violência… tirando aquele episódio, eu nunca tive nenhum outro antecedente.”

“Aquele episódio já é suficientemente forte por si só.” murmurou a promotora, quase para si mesma. Em seguida retomou o tom formal.

“Certo. Isso já nos ajuda. Vamos nos preparar. Senhora Perez, o julgamento pode ser muito duro. Você precisa estar preparada. Mas acredite: as provas estão do nosso lado. E a justiça também deve estar. Proteger uma criança é dever de mãe, mas também é um valor que a lei precisa resguardar. O Ministério Público fará o possível.”

Ela se levantou, e o assistente fechou o caderno.

“Obrigada, promotora Mendes.” Erika também se pôs de pé e acompanhou os dois até a porta.

Antes de sair, a promotora se virou mais uma vez.

Por trás da firmeza profissional, havia em seus olhos algo mais difícil de definir — talvez solidariedade entre mulheres, talvez um aviso.

“Cuide da sua filha. E cuide de você também. Não só fisicamente, mas por dentro. Esse processo vai ser outra provação para vocês duas. Se for necessário, peça ajuda. Não tente suportar tudo sozinha.”

Quando a porta se fechou, Erika encostou as costas nela e escorregou devagar até se sentar no chão frio.

A sala estava silenciosa. Da cozinha vinha o cheiro cada vez mais forte do pão de chocolate no forno.

A porta do quarto de Lili continuava fechada.

Ela abaixou os olhos para o documento em sua mão.

As letras impressas, frias e secas, pareciam ter ganhado temperatura.

Queimavam na ponta dos seus dedos.

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia