《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 20

“Senhora Perez, desde que Liliana entrou na escola, ela tem se esforçado bastante nos estudos e mantém uma boa disciplina. No entanto… ela parece extremamente introvertida, quase não interage com os colegas. Nos intervalos, costuma ficar sozinha na carteira ou na biblioteca. Em algumas atividades em grupo, demonstrou resistência e ansiedade evidentes. Além disso, alguns alunos relataram que Liliana parece… ter uma reação de medo exagerada em relação a homens adultos — inclusive professores e pais de colegas. Quando os vê de longe, evita. Se precisa se aproximar, o corpo fica rígido, às vezes chega a tremer levemente.”

A professora Marina fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado: “Senhora Perez, eu entendo que Liliana pode ter passado por algo… desagradável. Isso exige tempo e apoio profissional. A escola conta com orientação psicológica, podemos organizar atendimentos regulares. Mas, como responsável pela turma, preciso saber: ela está em acompanhamento psicológico? O ambiente familiar está estável? Há algo específico que a escola deva evitar ou considerar, para não desencadear crises de ansiedade?”

A mão de Erika apertou o telefone, os nós dos dedos esbranquiçados. Sabia que a professora falava por responsabilidade e cuidado — mas cada pergunta tocava diretamente em feridas que ela tentava manter protegidas. Precisava responder, sem expor demais. Proteger a filha e, ao mesmo tempo, permitir que a escola ajudasse.

“Obrigada, professora Marina. A Liliana… passou recentemente por uma situação bastante assustadora, envolvendo um adulto em quem ela confiava. Ela está em acompanhamento psicológico. No momento, tem medo de homens adultos desconhecidos, principalmente os de porte físico maior. Se possível, peço que os professores tenham atenção, evitando que ela fique sozinha em situações que a deixem insegura. Nós nos mudamos há pouco tempo, e estou tentando construir um ambiente estável para ela. Agradeço muito a compreensão.”

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio. “Entendo, senhora Perez. Fique tranquila, a escola vai colaborar. Vou providenciar o acompanhamento psicológico. E, por favor, incentive Liliana com calma. Não precisamos apressar nada. Qualquer necessidade, entre em contato comigo.”

Ao desligar, Erika encostou-se na parede e fechou os olhos, exausta.

O trauma de Liliana era uma ferida invisível — mas estava por toda parte. Na escola, no bairro, nas interações do dia a dia. Não havia como esconder completamente o passado. Feridas precisam respirar para cicatrizar. Mas isso também significa se expor a olhares, julgamentos… e possíveis rejeições.

E aquilo era só o começo.

Na tarde de sábado, a campainha tocou.

Erika estava na cozinha, tentando preparar um pão com cobertura crocante de chocolate — algo que Liliana pedira, e que, na outra vida, ela nunca conseguira acertar. Na sala, Liliana montava um quebra-cabeça de mil peças com tema de céu estrelado, presente da senhora Fernanda, que dizia ajudar a acalmar a mente.

Erika enxugou as mãos e foi até a porta. Olhou pelo olho mágico.

Do lado de fora, uma mulher de cerca de trinta e cinco anos, vestindo um tailleur cinza-escuro, pasta na mão. Cabelo curto, postura firme, olhar afiado. Ao lado dela, um jovem assistente com um bloco de anotações.

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Não eram policiais. Mas havia algo ali — uma presença — que fez Erika ficar imediatamente alerta.

“A senhora é Erika Perez?” perguntou a mulher, com voz firme e clara. “Sou promotora do Ministério Público, Ana Clara Mendes. Vim tratar de alguns pontos sobre o caso de Everton da Silva. Aqui está minha identificação.”

Promotora.

O coração de Erika falhou por um instante. Não esperava uma visita direta.

Respirou fundo e abriu a porta.

“Promotora Mendes, por favor, entre.”

Ao mesmo tempo, lançou um olhar discreto para Liliana na sala. A menina imediatamente entendeu. Guardou as peças do quebra-cabeça e se levantou, inquieta.

“Liliana, vá para o quarto um pouquinho. A mamãe precisa conversar com a promotora.”

A menina assentiu e saiu em silêncio, fechando a porta atrás de si.

Erika conduziu as visitantes até o sofá simples e foi buscar água. O pequeno apartamento, já modesto, parecia ainda mais apertado diante da presença formal das duas.

“Senhora Perez, vamos direto ao ponto.” disse a promotora, apoiando o copo na mesa, depois de examinar rapidamente o ambiente. “O caso contra Everton da Silva está bem fundamentado. Temos confiança na acusação. No entanto, a defesa — representada pelo tio dele, Raul da Silva — levantou alguns questionamentos. Esses pontos podem influenciar o julgamento, especialmente a percepção do júri. Precisamos preparar você para isso.”

Erika sentou-se na cadeira à frente, postura reta, mãos entrelaçadas sobre o colo. “Que tipo de questionamentos?”

A promotora a encarou diretamente. “A defesa alega que havia conflito emocional e até financeiro entre você e o acusado. Sustenta que você teria um motivo de vingança. Segundo eles, você cancelou o encontro propositalmente, permaneceu em casa, provocou o confronto e gravou imagens para incriminá-lo. Também insinuam que o depoimento de sua filha pode ter sido influenciado por você.”

Mesmo esperando algo assim, ouvir aquilo formalmente fez uma onda de raiva fria subir por dentro.

“Isso é mentira.” disse Erika, controlando a voz. “Eu terminei com ele porque ele era agressivo e bebia demais. Tinha medo de que fizesse algo contra minha filha. Ele continuou me perseguindo. Nunca pensei em me vingar. Cancelei o encontro porque passei mal — não tenho como provar, mas é a verdade. Me escondi e gravei porque ouvi a chave na porta e entendi que havia perigo. Foi instinto. Quanto à Liliana, jamais a influenciei. Ela contou o que viu e ouviu. Promotora… as gravações não são suficientes?”

“São fundamentais.” respondeu Mendes. “Mas o problema é outro. A defesa vai questionar por que você ‘coincidentemente’ gravou tudo. Dirão que isso não condiz com a reação de uma mãe em pânico, mas sim com alguém que planejou a situação. E há mais: no vídeo, não há contato físico direto com a criança. A acusação de tentativa se baseia na intenção — nas palavras e nas ações dele. E intenção… pode ser contestada.”

O estômago de Erika afundou.

Era o mesmo tipo de ataque do passado.

A dúvida.

A distorção.

A tentativa de transformar a vítima em suspeita.

Mas, desta vez… ela não era mais a mesma mulher.

E não recuaria.

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