O comandante Costa ficou em silêncio. Ele conhecia, naturalmente, o histórico de Erika — o caso que havia chocado a cidade anos atrás, quando uma mãe matou o homem que tentava abusar de sua filha. Embora o tribunal tivesse reconhecido legítima defesa e a absolvido, a violência do episódio e a forma extrema como Erika agira haviam deixado uma marca difícil de apagar na memória coletiva. Raul, ao trazer isso à tona naquele momento, deixava claro o seu objetivo: atacar a credibilidade de Erika como vítima e testemunha, transformar o caso atual em uma suposta “armadilha premeditada” e, assim, enfraquecer — ou até invalidar — o peso das gravações.
Era um movimento arriscado, mas talvez o único possível. Turvar as águas. Tirar o foco do crime de Everton e deslocá-lo para os “motivos suspeitos” e o “passado questionável” de Erika.
“A investigação será conduzida de forma completa e objetiva. O passado da vítima não determina, por si só, culpa ou inocência. Da mesma forma, o fato de o suspeito ter um parente advogado não altera o tratamento do caso.” A voz do comandante Costa esfriou. “Se não houver mais perguntas, doutor da Silva, o senhor está dispensado. Antes do envio ao Ministério Público, ainda poderá se reunir com seu cliente conforme o procedimento.”
Raul entendeu que não obteria mais nada ali. Assentiu com um gesto educado, porém distante, e saiu. Ao entrar em seu carro antigo, estacionado diante da delegacia, acendeu um cigarro e puxou o fumo com força.
A fumaça subiu em espirais enquanto seus olhos se tornavam opacos.
Erika Perez… aquela mãe solteira que parecia frágil, quase submissa, ter sido capaz de fazer aquilo anos atrás já era surpreendente. E agora, essa frieza, essa preparação… não combinava com a imagem que circulava sobre ela. Teria mudado depois do ocorrido? Ou alguém a orientara?
De qualquer forma, o passado dela era uma brecha. Um ponto de ataque. Uma mãe com histórico de “violência extrema” — ainda que absolvida — sempre carregaria uma sombra sobre sua credibilidade. Juízes e jurados também são humanos. Também são influenciados por impressões prévias.
Ele precisava se aprofundar naquele caso antigo. Encontrar detalhes desfavoráveis. Conectar o episódio atual a uma suposta tendência violenta, a um impulso de vingança.
E havia a menina, Liliana. O depoimento dela era crucial. Mas uma criança de onze anos, recém-saída de um trauma… até que ponto sua memória era confiável? Até que ponto não poderia ter sido influenciada, ou até conduzida pela mãe? Em um interrogatório bem conduzido, um advogado experiente poderia facilmente expor hesitações, contradições, fragilidades.
Essas seriam as armas no tribunal.
Por ora, ele precisava dar segurança a Everton, instruí-lo a manter a versão de “conflito emocional”, negar qualquer intenção sexual. E, paralelamente, começar a reunir tudo que pudesse enfraquecer Erika — até rumores, se necessário.
O cigarro chegou ao fim e queimou seus dedos. Raul o jogou pela janela e deu partida no carro.
Provas sólidas? Isso nunca foi tudo.
O jogo judicial nunca é apenas sobre quem tem as cartas mais limpas, mas sobre quem sabe jogar melhor — explorar regras, criar dúvidas, atingir os pontos frágeis do adversário.
Raul da Silva nunca se manteve tantos anos na profissão por causa de senso de justiça.
No quarto simples do motel, Erika acabara de fazer Liliana comer um pouco antes de ela voltar a dormir. Caminhou até o pequeno banheiro e lavou o rosto com água fria. No espelho, viu uma mulher com olheiras profundas, marcas roxas no pescoço ainda evidentes.
A dor no braço lembrava a intensidade da luta. Mas comparada ao que vivera antes — ao corpo destruído, à alma em ruínas — aquilo era quase insignificante.
Ela acreditava nas provas. Acreditava que, desta vez, estava do lado certo da lei.
Mas não era ingênua a ponto de achar que isso bastaria.
A frase de Everton — “meu tio é advogado” — permanecia como um espinho cravado em sua mente.
O julgamento da vida passada… ela ainda se lembrava bem. Mesmo sendo absolvida, os ataques à sua sanidade, às suas ações, às suas intenções. Os olhares do público. A desconfiança. A malícia.
Desta vez, as provas eram mais claras. Mais diretas.
Mas e o outro lado?
Será que recorreriam a algo ainda mais sujo?
Ela ergueu o olhar para o próprio reflexo.
Nos olhos que antes carregavam apenas cansaço e desespero, agora havia algo novo.
Frio. Lúcido. Determinado.
Ela não permitiria que ninguém — ninguém — machucasse Liliana outra vez. Nem com violência. Nem com palavras. Nem com manipulações legais.
Se a batalha fosse travada no tribunal…
Então ela lutaria.
Não por vingança.
Mas por proteção.
O Ministério Público formalizou rapidamente a denúncia contra Everton Amaral da Silva: tentativa de estupro de menor, invasão de domicílio e lesão corporal.
O processo teve início.
Erika recebeu a notificação para depor em juízo. A audiência estava marcada para dali a um mês. Seu celular, apreendido como prova, ainda permaneceria retido para análise técnica.
Sua vida passou a existir em duas camadas.
Uma, o presente: trabalho, rotina, cuidar de Liliana, sobreviver ao cotidiano.
Outra, o futuro: a audiência, o depoimento, as consequências do caso.
E o passado…
O passado começava a voltar.
Numa tarde, ao sair do trabalho, Erika foi ao pequeno mercado do bairro comprar itens básicos. Enquanto escolhia leite, sentiu um olhar insistente nas costas. Ao se virar, viu uma mulher elegante, na casa dos quarenta, observando-a abertamente, com curiosidade, julgamento… e um leve desprezo mal disfarçado.
Ela a reconheceu vagamente — uma moradora antiga do condomínio, provavelmente ligada à associação de moradores.
Erika desviou o olhar e continuou suas compras. Mas a sensação não desapareceu.
No caixa, a mulher estava logo atrás dela.
A atendente, uma jovem de bochechas rosadas, comentou com simpatia:
“Dona Oliveira, a senhora está com uma aparência ótima hoje. Seu marido já voltou de São Paulo?”
“Volta amanhã. Estou levando carne para ele.” respondeu a mulher, com uma voz suave, mas artificialmente refinada.
Seu olhar, porém, voltou a recair sobre Erika.
A atendente seguiu o olhar e, abaixando o tom de voz — não o suficiente — comentou:
“Ah… é aquela que se mudou para a casa 3, né? Com uma menina… Parece tão tranquila…”
Dona Oliveira apenas murmurou um “hum”.
Mas naquele “hum” havia muito mais do que silêncio.
Erika sentiu as costas se enrijecerem. Pagou rapidamente e saiu do mercado. Ao passar pela mulher, sentiu o perfume forte, sofisticado.
Não olhou para trás.
Mas as palavras ficaram.
Como grãos de areia, caindo lentamente dentro de um lago que ela tentava manter calmo.
Ela sabia.
Mudar de casa não significava fugir dos rumores.
O caso da Rua das Acácias havia saído no jornal local. Com nomes fictícios, é verdade. Mas o título — “Mãe solteira enfrenta ex-namorado e salva filha de 11 anos de tentativa de abuso” — somado ao local e ao tempo… era o bastante.
Numa cidade pequena, memórias não desaparecem.
Elas se conectam.
E se espalham.
Dias depois, a escola nova de Liliana ligou.
Era a professora responsável, Marina.
A voz dela era educada.
Mas o conteúdo da conversa fez o coração de Erika afundar lentamente.