O tio de Everton Amaral, Raul da Silva, era sócio de um pequeno escritório de advocacia em Araraquara.
Atuava principalmente em causas cíveis e em casos criminais de menor gravidade. Circulava havia mais de vinte anos no meio jurídico da cidade.
Seus contatos não eram numerosos, mas ele conhecia alguns juízes, promotores e velhos funcionários da delegacia.
Era um homem baixo, de cabelos ralos, sempre vestido com ternos muito bem passados, embora antiquados, e usava óculos de aro dourado.
Tinha o hábito de olhar por cima das lentes, com uma expressão de cálculo e avaliação.
Quando recebeu, à noite, a ligação do sobrinho diretamente da cela, com aquela voz irritada, atropelada e sem lógica, a primeira reação de Raul foi puro aborrecimento. De novo Everton.
Aquele sobrinho inútil, mulherengo, sempre trazendo problemas.
Mas, à medida que ouvia a versão torta e desordenada dos fatos — na qual, é claro, ele era um visitante inocente, e Erika a louca que surtara e o atacara, enquanto a polícia acreditava cegamente nela — o cenho de Raul foi se fechando.
Invasão de domicílio, tentativa de estupro, lesão corporal.
Não eram acusações leves. Ainda mais envolvendo uma menor de idade. Se as provas fossem sólidas, uma condenação de muitos anos não seria surpresa.
“Você tem certeza de que não encostou na menina?” perguntou Raul com dureza, pelo telefone.
“Eu juro, tio! Eu só queria dar um susto naquela vadia da Erika! Quem mandou ela me largar! Eu nem encostei um dedo na garota! A porta estava trancada!”
“A polícia disse que há gravação de áudio, vídeo e também o depoimento da menina.”
“Isso é armação! Erika gravou escondido! Ela me provocou de propósito! E a menina deve ter sido ensinada por ela! Tio, você precisa me tirar daqui! Eu não posso ir pra cadeia!”
Raul puxou a gravata com irritação. Conhecia o sobrinho o bastante para saber que, se houvesse meia frase verdadeira em dez, já seria muito.
Mas aquele não era o momento de discutir verdade ou mentira. Everton era o único sobrinho que tinha, o último filho do irmão falecido.
E, mais do que isso, se ele acabasse condenado por tentativa de estupro, isso também mancharia o nome do escritório.
“Vou levantar as informações.” disse Raul, seco. “Você vai ficar aí dentro calado. Não diz nada. Não admite nada. Espera meu retorno.”
Depois que desligou, recostou-se na cadeira e começou a bater os dedos sobre a mesa, pensativo.
A primeira coisa que fez foi telefonar para um policial conhecido, um velho funcionário da delegacia responsável por registros de custódia.
Sem perguntar diretamente, foi rodeando o assunto até chegar ao caso da Rua das Acácias.
O outro lado contou pouco, mas o suficiente: havia gravação de áudio e vídeo no local, e o material era “muito desfavorável” ao suspeito; o depoimento da menina era claro; não houve contato físico consumado, mas as falas com conotação sexual e a invasão violenta estavam bem demonstradas; a mãe apresentava lesões e estava absolutamente decidida a levar o caso adiante.
O inquérito já seguia a linha de tentativa de estupro e seria logo encaminhado ao Ministério Público.
O coração de Raul afundou um pouco. Áudio e vídeo. Isso complicava muito. Ainda mais se as falas de Everton, com aquelas insinuações óbvias, estivessem registradas com clareza. Ele precisava ver com os próprios olhos o peso real daquilo.
Na manhã seguinte, apresentou-se na delegacia como advogado de defesa do suspeito e requereu acesso ao material básico do caso.
Pela norma, antes do envio formal ao Ministério Público, o defensor podia conhecer o núcleo da acusação e as provas principais.
O comandante Costa o recebeu de forma estritamente profissional, mas só permitiu que visse trechos essenciais do vídeo, já com o rosto e a voz das vítimas parcialmente protegidos, além de ouvir um resumo dos áudios relevantes, tudo sob supervisão.
Mesmo sendo apenas fragmentos, Raul terminou a visualização com suor frio nas costas.
A imagem tremia, a luz era ruim, mas era possível ver com nitidez Everton abrindo a porta com chave, tentando persuadir a menina, forçando a entrada, investindo contra Erika. E o áudio era ainda pior.
“O tio gosta mais da Lili”, “vamos brincar de um jogo”, depois os xingamentos, as ameaças.
Havia também a tentativa de ir pela janela e, em seguida, o estrangulamento de Erika. Aquilo praticamente solidificava a intenção criminosa e o uso de violência.
A cadeia probatória parecia muito consistente, com forte coerência interna.
Defender absolvição ou insuficiência de provas seria, na prática, quase impossível.
Raul saiu da sala de observação com o rosto carregado. O comandante Costa o aguardava do lado de fora.
“Doutor da Silva, o senhor viu o que havia para ver. A conduta do seu cliente é extremamente grave.” disse Costa, em tom neutro.
“O caso será remetido ao Ministério Público conforme previsto. Aconselho que o senhor considere a possibilidade de confissão. Talvez isso ajude a reduzir danos na dosimetria.”
Confissão? Atrás das lentes, os olhos de Raul se obscureceram.
Se Everton confessasse tentativa de estupro, ainda que não consumada, a vida dele praticamente terminaria ali.
E Raul também carregaria esse fracasso como uma mancha profissional: não conseguir defender nem o próprio sobrinho.
“Comandante, a autenticidade e a legalidade da prova ainda precisam ser submetidas ao contraditório em juízo.”
Raul ajustou os óculos e recuperou o tom técnico, distante, de advogado experiente.
“Meu cliente sustenta que foi provocado e falsamente acusado. Há um histórico de conflito afetivo entre ele e a suposta vítima adulta, o que indica possível motivação de vingança. Quanto ao áudio e ao vídeo, feitos num ambiente tenso e conflituoso, resta saber se estão íntegros, se foram editados, se refletem de fato o conjunto completo da situação. Principalmente porque a gravação não mostra de forma direta qualquer ato material de abuso contra a criança. Essa chamada ‘intenção de estupro’ decorre, em boa parte, de interpretação e da narrativa unilateral das vítimas.”
Costa o encarou sem alterar a expressão.
“Advogado, a prova fala. Perícia, testemunho, vestígios, tudo será confrontado e integrado. O promotor e o juiz vão decidir.”
“Sem dúvida. E nós respeitamos o devido processo.”
Raul fez um leve aceno de cabeça, mas então mudou o rumo da conversa.
“Aliás, comandante, ouvi dizer que a senhora Erika Perez… teria um histórico de instabilidade psicológica. Alguns anos atrás, não houve um episódio grave de violência doméstica? Acho que saiu até na imprensa.”
O olhar de Costa endureceu imediatamente, afiado como faca.
“Doutor da Silva, aonde exatamente o senhor quer chegar? Investigar a vida privada da vítima e sugerir fatos irrelevantes me parece completamente inadequado.”
“Estou apenas apontando fatores que podem afetar a credibilidade do material probatório.”
Raul abriu levemente as mãos, num gesto calculadamente inocente.
“Uma pessoa com histórico de violência extrema, ao gravar uma situação de conflito, não deveria ter sua objetividade questionada? Não seria plausível pensar que ela tenha provocado meu cliente deliberadamente, induzido a escalada da situação e então registrado só o que a favorecia? Afinal, desta vez ela foi ‘racional’, chamou a polícia, gravou tudo com frieza. Um comportamento muito diferente daquele apresentado no passado. Essa mudança tão brusca… não lhe parece suspeita?”