“Você foi muito corajosa, Liliana.” o comandante Costa assentiu, com tom firme e afirmativo, “trancar a porta, fechar a janela, pedir ajuda — tudo isso foi exatamente o correto. Você se protegeu.”
Essa simples validação pareceu dar um pouco de força a Lili. Ela fungou, enfiou o rosto mais fundo no peito de Erika, mas o corpo já não tremia com a mesma intensidade.
A primeira etapa do depoimento foi encerrada.
O comandante Costa caminhou até Everton, que permanecia algemado no canto, de cabeça baixa e em silêncio.
O perito já havia fotografado a cena, medido os danos da porta, verificado a janela e o quarto de Lili.
“Everton Amaro da Silva,” a voz do comandante voltou ao tom frio e protocolar, “você está sendo preso por invasão de domicílio, tentativa de estupro de menor e lesão corporal. Você tem o direito de permanecer em silêncio, mas tudo o que disser poderá ser usado contra você em tribunal. Agora, será conduzido à delegacia.”
Everton levantou a cabeça de repente. O rosto estava arranhado, as roupas desalinhadas.
Nos olhos, já não havia o desejo e a fúria de antes, mas uma mistura de rancor, ressentimento e uma astúcia vazia, desesperada.
“Eu não fiz nada!” ele gritou roucamente, a voz falhando, “eu só fui ver a Lili! Eu e a Erika discutimos, ela me agrediu! Eu só me defendi! Estupro? Eu nem sei do que ela está falando! Ela está mentindo! Ela é doente! Vocês não podem acreditar só nela!”
“Temos gravação de áudio, vídeo, prova da invasão, das tentativas de entrar no quarto da menor e da agressão contra a senhora Perez,” disse o comandante, impassível.
“Também temos o depoimento de Liliana. Se é mentira ou não, será decidido pela lei. Levem-no.”
Dois policiais avançaram e ergueram Everton, ainda se debatendo e gritando, conduzindo-o para fora.
“Erika! Sua vadia louca! Você me armou! Eu não vou deixar isso assim! Meu tio é advogado! Vocês vão ver!”
Os gritos ecoaram pelo corredor, diminuindo aos poucos até desaparecerem.
O apartamento voltou ao silêncio, restando apenas o som baixo dos agentes organizando equipamentos e os soluços ocasionais de Lili.
O comandante Costa voltou-se para Erika.
“Senhora Perez, você e sua filha precisarão ir à delegacia para prestar depoimento formal completo. Depois, poderão voltar para casa, mas recomendamos que não permaneçam aqui por enquanto, considerando a ameaça do suspeito e a possibilidade de ele ainda possuir uma cópia da chave. O local será isolado para perícia. Quanto ao seu celular, será retido como prova, mas você receberá um comprovante e ele será devolvido ao fim da investigação. Você tem direito a um advogado.”
Erika, abraçando Lili, assentiu lentamente.
O braço ainda doía, a garganta ardia, mas dentro dela havia uma estranha calma — e algo mais frio, mais firme, começando a se consolidar.
“Eu não tenho advogado,” disse. “Mas acredito na lei, comandante. Só peço uma coisa: que aquele monstro receba a punição que merece. Pela minha filha… e por todas as crianças que poderiam ser vítimas.”
O comandante a observou, depois olhou para a menina em seus braços. Em seus olhos firmes, passou um lampejo quase imperceptível.
“A lei dará a resposta, senhora Perez,” disse por fim, com voz estável. “Mas desta vez, você fez a escolha certa. Guardou provas, chamou a polícia, protegeu sua filha — em vez de se tornar também uma criminosa.”
Essas palavras foram como uma chave, abrindo silenciosamente uma caixa enferrujada dentro do coração de Erika.
Ela abaixou a cabeça e olhou para o topo dos cabelos de Lili, sentindo a respiração quente da filha e os batimentos que aos poucos se acalmavam.
Sim. Desta vez, ela fez a escolha certa.
Sem faca, sem barra de ferro, sem fogo.
Apenas um celular, um apito — e provas frias, preservadas a qualquer custo.
E, no fim, o som da sirene chegando a tempo.
A sala de interrogatório da delegacia de Araraquara era menor que a lembrança que Erika tinha do tribunal, mas igualmente fria e opressiva.
As paredes eram de um verde acinzentado apagado, a lâmpada fluorescente no teto emitia um zumbido constante e incômodo.
A luz era pálida, drenando qualquer cor dos rostos.
Uma mesa metálica retangular, algumas cadeiras de plástico, e no canto uma câmera com um pequeno ponto vermelho aceso, registrando tudo em silêncio.
Erika e Lili estavam sentadas de um lado da mesa.
Ao lado delas, a jovem policial que havia confortado Lili no apartamento — Sofia.
Sofia serviu um copo de água morna e conseguiu um pacote de biscoito de leite. Lili bebia em pequenos goles.
Os olhos ainda inchados, mas o estado emocional um pouco mais estável. Ainda assim, mantinha-se colada à mãe, sem se afastar um centímetro.
Do outro lado da mesa, o comandante Costa e um jovem policial responsável pela escrita do depoimento.
O ambiente era sério, mas menos opressor do que Erika imaginara — mais um procedimento rigoroso do que um interrogatório hostil.
“Senhora Perez, Liliana, vamos iniciar o depoimento formal,” disse o comandante, abrindo uma pasta com folhas em branco e o relatório preliminar.
“Tudo o que vocês disserem será registrado e poderá ser usado em tribunal. Portanto, sejam o mais claras e precisas possível. Não especulem, não omitam. Apenas relatem o que viram, ouviram e vivenciaram. Entendido?”
Erika assentiu, apertando levemente a mão de Lili. Lili também assentiu, tímida.
“Certo. Senhora Perez, comece desde o momento em que planejou sair de casa, até a nossa chegada. Relate toda a sequência de acontecimentos. Os horários, se possível, com precisão.”
Erika respirou fundo e começou.
Ela omitiu completamente qualquer menção a “segunda chance” ou “vida anterior”. Relatou apenas os fatos desta realidade, com clareza e lógica:
o plano de ir ao cinema com Everton — o cancelamento de última hora — a decisão de ficar em casa — a mensagem que Lili recebeu (explicando que soube disso depois pela filha) — a decisão de se esconder e ligar para a polícia — Everton entrando com a chave — o início da gravação — as tentativas dele de convencer Lili a abrir a porta — a tentativa de entrar pela janela — a quase exposição por causa da mensagem no celular — o arrombamento da porta — a necessidade de intervir — a escalada da violência — a agressão, a tentativa de pegar o celular, o estrangulamento — o pedido de socorro de Lili, o apito — a entrada da polícia.
Sua narrativa era calma, organizada, com linha temporal clara. Correspondia perfeitamente aos vestígios do local (porta danificada, janela aberta, móveis virados), às provas materiais (gravação), e ao depoimento de Lili.
Ela não exagerou o medo, nem forçou interpretações sobre “intenção de estupro”. As intenções já estavam evidentes nas palavras e ações registradas.
O comandante ouviu com atenção. Às vezes interrompia, fazendo perguntas pontuais:
“Que horas exatamente você cancelou o cinema?”
“O que o atendente disse durante a ligação?”
“O local exato onde você se escondeu?”
“A janela do quarto estava aberta? Quanto?”
“Quando você usou o chaveiro para reagir, onde exatamente o atingiu?”