O olhar dela procurou rapidamente, e logo encontrou Erika no canto da parede, protegida pelos policiais.
“Mamãe…” a voz de Lili era fina como um sussurro, tremendo intensamente.
“Lili!” Erika tentou correr até ela, mas as pernas cederam, quase fazendo-a cair de novo. O policial jovem a segurou a tempo.
“Fique no quarto, criança!” outro policial, mais velho, imediatamente se posicionou à frente da porta, bloqueando a visão de Lili em direção a Everton. Sua voz era firme, mas suavizada ao máximo. “Está tudo bem. A polícia chegou. Você está segura. Fique no quarto, tranque a porta, uma policial vai entrar para ficar com você, certo?”
Lili olhou para Erika, depois para os policiais. O corpinho pequeno tremia intensamente, ainda tomado pelo medo, mas ela era obediente. Assentiu devagar, recuou e fechou a porta com cuidado. Mas desta vez, não a trancou.
O coração de Erika, ao ouvir aquele “mamãe”, pareceu ser apertado por uma mão quente. Doeu, mas ao mesmo tempo trouxe um alívio imenso. Lili estava chamando por ela. Sem fugir. Sem aquele olhar de medo. Ela a chamou de mãe.
Logo, mais passos ecoaram pelo corredor. Duas policiais entraram rapidamente, seguidas por um perito com maleta e um médico da comunidade vestindo jaleco branco. O pequeno apartamento foi preenchido por uniformes, lanternas, flashes de câmera, ruídos de rádio. O silêncio anterior foi substituído por uma atividade fria, organizada, quase mecânica.
O policial jovem colocou o celular de Erika cuidadosamente em um saco de evidências transparente, etiquetou e entregou ao perito. Em seguida, relatou rapidamente a situação ao comandante que acabara de chegar.
O comandante era um homem de meia-idade, rosto rígido e olhar afiado. Enquanto ouvia, passou os olhos por Everton, algemado no canto, cabeça baixa em silêncio; depois por Erika, ainda em choque, com hematomas e marcas evidentes nos braços; e por fim pela porta fechada do quarto de Lili.
“Senhora Perez,” disse ele, aproximando-se de Erika, com voz firme, sem emoção excessiva, mas também sem desdém, “sou o comandante Costa. Preciso entender exatamente o que aconteceu. Mas antes disso, você e sua filha precisam passar por exame médico e uma entrevista inicial. Isso é para garantir a saúde de vocês e coletar os primeiros depoimentos. Você pode solicitar uma policial feminina para acompanhar. O médico vai cuidar dos seus ferimentos agora.”
Erika assentiu. Ela cooperaria totalmente.
Uma policial a conduziu até o sofá menos danificado. O médico abriu a maleta e começou a limpar os arranhões e hematomas em seus braços e pernas. O álcool ardeu, fazendo-a prender a respiração, mas também trouxe clareza à mente.
“O suspeito, Everton da Silva, você o conhece? Qual a relação?” perguntou o comandante Costa, enquanto outro policial registrava tudo.
“Conheço. Ele… era meu ex-namorado. Terminamos há cerca de três meses.” A voz de Erika ainda era rouca, mas firme. “Mas ele continuava me perseguindo. Ele tinha uma cópia da chave do apartamento, não sei como conseguiu. Hoje à tarde eu ia sair, mas desisti e fiquei em casa. Ele achou que eu não estava, entrou com a chave. O alvo era minha filha, Liliana. Eu me escondi. Ouvi ele tentando enganar minha filha para abrir a porta, e depois tentando entrar pela janela. Minha filha trancou a porta e se escondeu. Ele tentou arrombar. Eu saí para impedir. Ele me atacou, tentou pegar meu celular e me estrangulou… até vocês chegarem.”
Ela omitiu completamente a parte da “segunda chance”. Apenas narrou os fatos desta realidade, de forma lógica e clara.
“Você disse que gravou áudio e vídeo?”
“Sim. Desde o momento em que ele entrou com a chave até vocês chegarem. Já entreguei o celular.”
O comandante assentiu e fez um sinal ao perito. Este já havia verificado rapidamente o aparelho e confirmou a existência dos arquivos.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu novamente. Uma policial conduzia Lili pela mão.
Lili já havia trocado o vestido amarelo por um pijama, com um casaco velho de Erika por cima. Os olhos ainda vermelhos, o rosto pálido. Ela segurava forte a mão da policial, mas ao ver Erika, soltou-a e começou a caminhar lentamente, com hesitação, em direção à mãe.
Erika abriu imediatamente os braços.
Lili hesitou por um segundo.
Então, como um passarinho assustado que finalmente encontra seu ninho, correu e se jogou nos braços dela, enterrando o rosto no pescoço da mãe. O corpinho tremia violentamente, e um choro abafado começou a sair.
Desta vez, Erika a abraçou com força.
Sem recuar. Sem medo.
Ela voltou. Sua Lili voltou para seus braços.
As lágrimas vieram de imediato, quentes, misturando alívio, medo tardio e uma dor profunda de quem recuperou algo que já havia perdido. Caíam nos cabelos macios de Lili. Ela sentia o coração da filha batendo descompassado, sentia o cheiro doce de shampoo de morango, misturado ao sal das lágrimas.
Desta vez, suas mãos não estavam manchadas de sangue. Seu abraço não era mais uma fonte de terror.
“Está tudo bem, meu amor… acabou… acabou…” ela repetia baixinho, a voz embargada. “A mamãe está aqui. A polícia está aqui. O homem mau foi preso. Está tudo bem…”
O comandante Costa observou a cena em silêncio. Seu rosto não demonstrava emoção, mas ele fez um gesto para que os outros se afastassem um pouco, dando espaço à mãe e à filha. O médico também interrompeu o atendimento, aguardando em silêncio.
Depois de um tempo, o choro de Lili foi diminuindo, transformando-se em soluços leves. Mas ela continuava agarrada à mãe, sem soltar.
“Liliana,” disse o comandante, com uma voz muito mais suave do que antes, “sou o comandante Costa. Preciso fazer algumas perguntas, tudo bem? Essa policial vai ficar com você o tempo todo. Você pode responder no colo da sua mãe.”
Lili se mexeu levemente nos braços de Erika, levantou o rosto ainda molhado de lágrimas, olhou para o comandante, depois para a mãe. Erika assentiu com um leve sorriso encorajador.
“Hoje à tarde, quando o Everton chegou, sua mãe estava em casa?”
Lili balançou a cabeça. “Eu… eu achei que ela tinha saído. Ele disse que a mamãe pediu para ele vir… que ele tinha a chave… eu fiquei com medo… mandei mensagem para a mamãe… e tranquei a porta.”
“Depois que ele entrou, o que ele disse ou fez?”
O corpo de Lili voltou a tremer. Erika a abraçou mais forte.
“Ele… ele mandou eu abrir a porta… disse que trouxe surpresa… chocolate… eu não abri… então ele… ele começou a bater na porta… xingar… depois… eu ouvi a mamãe brigando com ele… lutando… eu fiquei com medo… então gritei pela janela…”
“Ele tocou em você? Pela porta ou pela janela?”
Lili balançou a cabeça com força, lágrimas voltando a cair. “Não! A porta estava trancada! A janela… eu fechei… e empurrei um móvel na frente! Ele não entrou! Mas… mas ele era assustador… a voz dele… era muito assustadora…”
Ela franziu o rosto, como se ainda sentisse aquela voz pegajosa e repulsiva ecoando na memória.