A luz forte rasgou a penumbra, e também rasgou a escuridão que tomava a visão de Erika.
O braço de ferro em volta do seu pescoço se afrouxou de repente.
O ar fresco, misturado ao cheiro de poeira do corredor e a um odor frio de borracha e metal, invadiu seus pulmões em chamas.
Ela tossiu violentamente, como um peixe jogado fora d’água, o corpo perdendo toda a força enquanto escorregava para baixo.
Mas ela não caiu. Uma mão firme, usando luvas pretas, segurou seu braço com força, puxando-a para trás, afastando-a do homem que segundos antes tentava estrangulá-la.
No meio da confusão de luz e sombras, ela viu pelo menos dois, talvez três policiais de uniforme azul-escuro avançando com rapidez, como predadores, sobre Everton, que havia congelado no lugar.
“Deita no chão! Mãos na cabeça!”
“Não se mexe!”
Gritos, impactos de corpos, gemidos abafados, o estalo metálico das algemas se fechando… tudo aconteceu rápido demais, como uma sequência acelerada de um filme violento sem som.
Erika foi levada até a parede pelo policial que a segurava, meio apoiada nele, até encostar as costas na superfície fria e áspera.
Só então conseguiu se manter em pé. Ainda tossia com força, lágrimas e secreção escorrendo pelo rosto, a visão turva.
Só distinguia formas azul-escuras pressionando aquele corpo pesado no chão, com os braços torcidos para trás.
A polícia. Eles chegaram.
“Senhora, você está bem? Consegue respirar?”
O policial que a ajudava era jovem, a voz tensa, mas controlada.
Ele soltou o braço dela, mas permaneceu à frente, protegendo-a, com uma mão próxima à arma, atento ao homem imobilizado.
Erika não conseguiu responder.
Apenas assentiu, depois negou com a cabeça, respirando com avidez, cada inspiração queimando a garganta.
Mas mais forte que a dor era a sensação de sobreviver — e uma clareza fria. Ela estava viva. Lili também estava. Pelo menos por agora.
No meio do caos mental, um pensamento atravessou como gelo: a prova. O celular.
Ela ergueu a mão, trêmula, e apalpou o bolso da frente do jeans. O formato rígido ainda estava lá. Ela o puxou com urgência.
A tela estava rachada, cheia de fissuras, mas ainda acesa. Tentou desbloquear, mas os dedos escorregavam, suados e sujos.
“Senhora, por favor, se acalme. Você está segura.”
O policial jovem percebeu o movimento, achando que ela estava em choque.
“Quem é ele? O que aconteceu?”
Ela não respondeu de imediato. Toda sua atenção estava no telefone. Finalmente, conseguiu desbloquear.
Abriu a galeria e encontrou o vídeo mais recente.
O horário: 15:12.
Tremendo, apertou reproduzir, baixando o volume ao mínimo e aproximando do ouvido.
Ruído.
Depois o som da chave na fechadura.
A voz viscosa de Everton: “Ei? Tem alguém em casa? Lili?…”
Os passos. A tentativa na maçaneta.
A voz baixa, manipuladora. Os xingamentos. A ida até a janela. A tentativa de entrar. O barulho da mensagem.
O impacto na porta. O confronto. As mãos no pescoço dela… até o grito final:
“Polícia! Não se mexe!”
O áudio tinha ruídos, respiração, interferência, mas era claro o suficiente. Principalmente as falas dele, carregadas de intenção e ameaça. E as tentativas explícitas de invadir o quarto.
O vídeo ainda continuava.
A imagem tremida, escura na maior parte, mas em certos momentos captava o perfil distorcido dele, o braço forte, a violência.
Gravou. Ela conseguiu gravar.
Uma onda brutal de alívio e euforia atravessou o corpo dela, quase fazendo-a desmaiar.
Apertou o celular contra a mão como se fosse algo sagrado, algo recuperado do abismo.
“Oficial…” ela finalmente conseguiu falar, a voz arranhada.
“Ele… Everton Amaral… tentou estuprar minha filha… Liliana… ela está no quarto… trancada… eu liguei… eu gravei… tenho áudio, tenho vídeo…”
As palavras saíram confusas, mas o sentido era claro.
O rosto do policial mudou imediatamente.
Ele falou algo rápido no rádio do ombro e gritou para os colegas que ainda mantinham Everton imobilizado:
“Informem a central! Tentativa de estupro! Suspeito detido! Menor no quarto, status desconhecido! Precisamos de policial feminina e equipe médica, agora!”
Depois voltou-se para Erika, mais sério ainda:
“Senhora, me entregue o celular. Isso é prova. Vamos cuidar disso conforme a lei. Agora me diga, como está sua filha? Precisamos confirmar se ela está segura.”
Nesse instante, ouviu-se um “clique” leve na porta do quarto.
A porta se abriu um pouco.
Uma pequena mão apareceu, os dedos brancos de tanto apertar a madeira.
Devagar, o rosto de Lili surgiu pela fresta.
Pálido.
Molhado de lágrimas.
Os olhos vermelhos, inchados, ainda cheios de medo.
Mas ao ver os policiais de uniforme azul, e Everton no chão, algemado, derrotado—
No meio do medo, surgiu algo.
Confusão.
E um fio frágil, quase inacreditável… de esperança.