Everton ficou parado alguns segundos, inclinado, escutando.
Além da própria respiração, um pouco pesada, o apartamento estava em silêncio absoluto.
Ele franziu a testa, uma hesitação passou pelo rosto, mas quando seu olhar voltou para a porta fechada do quarto de Lili, essa hesitação foi substituída por um desejo mais forte e por uma irritação ofendida.
“Merda… que azar.” ele murmurou, como se convencesse a si mesmo de que aquilo não passava de um pequeno imprevisto.
Não deu mais atenção ao esconderijo, virou-se novamente para a janela e empurrou o caixilho.
O alumínio velho rangeu, seco e áspero.
A janela se abriu um pouco mais, e o vento frio do entardecer entrou, trazendo consigo o cheiro de poeira da rua.
A mente de Erika girava em alta velocidade dentro de um gelo de medo. Ele vai pela janela.
Se subir naquela saliência estreita e chegar até a janela de Lili… a janela está aberta!
Com o tamanho dele e aquela brutalidade, ele pode forçar, arrombar, entrar!
E então Lili estará completamente exposta, enquanto ela mesma continua presa naquele maldito vão!
Isso não pode acontecer.
A razão gritava: espere a polícia! Eles estão chegando! Fique escondida, grave, junte provas!
Mas o instinto rugia: proteja! Agora! Imediatamente!
Quando Everton já tinha uma perna apoiada no parapeito, tentando empurrar o corpo pesado para fora, um som veio do quarto — um “tcham” abafado, como uma cadeira caindo, seguido de um suspiro trêmulo, com choro contido.
Foi leve, mas naquele silêncio, soou como um trovão.
Everton congelou. Recolheu a perna, virou-se, e o último traço de dúvida no rosto foi substituído por um sorriso excitado e cruel.
Desistiu da janela e caminhou em direção à porta do quarto.
“Ah, então você ficou com medo, né?” ele lambeu os lábios, os olhos brilhando de forma repugnante.
“Calma, o tio vai entrar e brincar com você.”
Ele não tentou mais a maçaneta. Deu dois passos para trás, puxou o ar e lançou o ombro contra a porta.
“BANG!”
A porta fina tremeu violentamente. Poeira caiu do batente. A fechadura gemeu, mas resistiu.
“BANG!” outra vez.
A vibração passou pela parede e chegou até Erika, colada à superfície fria. Cada impacto parecia bater diretamente no coração dela.
Ela conseguia imaginar Lili do outro lado, encolhida num canto, tapando os ouvidos, os olhos cheios de lágrimas, encarando a porta prestes a ceder…
Cadê a polícia?! Por que ainda não chegaram?!
Já passaram três minutos!
Não — talvez só dois, mas parecem uma eternidade!
“Lili! Fica na porta! Não abre!”
Erika não conseguiu mais se esconder. Saiu do vão, correndo, a voz rouca e distorcida pela raiva e pelo medo.
Everton parou imediatamente.
Virou-se devagar.
Ao ver Erika no meio da sala, pálida como papel, tremendo sem controle, ficou imóvel por um instante — depois, a expressão se contorceu com uma fúria violenta, como se tivesse sido enganado.
“Erika?” a voz saiu entre os dentes, carregada de incredulidade e raiva.
“Você não ia pro cinema?! Que porra você tá fazendo aqui?!”
O olhar dele deslizou sobre ela como uma cobra, e parou no celular que ela segurava, ainda aceso.
Os olhos se estreitaram, escurecendo.
Erika forçou a coluna a se manter reta, embora as pernas quase não sustentassem o corpo.
A mão direita, com o celular, ficou ao lado do corpo; os dedos se moveram discretamente, tentando parar a gravação e salvar — já tinha o suficiente, ele batendo na porta e tentando invadir, precisava preservar aquilo.
Ao mesmo tempo, a mão esquerda deslizou para o bolso de trás, onde estavam as chaves.
No chaveiro havia um pequeno apito metálico, duro, desses distribuídos pelo bairro para defesa pessoal.
“Eu mudei de ideia.” a voz dela saiu baixa, fria, apesar do tremor.
“Everton, sai da minha casa. Agora.”
“Sair?” ele riu, como se fosse absurdo.
Deu um passo à frente, o corpo grande impondo pressão, o cheiro de suor e colônia barata avançando junto.
“Isso aqui é sua casa? Erika, para de fingir. Você sabe muito bem por que eu tô aqui. Ou…” ele lançou outro olhar para a porta do quarto, sorrindo de forma suja,
“você quer brincar junto?”
Essa frase foi como romper uma barragem.
Todo o medo, dor, humilhação e destruição, de antes e de agora, explodiram de uma vez.
“Seu animal!” ela gritou, aguda, cortante. “Encosta na minha filha e eu te mato!”
No instante em que falou, ela soube.
Erro.
Não fazia parte do plano.
Aquilo só iria provocá-lo.
E provocou.
O rosto dele escureceu completamente.
O último vestígio de paciência desapareceu.
“Me matar? Você?” ele riu, frio. Deu um passo largo à frente e avançou, a mão indo direto para o celular dela.
“Me dá essa merda de celular! O que você tá filmando?!”