A ligação foi atendida mais rápido do que ela esperava.
“190, emergência.” A voz masculina soou um pouco displicente, com ruídos ao fundo.
O coração de Erika subiu até a garganta, mas ela forçou a voz a permanecer clara e rápida, sem cair em histeria:
“Eu preciso de ajuda! Um homem está tentando abusar sexualmente da minha filha! Ele está a caminho da minha casa agora! O endereço é Rua das Acácias, 117, apartamento 3B, Araraquara, São Paulo. Minha filha, Liliana Vicente, tem onze anos. O suspeito se chama Everton Amaral, quarenta e dois anos, cerca de um metro e oitenta, cabelo castanho ondulado. Ele pode ter a chave da minha casa. Ele tem tendência à violência. Minha filha está sozinha em casa, em extremo perigo! Mandem alguém imediatamente! Por favor, imediatamente!”
Ela falou muito rápido, mas articulando cada palavra com precisão.
As informações essenciais — endereço, nomes, idades, características do suspeito, natureza do crime e urgência — estavam todas ali, sem nenhum excesso de emoção ou explicação desnecessária.
Era o discurso que ela havia ensaiado incontáveis vezes, nas madrugadas em que revivia o passado e mastigava o arrependimento.
Do outro lado, houve um ou dois segundos de silêncio.
O ruído de fundo pareceu diminuir.
A pessoa na linha claramente foi impactada pela gravidade e pelo volume de informações.
A displicência desapareceu de imediato, substituída por um tom sério e ágil:
“Senhora, mantenha a calma. Repita o endereço: Rua das Acácias, 117, apartamento 3B, correto?”
“Correto! Por favor, rápido! Ele pode chegar a qualquer momento!”
Erika baixou a voz, os olhos fixos no corredor visto pelo olho mágico.
Escuro. Silencioso.
Mas sob aquele silêncio, parecia haver algo à espreita.
“Registrado. Uma viatura será enviada no menor tempo possível. Garanta a segurança sua e da sua filha. Tranque a porta. Não confronte o suspeito. Mantenha o telefone disponível, podemos precisar—”
Nesse momento, passos ecoaram no fim do corredor.
Pesados.
Passos de homem.
Lentos.
Com um ritmo irritante, cheio de autoconfiança.
O sangue de Erika congelou.
Era Everton.
Ela não tinha dúvida.
O som dos sapatos baratos arrastando levemente, o leve arrastar da perna esquerda — ela já tinha ouvido aquilo tantas vezes que estava gravado nos ossos.
Ele chegou.
Mais cedo do que o esperado.
E a polícia?
Onde estava a polícia?
“Ele chegou!” Erika sussurrou ao telefone, urgente, cada palavra espremida entre os dentes. “Ele está subindo! Onde vocês estão?!”
“Senhora, mantenha a calma! Não desligue! Nossa equipe está a caminho! Diga exatamente onde você está!” A voz do atendente também revelava tensão.
“Estou atrás da porta! Minha filha está no quarto, trancada! Meu Deus, ele chegou!”
Pelo olho mágico, Erika viu uma figura alta surgir na curva da escada, vindo em direção à sua porta.
O cabelo ondulado.
A camisa xadrez.
E aquele sorriso repugnante, convencido.
Ela desligou.
Não por desconfiança, mas porque não podia permitir que qualquer som revelasse sua posição.
Ela precisava se esconder.
Observar.
Registrar.
Obter provas.
Ela recuou rapidamente, em silêncio, como um animal assustado.
Afastou-se da porta e se enfiou no espaço estreito entre a sala e a cozinha, onde ficavam os produtos de limpeza.
Dali, a visão era limitada, mas ainda permitia ver um canto da porta pela fresta.
E, mais importante, era um esconderijo.
Ela encostou as costas na parede fria e úmida. O coração batia com violência no peito.
Tum. Tum. Tum.
Como um tambor quebrado sendo golpeado sem parar.
O celular ainda estava em sua mão, levemente quente da ligação.
Ela abriu rapidamente a câmera, mudou para o modo vídeo, desligou o flash e apontou cuidadosamente para a direção da fresta da porta. Reduziu o brilho da tela ao mínimo.
O ponto vermelho da gravação, no escuro do esconderijo, parecia um olho silencioso observando tudo.
Os passos pararam do lado de fora.
O som da chave entrando na fechadura — um leve atrito metálico — foi ampliado pelo silêncio absoluto do apartamento.
Nítido.
Cortante.
A respiração de Erika parou.
Ele tinha a chave.
Claro que tinha.
Aquele desgraçado já tinha planejado tudo.
A maçaneta girou.
A porta foi aberta lentamente, apenas uma fresta.
A luz fraca do corredor entrou na sala escura como uma lâmina pálida.
Uma cabeça surgiu pela abertura, olhando ao redor.
Era Everton.
Mesmo na penumbra, Erika conseguia ver cada detalhe: as olheiras fundas, a barba mal feita com tom azulado, o canto da boca levemente caído.
E os olhos.
Brilhando.
Excitados.
Gananciosos.
Cruéis.
O olhar de um predador prestes a atacar uma presa indefesa.
“Ei? Tem alguém em casa?”
A voz baixa, falsa, quase carinhosa.
Repugnante.
“Lili? A Erika saiu, viu? O tio Everton veio te ver. Trouxe uma ‘surpresa’ pra você.”