“Mãe?”
Lili se levantou e foi até ela. Com a mãozinha pequena, puxou de leve a barra da roupa de Erika, preocupada.
“Você está mesmo bem?”
O calor dos dedos da filha, pequeno e vivo, atravessou Erika como uma corrente fraca, quebrando num segundo toda a rigidez e todo o torpor que a dominavam.
Ela abaixou a cabeça e encontrou os olhos castanhos de Lili, limpos, cheios de preocupação. Aqueles olhos ainda não estavam ocupados pelo medo, nem vazios por dentro. Ainda refletiam a luz forte da tarde entrando pela janela e o rosto descomposto da própria mãe.
Não posso assustá-la. De jeito nenhum.
Erika puxou o ar devagar e o soltou com cuidado. Forçou os cantos da boca para cima, construindo um sorriso o mais natural possível, embora ainda duro. Estendeu a mão e acariciou de leve os cabelos macios de Lili.
Um gesto tão simples.
Nos cinco anos que viriam depois, aquilo se transformaria em luxo, em sonho impossível.
Agora, sentir aquele calor real sob os dedos quase a fez chorar.
“A mamãe está bem, meu amor.” Sua voz saiu um pouco rouca, mas ela lutou para mantê-la estável. “Só fiquei um pouco tonta de repente. Acho que dormi mal.”
Lili piscou, claramente sem acreditar totalmente. Mas a atenção das crianças se desloca rápido.
“Então você ainda vai ao cinema? Você disse que aquele desenho novo era legal.”
Cinema.
O cinema marcado com Everton.
Naquela tarde, tinha sido esse o pretexto que ela usara para sair, deixando Lili sozinha em casa e abrindo a porta da oportunidade para o demônio.
Estúpida.
Ingênua.
Imperdoável.
“Não vou mais.” Erika ouviu a própria voz sair calma demais. “Pensei melhor e acho que esse filme nem deve ser tão bom. E... a mamãe ficou com muita vontade de comer aquele bolo de sorvete de morango que você disse que gostou. A gente pode fazer hoje à noite, que tal?”
Os olhos de Lili se iluminaram na hora.
“Sério? Pode colocar bastante morango?”
“Claro. Uma camada bem cheia.”
O coração de Erika continuava disparado, mas o sorriso em seu rosto ficou um pouco mais verdadeiro.
Ganhar tempo.
Ela precisava manter Lili perto. Ou, pelo menos, garantir que estivesse totalmente segura.
“Mas antes de fazer o bolo, a mamãe precisa resolver uma coisa. Você promete uma coisa pra mim?”
“O quê?” Lili ergueu o rostinho.
“Não importa quem bata na porta, você não abre. Só se for a mamãe. Ninguém. Nem o tio Everton, se... se ele aparecer. Você fica no seu quarto, tranca a porta, me manda mensagem ou me liga. Você consegue fazer isso?”
Erika se agachou e segurou os ombros pequenos da filha, olhando direto para ela, com uma seriedade que nunca tinha usado antes.
Lili pareceu assustada com o tom repentino da mãe, mas logo assentiu com força.
“Consigo! Prometo! Não abro pra ninguém!”
“Boa menina.”
Erika a abraçou.
Um abraço rápido, leve. Com medo de assustá-la. Com medo de, se apertasse demais, não conseguir soltá-la nunca mais.
Lili cheirava a sol e giz de cera.
Cheiro de vida.
Cheiro de calor.
Quando a soltou e se levantou, o coração ainda batia enlouquecido atrás das costelas, o sangue rugia nos ouvidos, mas sua mente entrou num estado estranho de lucidez gelada.
Como uma máquina precisa, cruel, trabalhando depressa.
Calculando minutos.
Segundos.
Possibilidades.
Ela voltou para a sala e passou os olhos pelo ambiente.
A chave estava pendurada no gancho ao lado da porta.
Sua bolsa estava no sofá. Dentro, carteira, celular, maquiagem solta.
E também...
Ela lembrava.
Naquela tarde, antes de sair, tinha jogado dentro da bolsa um estilete pequeno, desses usados para abrir encomendas.
Foi até lá depressa e abriu a bolsa.
Os dedos vasculharam os objetos até tocar a carcaça metálica e fria.
Ela o tirou.
O estilete prateado repousava quieto na palma da mão, a lâmina recolhida dentro do corpo plástico.
Erika ficou olhando para ele por dois segundos.
Depois, sem hesitar, foi até a cozinha, abriu a gaveta mais baixa, onde se amontoavam coisas velhas e inúteis, jogou o estilete lá dentro, fechou a gaveta e, no mesmo movimento, guardou também uma faca de fruta que estava sobre a pia.
Não podia deixar nenhum objeto afiado ao alcance.
Nenhum.
Nada que pudesse alimentar um impulso de violência.
Nada.
Em seguida, pegou o próprio celular.
15:12.
O tempo estava acabando.
Pelas lembranças embaralhadas, Everton não costumava “visitar” em horários fixos. Mas naquele dia ele tinha escolhido exatamente a janela em que ela estaria “no cinema”.
Ele podia aparecer a qualquer momento.
Ela precisava de prova.
Prova incontestável.
Prova capaz de esmagar aquele desgraçado diante da lei e da vergonha pública.
Abriu o aplicativo de gravação.
O botão vermelho parecia uma gota de sangue coagulado.
Apertou.
Virou o celular com a tela para baixo e o enfiou no bolso da frente da calça jeans. O tecido áspero talvez prejudicasse o áudio, mas era o jeito mais discreto.
Depois, precisava garantir a segurança de Lili.
Parou diante da porta do quarto e bateu de leve.
“Lili, a mamãe vai ficar aqui fora resolvendo uma coisa. Tranca a porta, tá? E não sai até eu chamar.”
Do outro lado, a resposta veio clara:
“Tá bom!”
Logo depois, ouviu o clique seco da fechadura.
Erika soltou um pouco do ar preso no peito, mas o coração continuava suspenso.
Foi até a porta do apartamento e olhou pelo olho mágico.
O corredor estava vazio.
A luz automática tinha apagado por falta de movimento. Tudo mergulhado numa penumbra opaca.
Ela precisava chamar a polícia.
Mas o que diria?
Que o namorado talvez fosse tentar abusar da filha?
A polícia acreditaria?
Mandariam uma viatura imediatamente?
Ou tratariam aquilo como briga doméstica, exagero, histeria — talvez até perguntassem por que ela deixou uma menina sozinha em casa?
Mesmo assim, era a intervenção mais rápida.
E o registro da ligação já faria parte da cadeia de provas.
Ela puxou o celular.
Parou a gravação — um arquivo vazio, sim, mas já marcando o horário.
Abriu a tela de chamadas.
Seu dedo ficou suspenso sobre o 190.
Tremendo.
E se a polícia chegasse tarde?
E se Everton aparecesse antes?
E se Lili não tivesse trancado direito?
Os “e se” subiram como cobras, enroscando-se nela, apertando sua garganta.
As imagens da outra vida piscaram outra vez: Lili prensada no sofá, a mão estendida em desespero; Everton virando o rosto com aquela expressão repugnante; e ela mesma, coberta de sangue, faca na mão, como uma criatura saída do inferno.
Não.
Para.
Ela fechou os olhos com força e tornou a abri-los.
A dor aguda das unhas cravadas na palma devolveu um fio de controle.
Desta vez seria diferente.
Ela não era mais uma mãe sozinha diante da fera.
Era uma mulher com uma segunda chance nas mãos.
Ela precisava de uma armadilha.
De laços.
De uma rede precisa, invisível, da qual a presa não pudesse escapar.
A ligação precisava ser feita.
Mas a forma de falar era tudo.
Sem hesitar mais, ela apertou o botão de chamada.