O suor frio encharcou suas costas num instante.
Um medo gelado, quase insuportável, subiu pela espinha. Não era o medo de um perigo conhecido, mas o medo de tudo aquilo — absurdo, distorcido, impossível.
Ela estava morta?
Desmaiou na chuva… e agora estava no pós-vida?
Um inferno construído pelas camadas mais profundas do seu subconsciente, repetindo-se para sempre?
Ou…
Aqueles cinco anos?
A prisão, o sofrimento, a distância de Lili, a chuva fria…
Tudo tinha sido apenas um sonho?
Um pesadelo longo demais.
E agora ela tinha acordado?
—
A tela do celular apagou.
Ela, com os dedos trêmulos, acendeu de novo.
12 de março de 2025.
15:08.
—
Ela jogou o cobertor para o lado e desceu da cama descalça.
O chão de madeira estava frio.
Levemente gasto.
Rangia sob seus passos.
Aquele som…
Era familiar demais.
A ponto de fazer seu estômago se revirar.
—
Ela saiu do quarto quase tropeçando.
A sala.
Pequena.
Tapete azul desbotado.
Sofá bege, com o uniforme escolar de Lili jogado sobre o encosto.
Revistas infantis espalhadas na mesa de centro.
Uma maçã pela metade, já escurecida pelo tempo.
A televisão desligada refletindo seu rosto pálido.
—
Tudo.
Exatamente igual.
Como naquela tarde.
Antes de ela sair.
—
Menos o tempo.
—
Adiantado.
—
Dez minutos.
Não…
Mais do que isso.
Entre a mensagem e o desastre, haviam se passado vinte, trinta minutos.
Se agora eram 15:07…
Ainda havia tempo.
Ainda havia tempo antes da chegada dele.
Antes do grito de Lili.
Antes da porta se abrir.
Antes do inferno.
—
Um pensamento atravessou sua mente.
Violento.
Insano.
Mas quente.
Cheio de uma esperança quase dolorosa.
—
E se…
Isso não fosse um sonho?
Nem um inferno?
—
E se isso fosse…
—
Seus olhos dispararam para o relógio na parede.
Redondo.
Antigo.
O ponteiro dos segundos avançava com precisão.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
O som…
Parecia um sino fúnebre.
Ou…
Uma contagem regressiva.
—
Ela correu para o quarto de Lili.
A porta estava entreaberta.
Ela empurrou devagar.
—
Lili estava ali.
De costas.
Sentada à mesa.
Fazendo a lição.
O vestido amarelo-claro.
As duas tranças.
As pontas presas com elásticos de morango.
A luz da tarde tocava sua pele com um brilho suave.
Sobre a mesa, o estojo com estrelas e unicórnios.
Aberto.
Uma borracha pela metade ao lado.
—
Tudo tão comum.
Tão tranquilo.
Tão… intacto.
—
Tranquilo demais.
A ponto de fazer Erika querer chorar.
E rir.
Ao mesmo tempo.
—
Sua Lili.
Viva.
Segura.
Ainda não marcada.
Ainda não destruída.
Ali.
Como em qualquer tarde comum.
Resolvendo contas que talvez a irritassem.
—
Como se nada tivesse acontecido.
—
Lili virou a cabeça.
Talvez tenha ouvido algo.
Viu Erika.
E sorriu.
Um sorriso tímido.
Doce.
Os olhos em meia-lua.
Um sorriso que Erika não via há cinco anos.
Um sorriso sem sombra.
—
“Mãe?”
A voz era leve.
Macia.
De criança.
“Você não saiu ainda? Você não ia ao cinema com o tio Everton?”
—
Tio Everton.
—
O nome entrou no peito de Erika como um ferro em brasa.
Queimando.
Atravessando.
O estômago virou.
Ela quase vomitou.
—
Everton Amaral.
O homem de braços peludos.
Sorriso incômodo.
O homem que ela achou que era apoio.
E que virou o abismo.
—
Ele estava vindo.
Com a chave falsa.
Com intenções sujas.
Com a destruição nas mãos.
—
15:09.
—
Ainda havia tempo.
—
“Mãe?”
Lili franziu a testa.
Confusa.
“Você está bem? Você está muito pálida…”
—
Erika abriu a boca.
Mas nada saiu.
O que ela poderia dizer?
Corre?
Ele é um monstro?
Eu vou fazer algo terrível?
Nossa vida vai acabar em minutos?
—
Não.
Ela não podia dizer nada.
Qualquer coisa fora do normal assustaria Lili.
E poderia estragar tudo.
—
Calma.
Erika.
Calma.
—
Ela reuniu toda a força que tinha.
Empurrou o medo.
O ódio.
A confusão.
Enterrou tudo.
As unhas cravaram na palma da mão.
A dor trouxe clareza.
—
Renascimento.
A palavra surgiu na mente.
Absurda.
Impossível.
Mas tudo ali…
Era real demais.
—
Se isso fosse verdade…
Se o destino, Deus, ou qualquer força…
Tivesse dado a ela outra chance…
—
Ela não era mais a mulher de cinco anos atrás.
Ingênua.
Despreparada.
Movida apenas pelo instinto.
—
Ela era alguém que já passou pelo inferno.
Pela prisão.
Pelo julgamento.
Pela culpa.
Por ver a própria filha se quebrar.
—
Ela era alguém que jurou…
Que nunca mais deixaria Lili ver sangue.
Que nunca mais se tornaria um monstro.
—
Lei.
Provas.
Razão.
—
Essas palavras queimavam dentro da mente dela.