《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 7

Esse pensamento, ao longo dos últimos cinco anos, tinha sido como uma ferida que nunca cicatrizava. Apodrecia, fechava, rasgava de novo. Repetidamente.

Mas agora, sob a chuva fria, olhando o perfil inquieto e assustado da filha, aquele pensamento deixou de ser apenas arrependimento.

Tornou-se desejo.

Um desejo afiado, quase com gosto de sangue.

Se pudesse voltar...

Ela jamais pegaria aquela faca.

Se pudesse voltar...

Teria verificado a fechadura antes de sair. Teria cancelado aquele maldito compromisso. Teria levado Lili com ela, sem deixá-la sozinha por um segundo sequer.

Se pudesse voltar...

Chamaria a polícia. Gravaria. Fotografaria. Usaria todos os meios que o mundo civilizado oferece a uma mãe para proteger o próprio filho.

Ela faria Lili ver a força da lei.

A força da razão.

E não a mãe se transformando numa fera enlouquecida, rasgando tudo à sua frente.

Ela queria uma chance.

Uma única chance de escolher de novo.

Uma chance de impedir que Lili fosse acordada todas as noites por pesadelos de sangue e fogo.

Uma chance de não ter que encarar, todas as manhãs, no espelho, aquela mulher de olhar feroz — uma estranha até para si mesma.

Mesmo que precisasse pagar qualquer preço.

Qualquer coisa.

Uma tontura violenta veio de repente.

A rua diante dela começou a girar. As luzes se distorceram. A chuva virou traços confusos.

O rosto de Lili se alongou, borrado.

Todos os sons desapareceram — a chuva, os carros, a música distante — transformando-se em um zumbido agudo, vazio.

Ela cambaleou.

Tentou se apoiar no poste ao lado.

Mas seus dedos apenas tocaram o metal frio e escorregadio.

Não conseguiu segurar nada.

A escuridão veio.

Suave.

Total.

E a engoliu.

Antes que sua consciência desaparecesse completamente, a última coisa que ela viu foi Lili.

A filha levantando a cabeça.

E nos olhos dela...

Por um instante.

Aquele medo.

O mesmo medo de uma criança.

Então veio o grito.

Não o silêncio sufocado de cinco anos atrás.

Mas um grito agudo, rasgando tudo.

Rasgando a chuva.

“МÃE——!”

——————

A escuridão não era vazio.

Era como um líquido denso e morno, como um útero, envolvendo a consciência de Erika enquanto ela afundava. Não havia dor, não havia som, não havia o vermelho pegajoso nem o cheiro queimado das lembranças.

Apenas um cansaço profundo.

Como se pudesse continuar afundando para sempre.

Afundando até o fim do tempo.

Afundando até antes de tudo começar… e depois de tudo terminar.

Então, um som.

Agudo.

Persistente.

Como uma agulha fria perfurando aquele silêncio.

Vrrrr… vrrrr…

Era o celular vibrando.

Sobre o criado-mudo de madeira, insistente, regular.

As pálpebras de Erika tremeram.

Pesadas.

Pesadas como chumbo.

Ela conseguiu abri-las apenas um pouco.

Luz.

Não a luz cinzenta e úmida da chuva do lado de fora do consultório.

Mas uma luz clara.

Forte.

Entrando pelas frestas da persiana, típica de uma tarde ensolarada.

O ar tinha um leve cheiro de poeira.

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E também…

Detergente de morango.

E pão recém-assado.

Ela abriu os olhos de repente.

O teto.

Conhecido.

E estranho.

Branco amarelado.

Num canto, uma mancha de infiltração, com formato irregular, como uma folha seca.

Lili dizia que parecia um “porquinho voador”.

Depois, quando se mudaram para o apartamento onde tudo aconteceu, o teto era liso.

Branco.

Sem “porquinho voador”.

O coração começou a bater descontrolado.

Irregular.

Violento.

Como um animal tentando arrebentar a própria jaula.

Ela virou a cabeça, lentamente.

Com dificuldade.

Centímetro por centímetro.

O lençol.

Verde-claro.

Com estampas de dente-de-leão branco.

Era o mesmo da casa no bairro “Vale Verde”.

Não.

Não era.

A cor estava mais viva.

Sem o desgaste de tantas lavagens.

Ao lado do travesseiro, um ursinho de pelúcia.

Um dos olhos costurado de forma torta com linha preta.

Ela mesma tinha feito aquilo.

Na noite do aniversário de sete anos de Lili.

Mas aquele ursinho…

Tinha se perdido na mudança.

Em frente à cama, a penteadeira.

No espelho, desenhos de flores feitos com giz de cera.

E a palavra “Mãe”, escrita torta.

A letra de Lili.

No reflexo do espelho…

Um rosto.

O dela.

Mas não o dela de agora.

Não tão magra.

Não tão pálida.

Sem as olheiras profundas.

Sem as marcas cravadas pelo tempo e pela insônia.

Era o rosto de cinco anos atrás.

Mais cheio.

Mais jovem.

Ainda com algo intacto dentro dele.

O celular continuava vibrando.

Vrrrr… vrrrr…

Ela estendeu a mão.

Como uma marionete.

Movimento mecânico.

Pegou o aparelho com capa rosa de silicone.

A tela estava acesa.

Uma notificação.

E o horário.

15:07

Quinta-feira, 12 de março de 2025.

O som parou.

E o mundo também.

Silêncio absoluto.

Tão profundo que ela conseguia ouvir o próprio sangue pulsando nos ouvidos.

Como um rugido distante.

Como um tsunami se aproximando.

12 de março de 2025.

15:07 da tarde.

Não.

Não.

Não.

As engrenagens da memória começaram a girar.

Violentas.

Rangendo.

Ela lembrava.

Com clareza.

Cinco anos atrás.

Naquele mesmo dia.

Ela recebeu a mensagem de Lili às 15:17.

Estava no mercado.

Duas quadras de casa.

Na fila do caixa.

Depois…

Correu.

Escadas.

Chave.

Porta.

Tudo isso…

No máximo dez minutos.

Ou seja…

Ela entrou no apartamento por volta de 15:30.

Mas agora…

Era 15:07.

Por quê?

Por que 15:07?

Por que ela não estava no quarto da casa alugada?

Por que não estava no presente?

Por que estava aqui?

Nesse lugar?

O apartamento.

Onde tudo começou.

Onde tudo foi destruído.

O lugar que ela tentou esquecer.

E para onde sempre voltava nos pesadelos.

Um frio absoluto percorreu sua espinha.

Não era medo do que já aconteceu.

Era medo do impossível.

Do absurdo.

Do que não deveria existir.

Ela morreu?

Desmaiou na chuva… e isso era depois da morte?

Um tipo de inferno?

Um ciclo eterno feito das suas memórias mais profundas?

Ou…

Tudo aquilo…

Os cinco anos…

A prisão…

A distância de Lili…

A chuva…

A dor…

Era apenas um sonho?

E agora…

Ela acordou?

15:07.

Ainda havia tempo.

Ainda havia tempo.

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