O tratamento psicológico de Lili foi algo em que Erika insistiu.
Mesmo sendo caro. Quase metade do salário dela.
A terapeuta era uma mulher de meia-idade chamada Dra. Isabel. Tinha um rosto gentil, voz calma. O consultório era acolhedor, com sofás macios e brinquedos de pelúcia.
Mas, para Lili, cada sessão era como um castigo.
—
Cinco anos depois do incidente, numa tarde comum de quarta-feira, Erika pediu para sair mais cedo do trabalho para acompanhar Lili até o consultório.
A sessão daquele dia parecia mais longa do que o normal.
Erika estava sentada no sofá da sala de espera, já familiar, com estampa de flores desbotadas, olhando o céu pesado pela janela.
Ia chover de novo.
Ela folheava, sem perceber, uma revista antiga sobre educação infantil. Pais perfeitos, sorridentes. Crianças felizes.
Os títulos doíam como lâminas:
“Como se comunicar melhor com adolescentes”
“Dê ao seu filho uma infância cheia de amor”
“Dez maneiras de construir confiança com seu filho”
Cada palavra era um lembrete silencioso do seu fracasso.
Confiança.
Quanto ainda existia entre ela e Lili?
A porta do consultório finalmente se abriu.
Lili saiu.
Mais pálida do que antes. Os olhos levemente vermelhos.
Ela tinha chorado.
Dra. Isabel veio logo atrás e fez um sinal discreto para Erika, pedindo que esperasse.
O coração de Erika apertou.
Ela levou Lili até a área de descanso.
“Você está cansada? Quer água?”
Lili balançou a cabeça.
Sentou-se numa cadeira de plástico, encolhida, abraçando a mochila, olhando para o chão com um olhar vazio.
Erika voltou até a porta do consultório.
A médica falou em voz baixa:
“Hoje... ela mencionou alguns detalhes.”
Erika sentiu o corpo vacilar. Segurou o batente da porta.
“Detalhes... sobre aquela tarde. Sobre o momento em que você entrou.”
O mundo pareceu girar.
“Ela disse... que lembra da sensação do sangue no seu rosto. Do som dos ossos se quebrando. Disse que lembra... de você indo até a cozinha com a tesoura na mão, de costas para ela.”
A voz de Isabel ficou ainda mais baixa.
“Ela disse que... o seu jeito naquele momento parecia estranho. Assustador.”
Uma pausa.
“E disse também que... às vezes pensa que, se naquele dia Everton não tivesse ido... ou se você não tivesse chegado tão rápido... talvez tudo tivesse sido diferente.”
O coração de Erika parou.
“Ela também pensa que... se tivesse sido mais corajosa, se tivesse gritado mais alto... ou...”
A médica hesitou.
“...ou se ela nunca tivesse mandado aquela mensagem.”
Erika recuou como se tivesse sido atingida.
As costas bateram contra a parede fria.
Não deveria ter mandado a mensagem?
Então, na mente ferida e confusa de Lili...
Aquele pedido de socorro não era salvação.
Era o começo do inferno.
Era ela quem tinha apertado o botão que transformou a mãe em um monstro?
Não.
Não é assim.
Não é culpa sua.
É minha.
Eu não fui forte o suficiente.
Eu não fui racional.
Eu virei uma fera.
Mas quando Erika tentou falar...
Nenhuma palavra saiu.
A dor e a culpa eram como concreto endurecido bloqueando sua garganta.
“Ela também disse...” continuou Isabel, com um olhar cheio de compaixão, “que agora tem medo de vermelho. De barulhos altos.”
Uma pausa.
“E... de você.”
As últimas palavras eram leves como uma pena.
Mas caíram como um martelo.
Quebrando o último pedaço de estabilidade que Erika ainda sustentava.
—
Ela não sabia como saiu do consultório.
Lá fora, uma chuva fina começava a cair.
Lili caminhava meio passo atrás dela.
Silenciosa.
Como uma sombra.
Nenhuma das duas usava guarda-chuva.
A água molhava os cabelos, escorria pelos ombros, fria contra a pele.
A rua brilhava, refletindo as luzes amareladas dos postes e os faróis dos carros.
O mundo se dissolvia em tons cinzentos.
O olhar de Erika se perdeu.
Tudo começou a se misturar.
Cinco anos de memórias.
Sussurros.
Olhares evitados.
Despertares no meio da noite, coberta de suor frio.
Tudo se entrelaçando como uma corda áspera.
Apertando seu coração cada vez mais.
Ela salvou a filha.
Mas matou, com as próprias mãos, a mãe que existia dentro dela.
Provou seu amor da forma mais extrema possível.
E transformou esse amor na origem do medo.
A lei a declarou inocente.
Mas ela e a filha...
Foram condenadas.
Presas para sempre naquela mancha vermelha.
—
A chuva ficou mais forte.
Na esquina, uma padaria espalhava o cheiro de pão quente com manteiga.
Crianças corriam, rindo, respingando água.
Um homem passeava com seu cachorro, que abanava o rabo feliz.
O mundo seguia.
Barulhento.
Vivo.
Cheio de pequenas coisas.
Só elas duas...
Como dois fantasmas encharcados, perdidos na borda daquele mundo.
Separadas por um único passo.
E por um abismo impossível de atravessar.
Um abismo feito de sangue e fogo.
Erika parou.
Virou-se.
Olhou para Lili.
A água escorria pelo rosto da menina, impossível saber se era chuva ou lágrima.
Os cílios molhados.
Os lábios arroxeados de frio.
As mãos apertando a mochila com força.
Ela continuava olhando para o chão.
Para as rachaduras molhadas do piso.
Naquele instante, Erika entendeu com uma clareza absoluta:
Ela podia suportar o julgamento do mundo.
O trabalho pesado.
Os olhares.
Os rumores.
Mas não podia suportar isso.
Não podia suportar que Lili...
A menina que ela salvou com tudo o que tinha, até com a própria alma...
Vivesse com medo da própria mãe.
“Se... se eu pudesse voltar...”