Às dez da manhã, no tribunal.
O juiz começou a ler a sentença. Artigos longos da lei, resumo das provas, o processo de deliberação do júri. Erika permaneceu de pé, com as costas eretas, o olhar fixo à frente, mirando o brasão do Brasil acima da cabeça do juiz. O verde e o amarelo, cores que um dia representaram florestas e riquezas, agora eram apenas manchas desfocadas diante de seus olhos.
“...diante do exposto, considerando que a ré, Erika Vicente, agiu em circunstância extrema, ao se deparar com sua filha, Liliana Vicente, em risco iminente de abuso sexual, e embora sua conduta tenha ultrapassado claramente os limites necessários, ela decorreu de um impulso incontrolável de proteção familiar e de extremo estado de pânico, enquadrando-se no disposto do artigo 25 do Código Penal, como legítima defesa com excesso exculpável... este tribunal declara a ré, Erika Vicente, inocente, determinando sua imediata liberdade.”
O martelo bateu.
A sala explodiu em ruídos. Aplausos, vaias, jornalistas correndo para a saída. O promotor Castro se aproximou, exausto, e sorriu de leve, tocando o ombro dela.
“Acabou, senhora Vicente. Você está livre.”
Livre?
Erika se virou lentamente.
Maria correu até ela e a abraçou, chorando sem conseguir falar. Mas o olhar de Erika passou por cima do ombro da irmã, procurando desesperadamente.
Lili estava a alguns metros de distância, segurando a mão de uma agente. Ainda de cabeça baixa, olhando para os próprios sapatos. A presilha de morango estava torta.
Erika afastou Maria com cuidado e caminhou, passo a passo, até a filha. As pernas pareciam de algodão. Ela se agachou diante de Lili, ficando na mesma altura.
“Lili...” disse, com a voz rouca, quase irreconhecível, “meu amor... a mamãe... nós vamos para casa.”
Lili levantou a cabeça.
Devagar. Muito devagar.
O olhar dela finalmente encontrou o de Erika.
Mas ali não havia nada do que Erika queria ver.
Nenhuma alegria. Nenhum alívio. Nenhum afeto depois de sobreviver.
Só medo.
Um medo profundo, vazio.
E algo pior.
Distância.
Então o olhar de Lili desceu.
Parou nas mãos de Erika.
Mãos com as unhas recém-pintadas de vermelho. Tremendo levemente.
Os olhos de Lili se arregalaram de repente.
Como se tivesse visto algo aterrorizante.
O pequeno corpo começou a tremer violentamente. Ela deu um passo para trás, se escondendo atrás da agente, deixando à mostra apenas metade do rosto pálido e um olho tomado pelo pânico.
A mão de Erika ficou suspensa no ar.
O vermelho das unhas parecia sangue seco.
Ela entendeu.
Para a filha, ela nunca mais seria aquela mãe gentil que fazia bolo de chocolate e contava histórias antes de dormir.
Ela era aquela figura coberta de sangue, brandindo uma barra de ferro, cortando algo diante de uma chama azul.
Um monstro.
E as mãos de um monstro... são sempre vermelhas.
—
Lili quase não falava.
Quando precisava responder, usava o mínimo possível.
“Sim.”
“Não.”
“Tá.”
“Não sei.”
Durante as refeições, ficava olhando para o prato, mastigando devagar, como se comer fosse uma tarefa difícil de cumprir.
À noite, se trancava no quarto. A porta sempre fechada.
Erika já tentou, em voz baixa, dizer:
“Boa noite, meu amor.”
A resposta era silêncio.
Ou um “hum” quase inaudível, escapando pelo nariz.
No começo, Erika achou que era questão de tempo.
Feridas precisam de tempo para cicatrizar.
Ela tentou mais.
Fez os pães de chocolate crocantes que Lili adorava — mas Lili dava uma mordida e largava.
Comprou os DVDs dos desenhos favoritos da infância — mas Lili assistia poucos minutos e desligava.
“Tô cheia de tarefa.”
Erika passou a evitar qualquer coisa que pudesse despertar lembranças.
Geleia vermelha — parecia sangue.
Churrasco — o cheiro de queimado.
Até objetos cortantes.
As facas foram substituídas por versões cegas. As tesouras, escondidas no fundo das gavetas.
Mas nada disso adiantava.
O mais evidente era a recusa ao toque.
Lili se esquivava como um animal assustado de qualquer contato inesperado.
Quando Erika entregava algo, Lili encolhia os dedos, evitando tocar sua mão.
Uma vez, Erika viu a gola da blusa de Lili amassada. Instintivamente estendeu a mão para ajeitar.
Lili recuou de repente.
Bateu contra a parede.
As pupilas dilatadas.
A respiração acelerada.
Levou cinco minutos para se acalmar.
“Desculpa, meu amor... a mamãe não quis...” Erika recolheu a mão, os dedos gelados.
Lili apenas balançou a cabeça.
Voltou para o quarto.
Trancou a porta.
Naquela noite, Erika ficou muito tempo parada do lado de fora.
Escutando o choro baixo, contido, do outro lado.
Encostou a testa na porta fria.
As unhas cravaram na palma da mão até deixarem marcas brancas.
Ela tinha salvado a filha.
Da forma mais extrema possível.
Despedaçou o demônio.
Mas por quê...
Por que a filha a temia como se ela fosse outro demônio?