Ela não lembrava como tinha atravessado a sala.
Só lembrava de ter agarrado alguma coisa — a faca de fruta, esquecida fora da cozinha depois de cortar maçãs no dia anterior. Um lampejo prateado. As costas de Everton enrijeceram. Ele soltou um grunhido surdo e se virou.
O rosto dele estava distorcido pelo desejo e pela fúria. Ainda havia espuma do shampoo de morango no canto da boca, misturada aos fios de cabelo de Lili.
Ele avançou com um soco.
Ela desviou. Ou talvez não tenha desviado. Não lembrava.
Só sabia que a faca em sua mão entrava e saía, entrava e saía, repetidas vezes. O líquido quente espirrava em seu rosto, na boca. Salgado. Metálico.
Everton caiu.
Seu corpo convulsionava no chão, como um peixe jogado fora d’água. A garganta emitia sons engasgados. Os olhos arregalados, fixos nela — ou talvez atravessando-a, perdidos no vazio.
Mas ela não parou.
Raiva, medo, repulsa — tudo explodindo como um vulcão.
No canto da sala, ela viu a barra de ferro maciça que Lili usava para treinar ginástica. Caminhou até lá. Pegou. Era pesada.
Levantou. Golpeou.
O som dos ossos se partindo era surdo, viscoso.
Levantou. Golpeou.
Levantou. Golpeou.
Até que aquele rosto se transformou numa massa irreconhecível de carne vermelha e branca.
Então ela viu.
Aquilo.
A coisa grotesca que pendia da calça aberta. Aquilo que havia tentado violar sua filha.
Ela foi até a cozinha. Abriu a gaveta. Pegou o maçarico de churrasco, de cabo longo. E a maior tesoura que encontrou.
A chama saiu azul, intensa, ardente.
A carne queimou. Enrugou. Escureceu. Um chiado contínuo. E aquele cheiro — doce, nauseante.
Ela cortou.
Era resistente. Precisou de força.
Crec.
Crec.
O choro de Lili a trouxe de volta.
Ela se virou.
Lili ainda estava encolhida no sofá, exatamente na mesma posição de quando ela entrou. Imóvel. Apenas os olhos, escancarados, vazios, fixos no teto. As lágrimas escorriam sem parar, silenciosas, encharcando o tecido do sofá.
“Lili...”
Erika largou a tesoura e o maçarico, deu um passo à frente.
Mas suas mãos... seu corpo... seu rosto... estavam cobertos de sangue.
E então ela viu.
Nos olhos da filha, refletia-se a imagem dela naquele momento — cabelos em desordem, o corpo inteiro manchado de sangue, a tesoura ainda pingando.
Como um monstro que tivesse saído do inferno.
As pupilas de Lili se contraíram de repente.
Ela soltou um pequeno som, quase inaudível, como um suspiro cortado.
E então seus olhos viraram.
Seu corpo cedeu.
Ela desmaiou.
Depois vieram as sirenes.
Os gritos dos vizinhos.
A porta sendo arrombada.
Os policiais invadindo.
As algemas.
Os flashes.
E vozes. Muitas vozes.
Perguntas vindo de todos os lados, como golpes sucessivos, sem dar tempo para respirar.
“Senhora, você conhecia o falecido?”
“Foi você quem o matou?”
“Sua filha sofreu abuso sexual?”
“Por que você mutilou o corpo?”
“Você tem noção de que isso é um crime grave?”
Erika estava sentada na cama dura da cela, abraçando os joelhos, com o rosto enterrado nos braços.
Não havia lágrimas.
As lágrimas tinham acabado nos primeiros três meses.
Agora só restava um cansaço profundo, frio, sem fundo… e um arrependimento corrosivo, que queimava por dentro como ácido, dia e noite, devorando suas entranhas.
Ela havia protegido a filha.
Da forma mais primitiva, mais brutal, mais sangrenta possível.
Destruiu a ameaça. Rasgou-a em pedaços.
Mas o que ela tinha mostrado à filha?
Mostrou uma mãe se transformando em um monstro.
Mostrou a forma mais cruel, mais fora de controle da violência.
Mostrou até onde um ser humano pode afundar na escuridão.
“Se… se eu pudesse voltar…” ela murmurou para a escuridão, a voz rouca como lixa raspando metal,
“eu não pegaria aquela faca. Eu não tocaria naquela barra de ferro. Eu não queimaria… eu chamaria a polícia. Eu tiraria fotos. Eu gravaria o que ele disse. Eu usaria a lei, as provas, todos os meios civilizados… eu ficaria calma. Eu preciso ficar calma. Eu não posso… não posso deixar ela ver aquilo de novo…”
Mas naquele instante…
No exato momento em que viu Lili sendo pressionada contra o sofá…
Toda a camada de civilização foi rasgada.
A fera saiu.
Só existia o instinto de matar.
De destruir completamente a ameaça.
E agora…
Lili não conseguia sequer olhar para ela.
Aquilo doía mais do que qualquer sentença, qualquer prisão, qualquer julgamento do mundo.
Quase ao amanhecer, a porta da cela se abriu.
Uma agente trouxe roupas limpas — o mesmo vestido azul, agora lavado e passado.
E um batom.
Maria tinha mandado.
“Para você ter uma aparência melhor na televisão.”
Erika olhou para aquele batom vermelho vivo… e, por um instante, sentiu vontade de rir.
Aparência?
Toda a cor da sua vida já tinha sido drenada há muito tempo.
Só restavam cinzas.
E vermelho.
Mesmo assim, ela passou o batom.
Diante do espelho riscado, com cuidado, lentamente, espalhou a cor sobre os lábios ressecados.
O vermelho intenso parecia uma ferida recém-coagulada.