Erika ficou olhando para a porta por onde a filha desaparecera e sentiu como se uma mão invisível apertasse suas entranhas, torcendo-as devagar, arrancando-as pouco a pouco de dentro dela.
Queria correr até Lili, abraçá-la, usar o próprio corpo para bloquear todos aqueles olhares cruéis, curiosos, acusadores.
Queria envolver aquele corpinho pequeno e trêmulo nos braços e dizer: acabou, meu amor, já passou.
Mas ela não conseguia se mover.
Estava pregada ao banco dos réus, pregada pela lei, pelos procedimentos e por aquele pesadelo que jamais passaria de verdade.
Ela olhou para o júri. Doze homens e mulheres.
Nos rostos deles havia choque, compaixão, repulsa e confusão. Seus olhos iam dela para Vargas, e de Vargas para ela.
Ela viu a dona de casa sentada no meio secar discretamente o canto dos olhos com um lenço.
Viu também o caminhoneiro com o broche do sindicato franzir a testa e balançar a cabeça devagar.
Então Erika entendeu com uma clareza brutal: eles não estavam decidindo se Everton era culpado ou não.
Estavam julgando se ela, Erika, era culpada.
Estavam julgando até onde uma mãe podia enlouquecer para proteger um filho, e até que ponto a sociedade estava disposta a tolerar essa loucura.
O juiz declarou o encerramento da sessão. A sentença seria proferida às dez da manhã do dia seguinte.
Os agentes a conduziram para fora do banco dos réus. Ao passar pela plateia, fragmentos de conversas abafadas chegaram até seus ouvidos.
“...é trágico demais... aquela criança está destruída para sempre...”
“...mas ela também foi longe demais... aquilo parecia cena de filme de terror...”
“...e se o homem fosse inocente? O advogado levantou pontos válidos...”
“...se fosse comigo, se alguém encostasse na minha filha, eu matava também! Queimava até virar cinza!”
“...isso não foi só matar... foi tortura... ela deve estar louca...”
Louca.
A palavra atravessou Erika como uma agulha de gelo, perfurando a última camada de proteção que ainda lhe restava.
Ela foi levada de volta à cela provisória. A porta de ferro se fechou com um estrondo atrás dela, isolando-a do mundo lá fora, cheio de vozes e julgamentos. O espaço era estreito: uma cama dura, um vaso sanitário de aço inoxidável, um espelho coberto de arranhões. Ela caminhou até ele.
A mulher refletida tinha olhos fundos, maçãs do rosto salientes, a pele pálida de quem não via o sol há muito tempo. O vestido azul pendia solto, como se estivesse vestido num esqueleto. Mas o mais assustador eram os olhos. Aqueles olhos castanhos claros, que Lili um dia disse serem “doces como mel”, agora eram apenas duas poças profundas de cansaço endurecido... e algo mais. Algo que ela mesma evitava encarar. Um brilho feroz, animal.
Ela levantou a mão e tocou o espelho frio, a ponta dos dedos deslizando pelo rosto da mulher refletida.
“Eu realmente enlouqueci?”, murmurou.
Não houve resposta. Apenas o eco distante de outra detenta gritando histericamente no fim do corredor, reverberando pelas paredes frias de azulejo.
Naquela noite, Erika sonhou com fogo.
Não com a chama pequena e azulada da pia da cozinha, queimando proteína. Mas com um incêndio vermelho vivo, devorador, rugindo como uma fera. Dentro das chamas, Lili dançava com o vestido amarelo. Mas o rosto dela era o de Everton, sorrindo com dentes amarelados pela fumaça.
De repente, o fogo virou sangue.
Sangue espesso, quente, despejando-se do teto, cobrindo seus tornozelos, subindo pelos joelhos, pelo peito... Ela tentou lutar, mas mãos emergiam do sangue, agarrando suas pernas, puxando-a para baixo. Eram as mãos de Everton, pálidas e inchadas, com sujeira escura sob as unhas.
Ela gritou, mas o sangue invadiu sua boca, seu nariz, seus olhos.
Ela acordou num sobressalto.
O corpo inteiro encharcado de suor frio. O coração batendo descontrolado contra as costelas, como se quisesse arrebentá-las e escapar. A cela estava mergulhada na escuridão, exceto por uma linha tênue de luz que entrava por baixo da porta.
Ela respirava com dificuldade, em goles curtos e desesperados, as mãos agarrando com força o cobertor áspero, as unhas cravando na própria pele até que a dor superasse o terror.
Não era um sonho.
Era memória.
Aquela tarde se repetia na mente dela, incontrolável, cada detalhe nítido demais.
A mensagem. O coração parando. As sacolas sendo largadas. A corrida. Escadas. Um lance, dois, três. Os pulmões queimando. As pernas pesadas como chumbo. A chave tremendo na fechadura. A porta se abrindo.
E então, a sala.
Lili estava pressionada contra o sofá. O vestido amarelo puxado até a cintura. A calcinha branca, pequena, torcida para o lado. O corpo enorme de Everton curvado sobre ela, as calças abaixadas até os joelhos. O rosto de Lili enterrado na almofada, apenas uma mão estendida, fraca, os dedos curvados como um caule murcho.
O tempo congelou.
E então, o mundo se partiu.