《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 2

Erika finalmente ergueu a cabeça. Seu olhar passou por cima dos ombros do promotor e do advogado de defesa, até pousar na terceira fileira da plateia.

Sua irmã, Maria, apertava uma menina contra o peito.

A garota usava um vestido amarelo-claro, tinha os longos cabelos castanhos presos em duas tranças bem alinhadas e um presilha de morango no cabelo.

Era Lili.

A sua Lili.

Mas Lili não olhava para a mãe.

Mantinha a cabeça baixa, as mãozinhas agarradas com força à barra do vestido, encolhida nos braços da tia Maria como um caracolzinho assustado que, depois do susto, preferisse se esconder para sempre dentro da própria casca.

Desde o começo da audiência, Lili não lançara um único olhar para Erika.

Um frio mais gelado que a própria morte subiu devagar pela espinha de Erika.

Lili, ela disse em silêncio, cada palavra raspando por dentro como cacos de vidro.

Olha para mim, meu amor.

A mamãe está aqui.

A mamãe te protegeu.

Mas Lili apenas enterrou ainda mais o rosto.

O promotor chamou a última testemunha. Lili.

Quando a oficial conduziu aquela pequena figura de vestido amarelo até o banco das testemunhas, o tribunal ficou tão silencioso que se podia ouvir o sibilo contínuo do ar-condicionado.

Lili precisou se sentar sobre uma almofada especial para que o queixo ultrapassasse a divisória da bancada.

Ela levantou a mão direita para prestar juramento, e sua voz era fina como o zumbido de um mosquito.

“Liliana”, disse o promotor Castro, agora com uma suavidade incomum.

Aproximou-se da bancada e se inclinou um pouco, como se falasse com um passarinho que se assustava com qualquer movimento.

“Você pode contar ao tribunal o que aconteceu na tarde de 12 de março de 2025?”

Os lábios de Lili tremiam.

Seu olhar correu em desespero pelo tribunal, passou pelos rostos desconhecidos que a observavam, pelas lentes frias do advogado Vargas e, por fim, pousou por um instante ínfimo sobre Erika, menos de um segundo.

Naquele olhar não havia apego, nem calor, apenas um medo vazio que Erika não conseguia decifrar.

“Eu... eu estava em casa. Minha mãe tinha ido ao mercado.”

A voz de Lili saía entrecortada e plana, como se ela recitasse um texto que não conhecia direito.

“O tio Everton chegou. Ele... ele disse que minha mãe tinha mandado ele ficar comigo. Ele tinha... tinha a chave. Ele entrou, e depois... depois me abraçou e colocou a mão por dentro da minha roupa...”

“Ele tocou em você, Liliana?”

“Ele... ele queria. Eu empurrei ele, eu chorei. Eu... eu mandei mensagem para a minha mãe.”

“E depois?”

“Depois a minha mãe voltou. Ela... ela gritou. O tio Everton me soltou, ele quis bater na minha mãe. Aí... aí minha mãe estava com uma faca. Ela... ela esfaqueou ele. Muitas vezes. Ele caiu, sangrando. A minha mãe continuou batendo nele com... com uma coisa muito pesada, de ferro. Continuou batendo. Depois minha mãe... minha mãe foi para a cozinha, pegou um isqueiro e uma tesoura...”

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A voz de Lili foi ficando cada vez mais baixa.

As últimas palavras quase desapareceram.

Seu corpo começou a tremer sem controle, e os dentes batiam uns nos outros.

“Chega!”

Maria se levantou da plateia, o rosto coberto de lágrimas.

“Ela é só uma criança! Não façam ela continuar!”

O juiz sinalizou para que a oficial retirasse Maria da sala.

Lili viu a tia sendo levada, e o último vestígio de luz em seus olhos pareceu se apagar.

Ela ficou sentada ali como uma boneca esvaziada de alma.

O advogado Vargas se levantou e caminhou até o banco das testemunhas.

Ele não se inclinou.

“Liliana, você acabou de dizer que o tio Everton ‘colocou a mão por dentro da sua roupa’. Onde exatamente ele tocou? No peito? Na barriga? Nas costas?”

O rosto de Lili perdeu toda a cor num instante. Ela abriu a boca, mas não conseguiu emitir som.

“De acordo com o laudo do hospital, Liliana, você não apresentava nenhum ferimento, nenhum hematoma, nenhuma escoriação, nenhum sinal que pudesse comprovar uma agressão violenta. Estou correto?”

“Eu... eu...”

“O tio Everton era namorado da sua mãe havia dois anos, certo? Ele frequentava a sua casa, levava doces para você, brincava com você. Vocês se davam bem, não é?”

As lágrimas de Lili começaram a cair grossas, uma após a outra.

Mas ela não chorava alto.

Apenas soluçava em silêncio, com os ombros tremendo violentamente.

“Talvez, naquela tarde, vocês estivessem apenas brincando de algo que passou um pouco do limite? Talvez a sua mãe tenha chegado, entendido tudo errado e então... tudo saiu do controle? Você ama a sua mãe, não ama, Liliana? Então talvez, depois, você tenha dito à polícia algumas coisas... que talvez não fossem totalmente verdade, para proteger a sua mãe?”

“Não!”

Lili gritou de repente, num som tão agudo e dilacerante que já não parecia a voz de uma criança.

“Não! Ele queria me machucar! Ele queria!”

Ela abraçou a própria cabeça e se encolheu na cadeira, soltando um gemido animal, ferido.

A audiência precisou ser interrompida.

Lili foi levada para receber atendimento psicológico de emergência.

A plateia começou a cochichar.

Os jornalistas digitavam sem parar.

O advogado Vargas voltou ao seu lugar com o rosto impassível, como se tivesse acabado de cumprir um procedimento qualquer.

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