《Após renascer, usei a razão para proteger a minha filha.》Capítulo 1

O ponto de partida da memória sempre ficava congelado naquele vermelho espesso e pegajoso.

Na primavera de 2026, a chuva chegou cedo demais, e mais fria do que nunca.

Na Terceira Vara Criminal de Araraquara, uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo, o ar parecia parado como uma velha esponja embebida em formol.

Cada respiração carregava o ardor do conservante e o gosto áspero do desespero.

A plateia estava lotada de gente: jornalistas, curiosos, grupos de mulheres com cartazes nas mãos, homens de semblante pesado.

Os olhares deles eram como sondas perfurando as costas da mulher sentada no banco dos réus.

Erika Vicente, trinta e quatro anos, um metro e sessenta e dois de altura, havia perdido onze quilos na prisão.

Agora pesava apenas quarenta e sete. Vestia um vestido-camisa azul-escuro emprestado pela irmã, Maria.

A gola larga demais deixava à mostra a curva afiada de uma clavícula saliente. No pulso, um relógio de plástico comprado numa loja barata.

O mostrador havia parado no dia em que ela foi presa, com os ponteiros cravados para sempre às três e dezessete da tarde, a hora em que recebeu a mensagem da filha, Lili.

“Mãe, o tio Everton veio. Ele disse que quer me mostrar uma ‘surpresa’. Eu estou com medo. A porta está trancada, mas ele tem a chave.”

O promotor, Dr. Castro, fazia suas alegações finais.

A voz dele, amplificada pelo microfone, ecoava no tribunal revestido de madeira escura, carregada de uma solenidade teatral.

“Senhoras e senhores do júri... o que temos diante de nós não é uma assassina de sangue frio, e sim uma mãe levada ao limite.”

“Quando uma fera estende a garra em direção ao filhote, o que faz a mãe? Ela luta.”

“Com os dentes, com as garras, com tudo o que tiver. O que Erika Vicente fez foi exatamente o que qualquer mãe faria: proteger a própria filha.”

“As provas mostram que o réu, Everton Amaral, um homem adulto de quarenta e dois anos, pesando noventa e dois quilos, na tarde de 12 de março de 2025, aproveitou-se do breve período em que a mãe da vítima estava fora de casa, entrou no apartamento com uma chave feita sem autorização e tentou cometer abuso sexual contra Liliana Vicente, de apenas onze anos.”

“A mensagem de socorro enviada por Liliana, as imagens do circuito do prédio mostrando Erika correndo desesperadamente de volta para casa, os gritos e os impactos ouvidos pelos vizinhos... tudo isso aponta para um fato incontestável: quando Erika atravessou aquela porta, sua filha estava diante de um perigo imediato e mortal.”

O advogado de defesa, Dr. Vargas, levantou-se.

Era um homem magro e alto, de óculos sem aro, com olhos estreitos e frios por trás das lentes.

“Meritíssimo, eu me oponho. O promotor Castro está substituindo a lei por emoção. ‘Perigo imediato’? Vejamos os fatos.”

“O laudo pericial mostra que o senhor Everton Amaral morreu em razão de três facadas nas costas, sendo que uma delas perfurou o pulmão. Mas isso não é tudo.”

PUBLICIDADE

“Em seguida, a vítima sofreu pelo menos dezessete golpes com objeto contundente, com esmagamento dos ossos da face. E por fim...”

Vargas fez uma pausa, deixando o olhar percorrer os jurados, garantindo que todos ouvissem com clareza o que viria em seguida.

“...seus órgãos genitais foram mutilados com um instrumento cortante e depois queimados na pia da cozinha.”

“Isso, senhoras e senhores, não foi legítima defesa. Foi violência excessiva, cruel, movida por fúria. Muito além de qualquer limite aceitável. Foi uma execução brutal.”

Da plateia veio um murmúrio abafado. Algumas juradas empalideceram.

Erika não se moveu. Continuou olhando para as próprias mãos sobre o colo. Estavam limpas, as unhas curtas e bem aparadas.

Tinha sido Maria quem as cortara no dia anterior, durante a visita.

Mas, por mais que lavasse, ela sempre sentia que ainda havia algo escuro e seco preso nas frestas das unhas.

E aquele cheiro.

O cheiro de proteína queimada, doce e podre ao mesmo tempo, impregnado para sempre no fundo do seu nariz.

“Após o ato, a acusada tentou limpar a cena do crime, jogou parte dos restos do corpo no encanamento e queimou roupas na banheira”,

continuou Vargas, com a mesma calma de quem lê uma lista de compras.

“Isso demonstra consciência plena do que fez e uma tentativa posterior de ocultar o crime.”

“Meu cliente, o senhor Everton Amaral, talvez tenha cometido erros, talvez tenha agido de forma imprópria, mas falhas assim jamais deveriam ser punidas com tamanha barbárie, com tamanha desumanidade.”

“Ainda mais quando o suposto ‘estupro tentado’ se apoia unicamente no depoimento de Liliana Vicente, uma menina de onze anos claramente influenciada pela mãe, e numa mensagem vaga.”

“Não há prova material, não há sêmen, não há laceração. Só existe o medo e a imaginação descontrolada de uma mãe.”

“Objeção!”, explodiu o promotor Castro, levantando-se de súbito.

“A defesa está difamando de forma vergonhosa uma vítima menor de idade!”

“Estou apenas apresentando outra possibilidade, senhor promotor. Uma hipótese mais compatível com a lógica do comportamento humano: um conflito passional que saiu do controle e acabou em tragédia.”

O juiz bateu o martelo.

“Objeção rejeitada. Doutor Vargas, controle os termos, mas pode prosseguir.”

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia